ARTIGO | NEW DEAL NO BRASIL
- por Fernando Rizzolo*
Bairro simples da periferia. O cheiro
de café ainda estava pela cozinha e transpunha a sala com móveis simples, um
sofá velho e uma antiga televisão que tinha em cima dela algumas xícaras,
daquelas que têm o nome do time timbrado. Na cozinha, a mesa com uma toalha de
plástico dessas grudentas que têm a marca do copo de café. E lá ia ele, o
Moacir, mais um dia descendo as escadas do andar de cima da sua pobre casa, já
anestesiado pelo gosto forte do café, revendo os tijolos à vista de sua casa,
que estava sendo construída há mais de dez anos, com o esforço da esposa e dos
dois filhos adolescentes.
Toda manhã, ele dizia à esposa que
acordava com uma “coisa apertando o peito”, uma tristeza, uma vontade de não
mais se levantar da cama... pura depressão. Pelos vizinhos que se alvoroçavam
com notícias de que um novo supermercado iria contratar mais de 600 pessoas, lá
ia ele, mesmo com o aperto no peito, com o gosto forte de café na boca,
descendo as escadas inacabadas pelo destino, pegar um ônibus e chegar cedo na
imensa fila para que a esperança matasse o desalento enfileirado. Estava
desempregado há dois anos, e já havia se acostumado a ficar nas imensas filas
da esperança, onde cada pessoa podia ser apontada pelo destino e quem sabe ser
sorteada para uma vaga de emprego, após passar pelo crivo de recrutadores de
olhos sombrios e cheios de pergunta.
Era um Brasil novo, de um novo
governo, que sempre falava em “diminuir gastos públicos” e de um tal de “ajuste
fiscal”, que prendia o olhar de Moacir na TV, mas nunca falava em desemprego,
mas nunca falava em imensas filas e nunca soube o que é acordar com uma
angústia no peito disfarçada de esperança por não ter como sustentar a família.
Depois de um dia longo e cansativo,
voltava Moacir para casa com a missão cumprida, à espera de um chamado que
nunca chegava, de uma chamada no celular pré-pago que nunca acontecia, nem para
ele nem para os vizinhos da humilde e triste periferia.
Esse é o Brasil de hoje, em que temos
12,8 milhões de desempregados, 12 milhões que vivem na linha de extrema miséria
e 30 milhões que vivem de bico. Realmente a política econômica do Sr. Paulo
Guedes não segue o correto curso, e isso me remete ao passado histórico das
grandes depressões, como nos EUA entre 1933 a 1937, quando Roosevelt resolveu
implementar o New Deal como solução, após tentativas fracassadas do liberalismo
econômico.
Com efeito, não há como apenas a
iniciativa privada, num mercado interno enfraquecido e debilitado, baseado numa
suposta ideologia neoliberal de simplesmente “fazer os ajustes fiscais”,
promover o emprego, o desenvolvimento, sem a presença do Estado como ignição à
máquina propulsora dos projetos sociais que têm como fim aumentar o emprego e
alçar a economia a patamares mais robustos, levando-nos a um aumento da
demanda, consequentemente a um aumento do mercado interno e, nesse ciclo
virtuoso, combatermos a imensa massa desempregada e desalentada, assim como a
desigualdade social.
Promover a Proposta Emergencial como
solução de corte de gastos é naufragar nas tentativas anteriores ao New Deal
dos anos 30, impondo uma receita de bolo perigosa, em que a insensibilidade
liberal impõe desespero aos hipossuficientes. Que caminhos estamos trilhando?
Talvez os das casas da periferia, que sempre estão sendo construídas, mas que
nunca ficam prontas, talvez por falta de líderes como foi Roosevelt, ou os de
desempregados como Moacir, que, mesmo acordando angustiado, desce as escadas
úmidas da casa da periferia, com um gosto amargo de café na boca, na esperança
de estar presente nas imensas filas da ilusão, tentando entender o tal “ajuste
fiscal” que tanto lhe faz mal… principalmente ao acordar...
*Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais, Professor de
Direito.
Imagem: reprodução


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