PREOCUPANTE: MORTANDADE DE ABELHAS AMEAÇA AGROEXTRATIVISMO NO OESTE DO PARÁ
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| Flor do maracujá sendo visitada por uma espécie de abelhas solitária, conhecida popularmente como mamangava |
Declínio de polinizadores causa diminuição direta na produção de
frutos e sementes, diz pesquisador
A
mortandade das abelhas no Planalto Santareno tem efeitos que vão além do
prejuízo causado aos produtores de mel, pela perda de suas colmeias, afetadas
pelos agrotóxicos e pelo desmatamento crescente na região. O Planalto Santareno
engloba grandes áreas dos municípios de Belterra, Mojuí dos Campos e Santarém,
no Pará.
A
produção de sementes e frutos depende em grande parte da polinização realizada
pelas apis mellifera – conhecidas como abelhas africanizadas, europeias ou
italianas – e também pelas abelhas nativas – sem ferrão -, comuns na Amazônia.
Por estar ocorrendo uma diminuição acentuada das populações de abelhas, a
vegetação também está sendo ameaçada. Com isso, alimentos tradicionais do
agroextrativismo correm o risco de desaparecer. É o caso da castanha do pará,
da pupunha, do cupuaçu e do açaí.
A
bióloga Mayá Schwade, que estuda a área de polinização e interação
planta-animal, calcula que mais de 80% das espécies de uso comercial, por
exemplo, de uso alimentar, dependem de polinização por animais, e
principalmente por abelhas.
“Se
a gente imagina que a reprodução das espécies de plantas depende desses
animais, só irá acontecer a regeneração de uma floresta se houver essa
polinização. Um exemplo é a castanheira, que é polinizada por uma espécie de
abelha solitária, que realiza a polinização quase que exclusivamente só ela.”
Sobre
a castanheira, espécie de árvore antes abundante no Planalto Santareno, o
engenheiro agrônomo e professor da UFPA, Plácido Magalhães, também observa que
“só grupos de abelhas grandes conseguem abrir a flor da castanheira pra poder
coletar o néctar. E essas abelhas não têm mais onde fazer os seus ninhos.
Acontece o que a gente chama de ‘declínio de polinizadores’. Cada dia que
passa, essas abelhas, que são especializadas, não tem mais onde fazer os seus ninhos
e vão diminuindo. E consequentemente há uma diminuição direta na produção de
frutos e sementes, porque não tem polinização.”
Na
Amazônia como um todo, e na região do Planalto Santareno em especial, existem
as criações de apis mellifera e de abelhas sem ferrão. Espalhadas em ninhos na
vegetação, há também uma diversidade gigantesca de meliponíneos, ou seja,
abelhas sem ferrão. Todas estas são fundamentais para a manutenção da floresta
amazônica e, consequentemente, de toda a riqueza que ela gera. Se a polinização
declina, a floresta diminui. Se a floresta diminui, as abelhas, principalmente
as melíponas e as trigonas, ficam sem alimento. É um ciclo silencioso de
extermínio.
“Só
no estado do Pará há em torno de 110 espécies de abelhas sem ferrão, e elas
estão associadas com as árvores principalmente, vivem dentro ou associadas às
árvores – 85% dos ninhos que a gente encontra estão associados às árvores”,
afirma Plácido Magalhães.
De
acordo com o professor, existem trabalhos do geneticista e engenheiro agrônomo
Warwick Kerr que demonstram que de 40 a 90% das plantas silvestres são
polinizadas por abelhas sem ferrão. Essas abelhas tem uma relação muito próxima
com as espécies do Pará, porque elas co-evoluíram ao longo desse tempo todo.
Existem também grupos especializados em polinizar determinadas espécies de
plantas, e vice-versa, uma precisa da outra.
A
bióloga Mayá Schwade explica que as florestas tropicais têm várias espécies
dependentes da polinização. “A polinização pelo vento quase não existe nesses
locais. Muitas espécies dependem dessa interação. E como é que ocorre essa
polinização? O animal vai atrás de um recurso, por exemplo o néctar, o pólen,
ou alguma resina que ele utiliza na reprodução. Quando ele toca as partes de
uma flor ele pode estar fazendo a polinização. Algumas plantas são muito
dependentes deste processo porque elas precisam de mais de um indivíduo para
que ocorra essa troca de gametas. Ela precisa de um agente que faça isso. As
florestas tropicais tem indivíduos muito espalhados. Então ela precisa de um
agente que leve esse pólen para que ocorra a polinização.”
Como
observa João do Mel, um dos mais antigos produtores de mel de Belterra, “tem
muitas frutas que não estão produzindo direito. Você sabe que quem faz a
polinização na semente da madeira nobre, são as abelhas sem ferrão. Porque as
abelhas sem ferrão vão mais na florada alta, Aqui eu já plantei uma faixa de
quase três mil árvores mas não é suficiente por causa do veneno que vem no
vento.”
Marcus
Bezerra, da comunidade Portão de Belterra, é apicultor e cria apis mellifera.
Segundo ele, a abelha se contamina nas plantações de soja: “quando a soja
flora, a abelha vai aonde tem flor e ela não chega a identificar que aquela
flor está com veneno. Então ela tira o néctar daquela flor e leva pra colmeia,
e lá na colmeia é que ela vai morrer e também prejudicar todo o ninho.”
Mas
nem sempre foi assim. Marcus recorda que “há dez anos, tinha roça, mas era roça
de pequeno agricultor, que não usava tanto agrotóxico, não tinha plantação de
soja numa grande quantidade, era pequena. Só que hoje em dia, do lado do
apiário, norte, sul, leste, oeste, tudo é plantação de soja.”
O
desaparecimento das abelhas, segundo Maya, acontece também em outros países.
“Existe um colapso das colmeias em várias partes do mundo. Um dos principais
fatores é justamente o uso de pesticidas, de herbicidas que afetam essas
abelhas. Mas não só isso. As monoculturas, as grandes extensões de plantios,
elas removem uma biodiversidade muito grande, uma grande quantidade de espécies
de plantas e também de locais de nidificação. As abelhas tem vários locais que
elas podem ter ninhos, dependendo da espécie, pode ser no chão, pode ser num
oco, se a gente remove essa biodiversidade a gente vai também fazer com que
decline a quantidade de núcleos e as abelhas precisam também estar trocando a
variedade genética.”
Agroecologia
multiplica abelhas
Do
outro lado do Rio Tapajós fica a Reserva Extrativista Tapajós Arapins (Resex).
Diferente de Belterra, a Resex fica protegida e distante das lavouras de soja.
Lá não existe indícios de mortandade de abelhas, mas sim, a ampliação da
meliponicultura, conforme o manejador de abelhas da Resex, Alexandre Godinho:
“se tiver abelha vai ter a polinização, vai ter a árvore, vai ter a flor, vai
ter o fruto e vai ter o homem que vai se beneficiar tanto do mel, vai se
beneficiar do fruto”.
Ou
seja, longe do agronegócio e dos agrotóxicos, a meliponicultura é aliada da
floresta em pé e também das práticas agroecológias, pois a polinização
realizada pelas abelhas sem ferrão também favorece a produtividade da
agricultura familia.
Fonte/Foto: Bob Barbosa, Brasil de Fato


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