ESPORTES | RIO QUER BRIGAR PARA TER MAIORES EVENTOS DO ESPORTE MUNDIAL

 




Depois de seis anos deitado em berço esplêndido, o Rio de Janeiro quer voltar a ser um gigante do esporte mundial. A cidade, que recebeu, em uma década, o Pan, a final da Copa do Mundo, os Jogos Mundiais Militares e a dobradinha Olimpíada/Paralimpíada, vai voltar a pleitear receber os maiores eventos esportivos do calendário internacional.

É claro que nenhum desses eventos quadrianuais voltará à Cidade Maravilhosa tão cedo. Mas o setor turístico do Rio definiu como uma das suas duas prioridades para a próxima década atrair os melhores (e mais lucrativos) campeonatos mundiais. A outra é colocar o Rio como cenário de grandes produções audiovisuais — leia-se, de filmes e séries de Hollywood.

Na semana passada, a prefeitura e o Rio Convention & Visitors Bureau (Rio CVB) organizaram evento para apresentar as conclusões de um estudo, contratado pelo CVB com dinheiro municipal, e realizado por uma empresa suíça especializada em contratos com federações internacionais. Essa firma, a 2IS, apontou 73 grandes eventos que o Rio, com sua infraestrutura e expertise, pode pleitear.

O estudo cita como "evento mais relevante" o Mundial de Hipismo, o que é um problema. São muitos cavalos, que exigem muitos estábulos, e uma estrutura gigantesca para receber esses animais, que não existe no Rio. Se isso já é difícil na Europa e nos EUA, onde estão a enorme maioria dos animais e do mercado do cavalo, imagine no Brasil, onde o mercado é incipiente. Vide o gigantesco desafio logístico e biológico que foi fazer as provas de hipismo da Olimpíada.

Em resumo, é muito, muito improvável, que o Mundial de Hipismo venha ao Rio. E, mesmo assim, o evento foi apontado como prioritário no estudo, seguido pela ordem de Mundial de Ciclismo (de todas as 16 modalidades, que terá sua primeira edição em 2027), Copa do Mundo Feminina de Futebol, Mundial Masculino de Vôlei, Mundial Masculino de Basquete, Jogos Pan-Americanos (de novo?), Mundial Feminino de Basquete, Mundial de Atletismo, Mundial de Esportes Aquáticos e Presidents Cup de Golfe.

O Rio CVB promete ir atrás de cada um dos 73 eventos listados, com verba própria. Para quem não está familiarizado com CVBs, são instituições bancadas pelo "trade" de turismo para fomentar o setor naquela região. Vai ser esse trade (hotéis, restaurantes, shoppings, aeroportos, setor de transporte, agentes de viagem, etc) que vai bancar a prospecção de eventos e que trará os famosos cadernos de encargo para confederações brasileiras, prefeitura, governo do estado e governo federal, quando for o caso.

É raro um evento esportivo de grande porte que não dependa nem um pouco do poder público. Não somente ou necessariamente de repasse direto de recursos, mas especialmente com questões burocráticas e legais. Além disso, boa parte dos equipamentos que podem ser utilizados nesses torneios são públicos, ainda que em alguns casos sob concessão: Maracanãzinho, Arena da Barra, Maria Lenk, Arena Carioca, Velódromo, etc

O plano do Rio CVB é para 10 anos, e naturalmente vai depender da boa vontade do governante da ocasião. Marcelo Crivella (Republicanos) não tinha nenhum interesse em esporte. Eduardo Paes (PSD) parece ver como questão de honra colocar o legado olímpico para funcionar como se esperava quando o Rio aceitou fazer a Olimpíada. Jair Bolsonaro (PL) tratou o esporte como qualquer coisa. Lula (PT) quer dar protagonismo ao Ministério do Esporte, mas não mais a partir de grandes eventos.

Em um passado não tão distante, o governo federal petista pagou, por exemplo, pelo Mundial de Handebol Feminino que aconteceu em São Paulo em 2011. Com Lula, nada indica que o ministério tope pagar por eventos do tipo de novo. Se o Rio CVB quiser mesmo trazer os Mundiais de Atletismo, Esportes Aquáticos, Vôlei e Basquete para a cidade, terá que achar outra fonte de financiamento.

Pessoalmente, acho difícil, mas, como profissional do setor, torço muito para dar certo. O Rio, e o Brasil de forma geral, são coadjuvantes de segunda linha no calendário internacional. Mesmo com algum investimento do governo federal no ano passado para movimentar o Parque Olímpico, ainda é possível contar nos dedos os eventos internacionais realizados no país.

Depois de tanto investimento em estrutura no ciclo até a Rio-2016, é decepcionante que estejamos assim. Que os grandes ginásios, seja no Rio, em São Paulo ou em Belo Horizonte, quase não sejam utilizados, que o público raramente tenha oportunidade de assistir aos melhores atletas do mundo em suas modalidades. Já escrevi que, pessoalmente, minha trajetória foi moldada pela possibilidade de sentar na arquibancada e acompanhar competições de primeira linha.

