FPM 26% MAIOR PODE MOVIMENTAR ECONOMIA DOS MUNICÍPIOS E MELHORAR A RENDA DA POPULAÇÃO, DIZEM ESPECIALISTAS
Cofres das prefeituras vão receber quase meio bilhão de reais a
mais na próxima quinta-feira (30)
As prefeituras vão receber, referente ao terceiro decêndio de
setembro, cerca de 26% a mais de recursos do Fundo de Participação dos
Municípios (FPM) na próxima quinta-feira (30). O maior aporte de receitas pode
impactar não apenas as contas públicas a nível municipal, mas permitir aos
gestores ampliar os serviços prestados à sociedade, movimentar a economia e,
até transferir renda para a população mais pobre.
Essa é a análise de Marilane Teixeira, doutora em Desenvolvimento
Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Todo recurso que
entra por meio de transferências e que implica em gastos públicos tem um efeito
dinamizador e multiplicador da economia. Com certeza isso [o aumento do FPM]
vai ter impacto”, afirma.
Já descontados os 20% do Fundeb, o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da
Educação, os cofres municipais vão receber cerca de R$ 2,46 bilhões, montante
mais de meio bilhão de reais superior ao registrado no mesmo período do ano
passado. Os efeitos que tal crescimento de receita podem causar sobre a
economia local, no entanto, dependem de como as prefeituras irão aplicar esses
recursos, indica Marilane.
A tendência, ela diz, é que os gestores apliquem o dinheiro em
educação, saúde e na melhoria de serviços públicos. Dessa forma, o município
tem que contratar empresas para prestar esses serviços, por exemplo, e essas
companhias precisam de mão-de-obra, o que pode gerar um impacto positivo sobre
a economia local. A economista cita outro fator essencial nessa tomada de
decisão.
“Pode ser, também, um mecanismo importante de transferir renda
para uma parcela da sociedade, o que certamente tem uma implicação do ponto de
vista do efeito multiplicador. Colocar dinheiro, por exemplo, para uma família
pobre ou em condições de extrema pobreza, ela necessariamente vai gastar isso
com alimentos e, basicamente, com as condições de vida, de moradia. Isso ajuda
a impulsionar a economia no estado, mas principalmente no município”, avalia.
Inflação
Para Cesar Lima, economista e especialista em Orçamento Público, o
aumento do FPM não tem impacto direto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do
país, pois os recursos do Fundo são, na verdade, consequência do PIB. “O
impacto vai ser na economia dos municípios, porque o FPM é resultado de aumento
no PIB, porque aumenta a arrecadação e os impostos a serem distribuídos entre
estados e municípios.”
Marilane concorda. Além disso, ela acredita que não dá para
afirmar que esse adicional de receitas deve gerar inflação. “Se aumenta ainda
mais a demanda por determinados produtos e serviços e se o mercado não consegue
suprir esses produtos e serviços ao nível da demanda gerada na economia, claro
que pode gerar inflação. Mas, hoje, nós não estamos vivendo um problema de
inflação por demanda”, afirma.
Segundo ela, há outros componentes que estão pesando mais quando o
assunto é inflação. O principal deles é o preço do petróleo e, por consequência
dos combustíveis e, em menor nível, a crise hídrica e a escassez de energia.
Dependência
O Fundo é importante para todos os municípios, mas as cidades de
pequeno porte dependem mais desses recursos, explica Cesar Lima. “Quanto menor
o município, mais dependente, na maioria dos casos ele é do FPM. Então, o
impacto desse aumento do FPM para os municípios menores é bem maior que para os
grandes municípios, que não dependem, na mesma proporção que os menores, do
FPM”, ressalta.
O caso do município de Paraná, no Rio Grande do Norte, por
exemplo, é emblemático. Cerca de 90% do orçamento local é composto pelo FPM. A
cidade — cuja população estimada é de 4.298 pessoas —, que estava bloqueada
para os repasses do Fundo no último decêndio, regularizou sua situação, de
acordo com a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), e deve receber pouco mais de
R$ 211 mil na próxima semana.
