Esta quarta vai ser longa. Ou melhor: já está longa. Ela começou ainda na segunda, quando os índices de Wall Street abriram a semana em queda com medo da decisão do Fomc.
A reunião do comitê de política monetária dos Estados Unidos, que acontece ao longo de dois dias, termina hoje. O pessoal do Fed deve anunciar, às 16h, uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros do país, que alcançaria o intervalo entre 4,5% e 4,75%.
No Brasil, o Copom também está reunido desde ontem (31) para mexer na Selic. Ou melhor, para deixá-la igual: nem os analistas de Plutão, melancolicamente privados de internet, esperam que aconteça algo além da manutenção da taxa nos atuais 13,75%.
Quando os anúncios e política monetária dos bancos centrais brasileiro e americano coincidem – o que acontece algumas vezes por ano, já que as reuniões no Fed e no Bacen rolam aproximadamente a cada 45 dias –, temos o alinhamento de astros denominado Super Quarta.
O que interessa não são os números em si – surpresas são raras –, mas as mensagens dos dirigentes. A entrevista coletiva com o presidente do Fed, Jerome Powell, rola às 16h30, meia hora após o anúncio da nova taxa de juros.
O que o pessoal do mercado financeiro queria ouvir em seus devaneios mais íntimos: “Olha, já subimos essa taxa o suficiente, a economia vai sufocar, é hora de parar o ciclo de alta de juros antes de alcançar os 5%”.
Mas o fato é que a economia americana continua aquecida apesar dos juros altos. A inflação está resistente – o CPI caiu 0,1% em dezembro após subir 0,1% em novembro, o que não é muito emocionante.
Por outro lado, o núcleo do PCE [um outro indicador de inflação do Tio Sam, o favorito de Powell] ficou em ‘só’ 4,4% nos últimos doze meses. Finalmente um sinal mais sólido de cansaço para quem bateu 5,3% em março do ano passado. O núcleo do PCE de dezembro, mais recente, é o menor desde novembro de 2021. (O “núcleo” é uma parte do índice que exclui preços de combustíveis e alimentos. Eles são considerados voláteis e, portanto, capazes de distorcer o indicador para cima ou para baixo.)
Os dados do mercado de trabalho dão sinais promissores, mas ainda há uma quantidade razoável de novas vagas sendo geradas – e a taxa de desemprego permanece em platônicos 3,5%.
Powell já afirmou antes que o Fed reduziu altas de 0,75 p.p. para 0,5 p.p. porque o efeito disso se manifesta com algum delay e eles precisam saber até que ponto o remédio funcionou antes de aumentar a dose. Isso não significa, necessariamente, que já é hora de parar o remédio. E a taxa deve se manter alta por um tempo razoável para garantir que a inflação encolha até a meta.
O mercado, lá no fundo, sabe que o ciclo de alta está próximo do fim, e a prova é que o S&P 500 ganhou mais de 6% em janeiro – e o índice Nasdaq fechou o mês em alta de 11% (o melhor janeiro desde 2001, mesmo pondo na conta a agonia dos investidores com a saúde das big techs, com suas demissões em massa).
Esses são sintomas de que, apesar do mau-humor localizado às vésperas do anúncio, os faria limers do mundo acreditam que o ciclo de alta está próximo do fim.
Falando em big techs, hoje é dia do filho chorar e a mãe não ver no Vale do Silício: o balanço da Meta sai às 19h, após o fim do pregão, e servirá de aperitivo para os relatórios de Apple, Amazon e Alphabet (Google) marcados para o dia seguinte. O Titanic metavérsico de Zuckerberg fechou o pregão de ontem em alta de 1,3%, mas amanheceu caindo 1,52% no pré-mercado.
Os analistas esperam um lucro de US$ 2,12 por ação para o último trimestre de 2022 – uma queda de 42% em relação ao mesmo período do ano anterior. As receitas devem cair 7%.
O Brasil, vale dizer, ainda existe (rs). Mas o foco das discussões em Brasília, desta vez, não faz grandes preços: Arthur Lira deve se manter na presidência da Câmara, enquanto o Senado é palco de uma disputa um pouco mais acirrada, já que Rogério Marinho, do PL, reúne bolsonaristas e opositores de Lula e pode frustrar a tentativa de reeleição de Pacheco.
Até mais tarde, quando voltamos com o fechamento de mercado – e a decisão do Fed.
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