ARTIGO DEDOMINGO | SELVAGERIA
è POR LÚCIO FLÁVIO PINTO*
“Se encontro na rua, soco até ser preso’, retuitou José de Abreu”.
Este é o título que a Folha de S. Paulo deu a um artigo da deputada federal por
São Paulo. Tabata Amaral, sobre ofensas que lê diariamente. A frase é repetida
na legenda da fotografia (de 2018) que ilustra o texto: “O ator José de Abreu,
que retuitou tuíte que dizia, em relação à deputada Tabata Amaral: ‘Se eu a
encontro na rua, soco até ser preso’”.
A ofensa é repetida no texto do artigo da parlamentar, mas ela não
faz referência ao autor da frase, arrolada (como grifo) entre agressões verbais
espantosas, que cito (em itálico):
Quem você quer provocar com esse batom vermelho? Linda, não
precisava nem abrir a boca. Mocinha, se inscreve no Big Brother, põe um
silicone e tenta algo na TV ou na indústria pornô! Foi para Harvard, mas com
certeza foi uma aluna medíocre lá. Adiantou pouco ter estudado em Harvard,
informou-se até em astronomia, mas não se educou nem aprendeu a pensar. Você é
muito burra, meu Deus, como pode. Meu anjo, cala a boca.
Pega o absorvente e manda para as tuas primas. Isso é carência.
Anuncia filiação no mesmo partido do namorado. O amor é lindo e o prefeito
fisga ela outra vez. Precisa de homem. Vai lavar a louça. Você é louca, filha?
Seu pai deve ter fugido ao ver a bosta de filha que se tornaria.
Com uma filha desse tipo, entendo ele ter se matado. A pessoa sai do lixo, mas
o lixo não sai dela. Volta pro esgoto!
Ninguém pode servir a dois senhores. Mocinha bancada por
bilionários. Marionete de globalistas. Quem é o sugar daddy dela? Eu comia. Ela
é a sugar girl daquele banqueiro lá. Ela gosta de ver outra coisa entrando.
Puta, vadia, vagabunda, imbecil. Puta. Puta. Puta.
Depois desses votos contra o trabalhador essa puta ainda vem
reclamar. Se eu encontro na rua, soco até ser preso. Se eu vejo essa mocreia na
rua, não teria feminista para me segurar de quebrar a cara dela.
Daria uma surra nessa puta ordinária. Quando você vai sair na rua
de novo? Horário lugar etc… queria fazer uma visita com meu canivete. Se eu
encontro na rua eu dou dez facadas nessa cara de sonsa sua arrombada. Temos que
dar a ela o tratamento de beleza mais efetivo do mundo, o taco de baseball na
cara, tão eficiente que nem a mãe dela vai reconhecer depois!
Tabata retoma então sua autoria para finalizar o texto:
Pois é, também não é fácil para mim ter que ouvir e ler tudo isso.
E esses são apenas alguns exemplos, transcritos aqui sem modificações, das
agressões que recebo diariamente. E não, esses ataques não vieram apenas de
milicianos bolsonaristas. Vieram também de militantes de esquerda, filósofos,
jornalistas, atores de novela, parlamentares e ministros.
Sei que essas ofensas e ameaças não estão restritas a mim. Todas
as mulheres que ousaram se posicionar politicamente já sofreram alguma forma de
violência política de gênero. Simone Tebet, Dilma Rousseff, Joice Hasselmann,
Manuela D’Avilla, Marina Silva e Talíria Petrone. Marielle Franco.
Jamais seremos um país realmente democrático enquanto a política
não for um espaço seguro, física e psicologicamente, para as mulheres. E isso
só acontecerá quando tivermos tolerância zero com a intolerância,
independentemente de quem seja o alvo ou o agressor. Porque respeito não é
reverência, é regra mínima de convivência.
Assim, me deixou curioso: por que o jornal só identificou o ator
no meio dessas brutalidades todas? A Folha prestaria um serviço público maior
se procurasse revelar a identidade dos demais agressores. Ou pelo menos mais
alguns deles.
*LÚCIO FLÁVIO PINTO | Jornalista profissional desde 1966.
Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa
brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988
deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal
que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da
Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e
contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro
per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists
Protection), de Nova York.


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