O economista Alexandre Rocha explica que o FPM é de particular
importância para os municípios de pequeno porte. “Eles têm bases tributárias
próprias muito pequenas, muitas vezes próximas de zero. Então, é por meio da
participação na arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos
Industrializados que as prefeituras, especialmente as pequenas, têm recurso
para poder cumprir as suas funções administrativas e sociais”, enfatiza.
Para Eduardo Stranz, consultor da Confederação Nacional de
Municípios (CNM), é preciso desconstruir a ideia de que os “municípios pequenos
vivem do FPM”. Segundo ele, os repasses do Fundo nada mais são do que uma parte
do que as próprias cidades arrecadaram com o IPI e o IR. “Por uma
característica do próprio imposto, ele é recolhido pela União, mas a receita é
compartilhada com estados e municípios. Os impostos são arrecadação do
município e do estado também”, pontua.
O especialista diz que os municípios menores dependem mais do
Fundo porque os impostos que ele pode cobrar, pela lei, tem sua base tributária
nas áreas urbanas.
“Goiânia, Porto Alegre, São Paulo, os municípios médios, por
exemplo, que tem muita área urbana, arrecadam bastante de receita própria.
Agora, em municípios de três, quatro, cinco mil habitantes, a área urbana é
pequena, então não tem como arrecadar muito recurso. Não consegue tirar muito
dinheiro daquela sociedade, porque além dela pagar ISS, ela paga ICMS, ela paga
o Imposto de Renda, ela paga o IPI. Há uma capacidade tributária e uma
quantidade de recursos que você consegue tirar da sociedade, senão acaba com a
riqueza das pessoas. Não é um problema, é como o sistema é feito”, diz.
O que é o FPM
O FPM é um fundo pelo qual a União repassa, a cada dez dias (por
isso o nome “decêndio”), 22,5% do que arrecada com o Imposto de Renda (IR) e
com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) aos municípios. A cada mês,
portanto, são três repasses, que ocorrem nos dias 10, 20 e 30 e se referem,
respectivamente, ao arrecadado nos dez dias anteriores.
Se a data cair no sábado, domingo ou feriado, o repasse é
antecipado para o primeiro dia útil anterior. O recurso é creditado pelo Banco
do Brasil S/A, que disponibiliza, em sua página na internet, os avisos sobre as
distribuições decendiais das contas dos Fundos de Participação, com os
lançamentos a crédito e débito. O aporte
que as prefeituras vão receber no dia próximo dia 30 tem origem no recolhimento
desses tributos entre os dias 11 e 20 de setembro.
Além dos 20% que a União retém para o Fundeb, os gestores devem
aplicar 15% dos recursos em saúde e destinar 1% para o Programa de Formação do
Patrimônio do Servidor Público (Pasep).
Para Eduardo Stranz, o FPM mais robusto é consequência, sobretudo,
do crescimento da arrecadação com o IR. Até agosto, segundo a Receita Federal,
são quase R$ 24 bilhões em recolhimentos extraordinários com Imposto de Renda
da Pessoa Jurídica (IRPJ).
Os percentuais de participação de cada município são calculados
anualmente pelo Tribunal de Contas da União (TCU), de acordo com o número de
habitantes de cada cidade e a renda per capita dos estados.
Os municípios são divididos em três categorias: capitais, interior
e reserva. As capitais dos estados e Brasília recebem 10% do FPM. Os demais
municípios brasileiros são considerados de Interior, e representam 86,4% do
FPM. Já os municípios de reserva são aqueles com população superior a 142.633
habitantes e recebem – além da participação como município de interior – uma
cota adicional de 3,6% do fundo.
Bloqueio
Os gestores municipais devem ficar atentos, pois se não estiverem
com as obrigações junto à União em dia, poderão ter o repasse congelado nas
contas bancárias.
De acordo com a CNM, os principais motivos para bloqueio do FPM
são: ausência de pagamento da contribuição ao Programa de Formação do
Patrimônio do Servidor Público (Pasep); débitos com o Instituto Nacional do
Seguro Social (INSS) e débitos com a inscrição da dívida ativa pela
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), além da falta de prestação de
contas no Sistema de Informações sobre Orçamento Público em Saúde (Siops).
Para desbloqueio do repasse, o município deve identificar o órgão
que determinou o congelamento. Em seguida, deve conhecer o motivo e regularizar
a pendência.
Fonte: Felipe Moura, BRASIL 61


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