Foi uma injeção de adrenalina no músculo cardíaco. Por volta das 16h20 de ontem, quando veio a notícia de que a agência de risco S&P tinha melhorado a perspectiva para o Brasil, o dólar estendeu sua queda em quase 1 ponto percentual, fechando o dia em queda de 1,14%, a R$ 4,80. A bolsa tinha roçado os 119 mil pontos lá pelo meio dia, caiu para 117 com o anúncio misto do Fed (na linha, "hoje não sobe os juros, mas amanhã é outro dia") e, com o afago, da S&P, voltou pimpona aos 119k. E os juros futuros tombaram, baixando as taxas (e aumentando o valor de face) dos títulos públicos prefixados e de inflação. O Renda+2030, por exemplo, vinha operando em 5,61%. Fechou o dia em 5,54%. Como a virada de chave rolou aos 40 do segundo tempo, a tendência é que o time dos ativos financeiros entre em campo ainda embalado para a partida de hoje. E com um novo centroavante: a China. Depois de ter cortado seus juros de curto prazo na terça – em 10 pontos-base, para 1,9% –, hoje o BC chinês abateu também 10 pontos-base dos juros de médio prazo (um ano), para 2,65%. O estímulo já se refletiu no minério de ferro, que amanheceu em alta de 1,43% – uma nova lufada de ar fresco para Vale e cia. A sopa de letrinhas AAA, AA, A, BBB, BB… As notas das agências representam o risco de cada governo dar calote. Ou quase isso. Governos podem, em última instância, imprimir dinheiro para honrar suas dívidas. Mas isso equivale a calote (como o próprio Haddad já lembrou): ao produzir grana para esse fim, o governo desvaloriza a moeda de seu país, cria inflação. E o credor se trumbica de qualquer jeito, pois o dinheiro que recebe já nasce valendo menos. Por conta de seu histórico inflacionário, o Brasil tem uma nota baixa nos rankings das agências. No caso lá da S&P é BB- (os sinais de "+" e "-" refinam a escala, já que cada nota pode vir acompanhada de um sinal positivo ou negativo). Mas a S&P e suas equivalentes não dão só a nota. De tempos em tempos, divulgam a chance de o país subir de degrau. Até ontem, a perspectiva do Brasil nesse quesito era considerada "estável" (um eufemismo para "sem chance"). Ontem, essa avaliação subiu para "positiva", ou seja, um indicativo de que há uma possibilidade concreta de subir de BB- para BB. BB- é o mesmo patamar da Colômbia e da África do Sul. Abaixo disso, em B ou B-, há vários países da África sub-sahariana: Congo, Angola, Uganda. A Argentina está pior: CCC. Acima de nós, em BBB, temos México e Arábia Saudita, por exemplo. Na América Latina, o melhor é o Chile, com A. A melhor classificação, AAA, fica com Alemanha, Holanda, Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, Austrália, Canadá e só. Os EUA, com sua dívida em mais de 120% do PIB, fica "só" com AA. Que saiamos logo da turma do fundão. Em tempo: as bolsas dos EUA começam o dia em baixa. São elas que costumam dar o tom da manhã nos mercados. Mas para o Brasil, excepcionalmente, o dia amanhece ensolarado, dado o que vimos aqui. Bons negócios!
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