Acho que o caminho, tanto para o Rio quanto para outras grandes cidades brasileiras, é recomeçar de baixo. Buscar campeonatos sul-americanos, pan-americanos, etapas de circuito mundial... voltar ao calendário, oferecer oportunidades à população, e só depois buscar as grandes competições de novo.

Natural que o setor turístico tenha suas prioridades e tente puxar a sardinha para os eventos que podem movimentar o setor turístico. Mas espero que o poder público, especialmente a prefeitura, leve em conta também os torneios menores e que têm enorme importância para o setor esportivo, que, afinal, é diretamente interessado no assunto.


 
Rayssa Leal vence final nos Emirados Árabes Unidos e se torna campeã mundial de skate street
Rayssa Leal vence final nos Emirados Árabes Unidos e se torna campeã mundial de skate street
Divulgação/World Skate
 
  
Rayssa Leal e Marlon Zanotelli: maranhenses de Imperatriz brilham

Por um fim de semana, a capital do esporte brasileiro foi Imperatriz, cidade do interior do Maranhão. Vieram de lá os dois grandes resultados do esporte olímpico brasileiro.

A começar por Rayssa Leal, campeã mundial de skate street. Um resultado fantástico, mostrando que a brasileira está mais do que acompanhando, está puxando uma nítida evolução no nível técnico da modalidade. Escrevi mais sobre isso na coluna.

Também vem de Imperatriz o cavaleiro Marlon Zanotelli, que conquistou dois ótimos resultados no fim de semana em Bordeaux, na França. No sábado, ganhou a etapa de Copa do Mundo. Ontem, foi segundo colocado no Grand Prix, torneio que distribui maior premiação em dinheiro.

As duas conquistas vieram montando cavalos diferentes. Na Copa do Mundo, ele saltou com VDL Edgar M, animal de 14 anos que ele levou às Olimpíadas de Tóquio-2020. No Grand Prix, com Grand Slam VDL, de 12 anos. Não é qualquer cavaleiro que tem duas opções deste nível para chegar a Paris.

 
Rebeca Andrade e Alison dos Santos: os melhores do ano no Prêmio Brasil Olímpico
Rebeca Andrade e Alison dos Santos: os melhores do ano no Prêmio Brasil Olímpico
Wander Roberto/COB
 
  
Melhor do ano, Rebeca Andrade está no Colegiado do CBC. E isso pode ser ruim

Justíssima a vitória de Alison dos Santos, o Piu, e de Rebeca Andrade no Prêmio Brasil Olímpico, como os melhores de 2022. O ano foi incrível para o esporte olímpico brasileiro, com conquistas importantes em diversas modalidades, mas não havia espaço para mais ninguém. Só os dois poderiam vencer.

Logo após o prêmio, Rebeca foi anunciada como integrante do Colegiado de Direção do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), junto com ex-atletas como Emanuel Rego, Lars Grael e Magic Paula, e dirigentes como Humberto Panzetti e Paulo Movizzo.

Gosto da ideia de termos atletas de ponta participando das decisões enquanto ainda ativos esportivamente, não só quando aposentados. Mas temo que Rebeca seja usada para dar legitimidade a decisões do CBC que acho nocivas ao esporte.

O CBC recebe dinheiro da Lei Piva para fomentar a formação de atletas, mas tem investido no alto rendimento. E, nas últimas semanas, passou a exigir que clubes pequenos, até de modalidades que não são praticadas em clubes sociais (como tiro esportivo), sejam vinculados de alguma forma ao comitê para poderem participar dos Campeonatos Brasileiros Interclubes (CBIs).

Ao longo dos últimos anos, os CBIs, bancados pelo CBC, têm substituído os campeonatos brasileiros organizados pelas confederações. Agora, os clubes passam a ser obrigados a serem filiados não só à confederação, mas também ao CBC. Minha aposta: logo passarão a ter que pagar taxa federativa dobrada.

Formador, Sesi-SP terá três times de polo aquático

O Sesi-SP se especializou tanto em polo aquático que fez um movimento curioso: dividiu seu time em três. Dez anos depois de contratar Tony Azevedo, brasileiro que disputou várias Olimpíadas pelos EUA, o Sesi vai passar a competir com três equipes: uma na sede original, a Vila Leopoldina, na capital paulista, outra em Jundiaí e uma terceira em Ribeirão Preto.

Na última década, o Sesi-SP aproveitou a estrutura de suas escolas, com piscina, para promover o polo aquático. Formou tantos atletas que considerou que eles poderiam formar não só um, mas três times. Em uma modalidade com tão poucos clubes, pode ajudar muito.



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