Chegou mais uma das super quartas – esses dias em que os comitês de política monetária do Brasil e dos EUA anunciam suas decisões sobre juros simultaneamente –, e um clichê literário batido se aplica bem à manhã de hoje: é a calmaria antes da tempestade. Os futuros de Nova York amanheceram meio travadões, próximos à estabilidade: o Dow Jones caía 0,05% às 6h45; o S&P 500, 0,07%. O índice Nasdaq, sempre mais nervosinho, marcava -0,22%. Já por volta das 8h, Dow e S&P marcavam verdes tão discretos quanto: +0,08% e +0,04%. Clima de indecisão. É que nenhum coletinho quer comprar (ou vender) nada antes de ter pistas do rumo que os juros tomarão no curto e no longo prazo. Faz dois dias que a bolsa brasileira faz o caranguejo e anda de lado à espera da decisão. Na segunda-feira, o Ibovespa caiu, na terça ele ficou basicamente estático, e o volume de negócios nos dois dias foi uns 60% da média – coisa que só costuma acontecer quando é feriado nos EUA e o faria limer não vê grande motivo para trabalhar aqui. Não há muito mistério em torno das decisões. Quem acompanha as aberturas e fechamentos da Você S/A já sabe que são basicamente unânimes as expectativas de manutenção da Selic em 13,75% e de aumento da taxa básica de juros americana em 0,25 ponto percentual – para a janela de 4,75% a 5%. De fato, a ferramenta de monitoramento do CME Group fala em 89% de chance de que essa aposta se confirme. As expectativas para os EUA caíram de 0,5 p.p. para 0,25 p.p. desde que a crise bancária desencadeada pela quebra do SVB mostrou ao Fed e seus boys (os dirigentes do banco central americano são apelidados de “Fed boys”) que as oito altas seguidas nos juros desde 2022 estão exercendo o efeito sufocante sobre a economia, com efeitos colaterais adversos. O Fed quer controlar a inflação, mas não quer ver banco quebrar. Como as decisões não têm lá muito espaço para surpreender – by the way, anota aí: a decisão do Fomc sai às 15h no horário de Brasília, a do Copom, às 18h30 –, o que todo mundo realmente aguarda é o discurso de Powell. A coletiva está programada para 15h30, em tempo de dar um agito nos mercados 90 minutos antes do fechamento. O impacto do Copom, por outro lado, só se fará sentir no pregão de amanhã. Se as autoridades monetárias do Brasil e dos EUA adotarem um tom ameno, dovish ( entenda o termo aqui), darão um gás bem-vindo ao mercado de renda variável, sufocado pela inflação resistente, os juros no talo para combatê-la, pela crise bancária recente, pela expectativa de recessão econômica no Ocidente em 2023, pela… enfim, a coisa tá feia. Em suma: o que está em jogo não são propriamente os juros de hoje, mas qualquer migalha de informação sobre o caminho que os juros tomarão amanhã. Todos aguardam ansiosos para que a Selic passe a cair (os mais otimistas apostam até em um corte de 0,25 p.p. ainda na reunião em maio, embora o segundo semestre seja uma aposta mais pé no chão) e para que o Fed chegue ao fim do ciclo de alta. O Bank of America (BofA) já fala em Selic em 11% ao final de 2023. E novidade, tem? Tem sim, ainda que seja mais do mesmo: o grau de pessimismo entre os operadores de Wall Street está em picos históricos, alinhados com os piores momentos dos últimos vinte anos (como a crise de 2008 e a eclosão da pandemia em 2020). É o que mostra uma pesquisa mensal do BofA com 212 gestores de fundos, cuja edição mais recente foi realizada entre 10 e 16 de março. A enquete mostrou que 42% apostam em uma recessão para 2023 (um estado que, vale explicar, normalmente é identificado por dois ou mais trimestres seguidos de queda no PIB de um país). E já faz dez meses que 80% dos entrevistados acreditam que os EUA estão caminhando para o estado conhecido como estagflação: quando a economia trava, mas os preços permanecem em alta. Trata-se de uma situação desesperadora, já que o único motivo dos bancos centrais usarem juros para travar a economia é combater a inflação. Se essa estratégia falha, ficamos com o pior dos dois mundos. E, no que diz respeito a medo, a inflação agora tem concorrentes: com a quebra do SVB, a especulação de que possa haver uma crise no crédito bancário em curto prazo (ou seja, uma redução repentina na concessão de empréstimos por parte dos bancos) foi elencado como o maior risco da vez na opinião de 31% dos participantes. Mas eu queria novidades sobre o Brasil… Estamos na saudade, infelizmente: Lula ignorou as promessas de toda a cúpula do governo e só vai liberar o novo arcabouço fiscal em abril, quando voltar da viagem à China. O arcabouço será pivotal para a tão aguardada decisão do Copom em maio: se o novo pacotão de regras para gastos e dívida pública vier bem responsável, o Banco Central terá mais motivos para diminuir nosso juro. Ou seja: aguardem ansiosos. Até mais tarde, quando voltamos com as decisões de Fomc, Copom e outras onomatopéias. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário