ARTIGO DEDOMINGO | NOSSO DIA DA VERGONHA
è POR LÚCIO FLÁVIO PINTO*
Nosso dia da vergonha, como a que o jornalista Reinaldo José Lopes
registrou na Folha de S. Paulo de hoje, já nos espera. Parte da área de contato
da Amazônia com o resto do país a leste e ao sul virou savana e nunca mais
voltará a ser floresta, segundo a previsão dos cientistas. Quando vier esse
dia, de lamentar a perda irrecuperável, ainda teremos vergonha?
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Tempestade de terra em Franca me fez ter vergonha de ser do interior
paulista
Só uma degradação ambiental indescritível seria capaz de produzir um
haboob nesta terra antes verdejante e aprazível
Eu realmente gostaria de evitar que esta coluna se transformasse num espaço
monotemático de autoflagelação, choro e ranger de dentes, mas o mundo real não
deixa.
As imagens aterradoras (e bota “terra” nisso; me desculpem pelo
trocadilho infame e amargo) da tempestade de poeira engolindo Franca (SP) na
semana passada me fizeram ter vergonha de ter nascido e crescido no interior
paulista.
Trata-se de uma emoção inaudita, ao menos no meu caso. Passei uma década
e meia na capital, mas fiz questão de voltar para cá assim que pude. Quis criar
meus filhos em solo caipira. E sempre estufei o peito, cheio de orgulho, ao
dizer que era do interior de São Paulo.
É da natureza humana amar o que os poetastros chamavam de “torrão
materno”, mas eu costumava achar que meu amor por este chão era bastante
justificável.
Eu amava o fato de termos construído uma semelhança de sociedade do
conhecimento nesta terra roxa, com algumas das maiores universidades do Brasil
e da América Latina plantadas aqui (e duas delas só na minha cidade natal!):
UFSCar, USP, Unicamp, Unesp.
Amava a capacidade de transformar esse conhecimento em crescimento
econômico: a força das indústrias, nosso papel na criação de combustíveis
renováveis made in Brazil, os avanços agropecuários trazidos pela Embrapa.
Ainda amo o R retroflexo que a gente emite entre vogais e consoantes, o
fato de que cidades com 200 mil ou 300 mil habitantes ainda têm a cordialidade
e o calor humano de comunidades muito menores.
Mas o vento que despejou em cima de Franca o que restava do solo fértil
dos arredores mostrou, sem disfarces, o que eu já andava intuindo há algum
tempo. Nós, caipiras, gastamos o nosso cheque especial ecossistêmico como se
não houvesse amanhã –e está chegando a hora de pagar os juros. Spoiler: se não
criarmos vergonha na cara, e rápido, vamos ter de penhorar até as calças.
Quando os ventos arrancaram as escamas dos nossos olhos, algumas coisas
ficaram claras.
Ficou patente que a pujança do nosso agronegócio não passa de ganância e
insensatez; que a água farta que rega nossos jardins e enche nossas piscinas é
puro esbanjamento. A imprevidência com que tratamos as bases mesmas daquilo que
nos garante o que beber e o que comer deveria ser capaz de fazer corar até uma
nação de selvagens, mas isso nem nos passa pela cabeça.
“Crianças, vocês vivem em um deserto. Vou lhes contar como foram
deserdadas”, diz a voz profética do historiador Warren Dean (1932-1994) em seu
clássico “A Ferro e Fogo”, em que documenta a saga da destruição da mata
atlântica. O interior de São Paulo teve e continua tentando um papel inglório
nesse processo, e essa frase, como propõe Dean, deveria ser a primeira a sair
da boca dos professores na primeira aula de história das escolas deste estado.
“Deserto”, aliás, é tecnicamente o termo exato. Na precisa reportagem do
colega Phillippe Watanabe sobre a nuvem, descobrimos que se trata de um haboob
(em árabe, algo como “rajada”). É algo comum… no Saara e no Sudão. Ou seja, só
uma degradação ambiental indescritível seria capaz de produzir isso nesta terra
antes verdejante e aprazível.
Seria engraçado, se não fosse enfurecedor, ler algumas justificativas
para esse absurdo. Um representante dos produtores de cana disse à BBC Brasil
que “o setor tem os melhores especialistas, os melhores consultores em solo” e
que “foi uma coisa acima do normal”.
Outro spoiler: os anos “acima do normal” estão se tornando a regra.
Chama-se crise do clima. Precisamos das florestas de volta.
Reinaldo José Lopes
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O
Brasil Antes de Cabral”
LÚCIO FLÁVIO PINTO* | Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação
Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as
injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La
Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de
Nova York.

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