BRASIL | PREFEITURAS DE CIDADES PEQUENAS QUESTIONAM REDUÇÃO DO FPM NA JUSTIÇA
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| Foto: Prefeitura Municipal de Várzea da Roça (BA) |
Líderes municipais, juntamente com
associações que representam as cidades, vão recorrer à Justiça para evitar
redução do repasse do recurso federal
Mais de 860 municípios brasileiros serão
prejudicados com a diminuição do repasse da primeira parcela do Fundo de
Participação dos Municípios, o FPM, a partir desta terça-feira (10). O impasse
veio à baila após decisão do Tribunal de Contas da União, o TCU, de considerar
a recontagem populacional do IBGE atualizada até 25 de dezembro. O resultado do
censo populacional é requisito básico para a distribuição da verba federal.
Só na Bahia, são 101 municípios que terão
seus orçamentos comprometidos diante da decisão do TCU. Uma dessas cidades,
Central, pode perder recurso de R$ 600 mil mensais, impactando diretamente nos
serviços de saúde. É o que diz o prefeito José Wilker, que já está pensando num
plano B para, caso não consiga reverter a situação. Segundo informações da
União de Municípios da Bahia, a UPB, esses mais de 100 municípios podem perder
até R$ 467 milhões do FPM em 2023.
“Essa baixa pode chegar até 600 mil reais
por mês, então estamos bem preocupados, porque somos uma cidade pobre, que vive
praticamente do FPM, não tem outra fonte. Estamos preocupados e correndo atrás
para ver se resolve essa problemática”, lamenta. "Infelizmente, diminuindo
esse recurso, a gente vai ter que transformar o nosso hospital numa grande UPA,
só de regulação, chegou paciente, regulou, porque a gente não vai ter
capacidade nem de internamento”, destaca.
Prefeito da vizinha Barra, Artur Silva
Filho também lamenta a decisão do TCU que pode prejudicar o orçamento da
cidade, já comprometido com a verba do Fundo de Participação dos Municípios.
Para driblar o impasse, já marcou uma reunião com a equipe do IBGE para
encontrar uma saída positiva.
"Como não temos receita própria,
basicamente recebemos essas transferências constitucionais e o FPM é o
principal deles, um recurso bastante significativo que aplicamos na saúde,
educação. Onde precisam mais, a gente aplica”, explica. "É uma decisão que
complica a vida dos municípios, por isso estamos ajudando o IBGE com nossa
estrutura para que eles estejam nos locais mais distantes da cidade e possam
cadastrar as pessoas. Queremos fazer um pente fino neste levantamento para
manter esse valor de R$ 600 mil que a gente ganhava do FPM", diz.
A União dos Municípios da Bahia, a UPB,
entrou com uma ação coletiva na Justiça Federal para evitar a queda nos
repasses do Fundo de Participação dos Municípios, mas o pedido foi negado no
plantão deste fim de semana. A orientação da associação agora é de que cada prefeitura
faça um pedido de liminar contestando a decisão até o dia 27 de janeiro. De
acordo com a UPB, algumas cidades baianas, como Brejões e Nilo Peçanha,
venceram a queda de braço.
"A UPB tem dado todos os suportes aos
municípios, desde a questão jurídica e administrativa e já entramos com o
pedido de liminar conjunta, infelizmente foi negado, foi uma surpresa para nós
o TCU aceitar a estimativa do IBGE, haja vista que, na maioria dos municípios
brasileiros, não foi concluído o censo, um censo calça curta", desabafa o
vice-presidente da UPB e prefeito da cidade de Belo Campo, José Henrique Tigre.
"Mas se Deus quiser vamos vencer essas questões, unidos nós podemos muito
mais, alguns municípios venceram individualmente com o pedido de liminares e
acredito que solucionaremos esse problema", enfatiza.
O FPM e o TCU
O Fundo de Participação dos Municípios
trata-se de uma transferência constitucional de recurso repassado pela União a
cada dez dias às cidades, com base em 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda
(IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). É definida de acordo
com o número de habitantes, com fixação de faixas populacionais, cabendo a cada
uma delas um coeficiente individual.
A função do TCU, de acordo com a
instituição, em matéria de FPM, consiste em efetuar o cálculo dos coeficientes
individuais dos municípios e fiscalizar a entrega dos recursos. O que acontece
norteado pelo Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.
Com a recontagem populacional realizada
pelo IBGE até o Natal de 2022, mais de 860 municípios brasileiros foram
rebaixados de faixa de habitantes, sofrendo com a diminuição dos recursos do
Fundo de Participação dos Municípios.
Outros estados
No estado de Minas Gerais, 85 municípios
serão impactados pela decisão do Tribunal de Contas da União, fundamentada pelo
censo de 2022 do IBGE. Presidente da Associação Mineira de Municípios, a AMM, o
prefeito de Coronel Fabriciano, Dr. Marcos Vinicius, avalia que a decisão do
TCU foi arbitrária, baseada em dados parciais. Segundo o dirigente, até a
próxima terça-feira, dia 10, os municípios mineiros estarão enviando
contestação ao TCU.
“A normativa do TCU trouxe espanto da
forma que foi feita, em menos de 24h, mesmo o IBGE disponibilizando uma
amostragem parcial, já fez cumprir como se fosse total. Isso pode trazer danos
irreparáveis a 85 municípios do estado de Minas Gerais”, questiona Dr. Marcos.
“Desde setembro de 2022 estamos alertando esses municípios que isso poderia
acontecer e agora cabe à associação mineira orientar esses municípios como se
comportar, para que não sejam penalizados com a falta de recurso”, destaca.
Cidades de outros estados do país também
se mobilizaram e recorreram à Justiça contra a decisão do Tribunal de Contas da
União. No estado do Rio Grande do Norte, por exemplo, 27 municípios que seriam
afetados com a queda do FPM, conseguiram na justiça liminares garantindo a
manutenção dos valores previstos antes dos dados apontados previamente pelo
IBGE.
No Rio Grande do Sul, representantes dos
47 municípios gaúchos que foram prejudicados com a diminuição do repasse
realizaram na primeira semana do ano, uma reunião com a Confederação Nacional
dos Municípios (CNM), juntamente com as Associações de Municípios do Rio Grande
do Sul (Famurs). A ideia é contestar a redução no FPM na Justiça Federal.
Para a Associação Brasileira de
Municípios, primeiro o IBGE precisa fazer o dever de casa e concluir o censo de
2022 para, só depois, o Tribunal de Contas da União fazer as mudanças no
repasse do FPM com o recenciamento concluído, aponta, Gilmar Dominici,
vice-presidente de relações institucionais da Associação Brasileira de
Municípios.
“Essa mudança abrupta, com censo
inconcluso, vai acarretar muitos problemas para esses municípios porque eles já
fizeram seu orçamento para o ano de 2023 com base na arrecadação do FPM“,
observa. “Em razão disso, a ABM está acionando o TCU para que a corte reveja
essa decisão e proceda as mudanças somente com o censo concluído.
Estamos solicitando e orientando os
municípios que se sentirem prejudicados que ingressam com ações judiciais
porque vão ter elementos suficientes para comprovar que foram pegos de
surpresa“, destaca.
Reportagem:
Lúcio Flávio – BRASIL 61


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