Se no Brasil a certeza é a que de os juros não sobem mais (ainda que ninguém faça ideia de quando eles vão começar a cair de fato), a esperança nos EUA é a de que a bolsa caiu tudo o que tinha para cair (ainda que ninguém faça ideia de quando ela vai recuperar as perdas deste ano).
O S&P 500 chegou ao fundo num já distante mês de junho, quando acumulava uma queda de 23% no ano (além da linha vermelha de 20%, a que liga a sirene para um bear market, uma baixa duradoura). De lá para cá o urso deu uma hibernada: a alta foi de 13%.
Tudo isso sem que o Fed tenha sinalizado qualquer notícia positiva sobre a curva de juros por lá. Bolsas se alimentam de juros em baixa. Nem precisa tanto: basta a expectativa de que eles parem de subir. E o Banco Central americano tem demonstrado rigorosamente nenhuma intenção nessa linha.
Mas a esperança não morre. A cada divulgação de ata do Fed, o mercado espera por uma mensagem positiva, tal como um amante apaixonado que levou um pé na bunda espera por um telefonema redentor a cada vez que olha para o celular.
Esse amante rejeitado, o mercado, espera agora que uma mensagem de alento venha do Simpósio de Jackson Hole, uma reunião anual do Fed com líderes de outros bancos centrais do resto do planeta que acontece no coração do meio oeste americano, numa área selvagem, montanhosa e aprazível do Wyoming.
O convescote começa hoje com um jantar, e na sexta rola o aguardado telefonema: o discurso de Jerome Powell, presidente do Fed. Na esperança de que ele diga palavras doces sobre os juros – dizendo talvez que dê para desacelerar um pouco as altas nas próximas reuniões – o mercado amanheceu abrindo a janela e dando bom dia aos passarinhos: alta de 0,56% no S&P 500 e de 0,74% na Nasdaq.
Agora resta ver se a mensagem será mesmo a que o mercado quer ouvir. O problema: os juros ainda estão baixos (em 2,5%) para uma inflação particularmente alta (em 8,5% para os últimos 12 meses). Da última vez em que ela chegou a um patamar desses, em 1981, os juros fecharam o ano em 12%.
Sim: o mundo mudou, talvez não seja necessário tanto na economia de hoje, mais ágil que a de quase meio século atrás – e, portanto, menos propensa a uma inflação persistente. Mas imaginar que uns 3% de juros já bastam para acabar com ela é wishful thinking. Por outro lado, são justamente os sonhos que movem o mercado. Sempre. Tal como na cabeça dos apaixonados, a realidade ali é só um detalhe inconveniente.
Boa quinta.
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