ARTIGO DEDOMINGO | ‘COM O CRAVO NA ALMA’
è Por Lúcio Flávio Pinto*
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Quando as primeiras bancas de jornais abrirem hoje,
em Belém, e este texto começar a ser lido, eu já terei comprado, em Coimbra,
dois cravos vermelhos. Eu e quase todo mundo… Dificilmente encontrarei na rua
alguém sem máscara na cara e sem esta flor nas mãos. Há 47 anos que todo 25 de
Abril em Portugal é assim: nunca são demais os festejos para a data mais
importante da história portuguesa moderna. É o chamado Dia da Liberdade, da
Revolução dos Cravos, da Democracia, dos Capitães de Abril.
Na véspera desta efeméride, no ano passado, meu
filho trouxe da escola um papel com o recado “Prezada mãe do António Lúcio,
lembramos que neste 25 de Abril não podemos sair à rua, porém, como Abril é,
antes de mais, um projeto coletivo, cantaremos à janela pontualmente às três da
tarde, o hino da Revolução”. Eu li e olhei pro meu filho, que explicava: “É
aquela música que começa assim: “Ó Grândola, Vila Morena, terra da
fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade”.
Não é preciso viver em Portugal há séculos para ser
contagiado pela data. Basta ouvir com atenção a voz dos mais vividos – e eles
sempre ressaltam que lembrar a revolução é também pensar o futuro. É o que eu
faço. A cada conversa ganha espessura minha ideia do que realmente foi
conquistado em 1974, quando um grupo de homens com muito valor se levantou,
seguido depois por muitos outros homens e mulheres. Esse levante militar
derrubou, em mais ou menos 18 horas, os 48 anos da mais antiga ditadura
fascista no mundo do século XX.
Antes da revolução, quase todas as famílias
portuguesas tinham alguém combatendo nas guerras das colônias africanas. O
serviço militar durava quatro anos. Opiniões contra o regime e contra a guerra
eram punidos. Partidos e movimentos políticos não podiam existir. As prisões
estavam cheias de líderes oposicionistas. Sindicatos eram severamente
controlados. A greve era proibida. As demissões eram fáceis de executar; E a
cultura, vigiada.
Quando cantei pela primeira vez o hino de Zeca
Afonso na minha janela, muitos amigos meus ainda estavam vivos. Um ano depois
meu whatsappvirou um obituário e a frase que eu mais escrevo é: “Nossa fuga é
pra frente, vamos ficar juntos, vamos nos abraçar em breve”. Hoje sei que o
vírus que parou o mundo pode ser derrotado; entretanto, faz mossa e deixa
marcas fundas.
Mas há sempre quem lhe faça frente. Neste domingo eu
e meu filho vamos levar nossos cravos vermelhos para a Praça da Canção,
concentração marcada para três da tarde. Vai-se cantar Grândola Vila Morena
outra vez, porque é isso que devemos fazer com a história: refletir sobre ela
e, a partir dessa reflexão, nossa noção do que é o mundo amplia um pouquinho. E
de grão em grão se vai compreendendo a existência desse bichinho chamado ser
humano.
*Lúcio Flávio Pinto - Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de
algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi
repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se
ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada
em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois
Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da
verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio
Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for
Jornalists Protection), de Nova York.
Tem 21 livros individuais publicados, todos sobre a
Amazônia, os últimos dos quais Amazônia Decifradada e A Questão Amazônica. É
co-autor de numerosas outras publicações coletivas, dedicadas à Amazônia e ao
jornalismo. Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012 pelo conjunto da sua obra.
Foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um
dos mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para
essa honraria.


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