ARTIGO DEDOMINGO | EUA PODERIAM TER EVITADO O ATENTADO?
- PUBLICADO POR LÚCIO FLÁVIO PINTO* ⋅ 12 DE SETEMBRO DE 2021
A Arábia
Saudita, país aliado e parceiro preferencial dos Estados Unidos, monopoliza
todas as suspeitas como plataforma de lançamento, ideológica e material, do 11
de setembro. É o que acreditam os 1.800 familiares e amigos de vítimas do
quádruplo atentado de 2001 em sua reivindicação de transparência dirigida ao
presidente Joe Biden, pedindo a liberação de material confidencial sobre a
conexão saudita. Mas o compasso da dúvida traça um círculo mais amplo,
abrangendo um número interminável de suspeitos habituais. As perguntas se
estendem também ao papel das agências de inteligência na hora de prever o
massacre.
Muitos
analistas se surpreendem que os serviços de inteligência dos Estados Unidos
parecessem não perceber o que estava sendo tramado no Egito e no Paquistão,
outros dois países aliados. Não era nenhum segredo a arraigada atividade
fundamentalista islâmica no Cairo ou a efervescência em Peshawar (Paquistão),
quartel-general dos chamados árabes afegãos, os voluntários que lutaram ao lado
dos mujahedins no Afeganistão contra o invasor soviético nos anos oitenta e
que, terminada a guerra − se é que terminou alguma vez −, voltaram para seus
países de origem e espalharam globalmente a jihad. Da Argélia ao Iraque, da
Síria aos subúrbios de Bruxelas assolados pela barbárie do Estado Islâmico,
espalharam-se ondas posteriores da instabilidade que a guerra contra o
terrorismo de George W. Bush provocou na região.
Desde a
conclusão da comissão oficial de investigação do 11/9, em 2004, “foram
encontradas muitas provas que demonstram o apoio de funcionários sauditas aos
ataques”, diz a carta dos familiares a Biden, “mas o Departamento de Justiça e
o FBI tentaram manter essa informação em segredo e impedir o povo americano de
saber toda a verdade”. A carta, cujo conteúdo foi revelado em agosto pela rede
de TV NBC, faz referência a outra investigação, ainda mantida em segredo, que
se estendeu até 2016 e que apontaria diretamente Riad.
Interesses
comerciais − petróleo, venda de armamento em um mercado muito competitivo… −
alimentavam a fluida relação bilateral entre Washington e Riad até fevereiro,
quando a presidência de Joe Biden deu uma guinada e liberou um relatório de
inteligência sobre o envolvimento do príncipe herdeiro saudita, Mohamed Bin
Salman, no cruel assassinato e esquartejamento do dissidente Jamal Khashoggi,
que havia sido correligionário e bom amigo de Osama Bin Laden na juventude. A
mudança de rumo do relacionamento poderia propiciar uma maior transparência em
relação à investigação, segundo diferentes fontes.
Os nomes dos
suspeitos habituais, como o caudilho saudita, o egípcio Ayman al Zawahiri e
Khalid Sheikh Mohamed, suposto cérebro do 11/9, eram conhecidos havia anos pelos
serviços de inteligência da área, o que parece corroborar a desatenção inicial
dos EUA. Um funcionário do FBI chamado Dan Coleman foi enviado no início dos
anos noventa à sede da CIA, onde encontrou um extenso dossiê sobre uma rede de
financiamento “de causas islâmicas” liderada por Bin Laden, como conta Lawrence
Wright em seu livro O Vulto das Torres. Para muitos analistas naquela época, o
saudita era apenas um financiador, como lembram fontes de inteligência no
documentário Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra contra o Terror, recém-estreado.
Coleman avisou seus superiores de que algo estava sendo tramado, mas seu alerta
foi ignorado, até que ele foi encarregado de liderar uma equipe conjunta
FBI-CIA em 1996 para seguir a pista saudita.
Apenas um
ano depois, Coleman propôs um plano para retirar Bin Laden à força do
Afeganistão, mas a missão não foi aprovada por seus superiores, segundo a
comissão oficial de investigação do 11/9. Por isso também não puderam ser
impedidos os sangrentos atentados contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na
Tanzânia em 1998, atribuídos à Al Qaeda. O rastreamento das atividades dos
jihadistas continuou com resultados variados, como demonstra a infinidade de
mensagens secretas liberadas pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade
George Washington.
Entre todas
essas mensagens, destaca-se uma particularmente premonitória, de dezembro de
1998, publicada pelo Arquivo de Segurança em 2012. Seu título pode ser
traduzido como “Planejamento de Osama Bin Laden para sequestrar um avião dos
EUA e burlar com sucesso as medidas de segurança no aeroporto”, e ela diz o
seguinte: “Os documentos publicados pela CIA detalham meticulosamente o complô
da Al Qaeda contra os EUA e as tentativas da agência de conter a crescente
ameaça terrorista. Um relatório de inteligência que serviu de base para as
informações transmitidas em 4 de dezembro de 1998 ao presidente [Bill Clinton]
assinala que, cinco anos antes do ataque real [do 11/9], operações da Al Qaeda
tinham burlado com sucesso a segurança em um aeroporto de Nova York para testar
sua vulnerabilidade”.
O mesmo
documento explicava as razões pelas quais as agências de inteligência dos EUA −
18, nem sempre bem coordenadas entre si − não conseguiram impedir os atentados.
“Apesar das crescentes advertências sobre a Al Qaeda, os documentos publicados
hoje ilustram como, antes do 11 de setembro, as unidades antiterroristas da CIA
não tinham fundos para perseguir agressivamente Bin Laden.” A série de erros de
cálculo e de interpretação cometidos desde antes de 2001 teve sua demonstração
mais evidente neste próprio ano, 2021, com a miopia diante do avanço
vertiginoso dos talibãs no Afeganistão.
O decidido
apoio financeiro dos EUA aos mujahedins afegãos que lutaram contra os
soviéticos − o último conflito acirrado da Guerra Fria − indica, por sua vez,
que a mobilização radical não era um segredo para Washington. O tempo perdido e
as lacunas de informação e de coordenação se voltaram como um bumerangue contra
o Ocidente. “Os erros do FBI e da CIA ao não detectar e impedir o complô do 11
de setembro, apesar dos muitos alertas, alimentaram a desconfiança da população
nas agências de inteligência. A informação deficiente sobre armas de destruição
em massa inexistentes no Iraque minou a confiança pública não só nos governos
que propagaram essas afirmações”, assinalou a analista Barbara Keys em um
artigo publicado em 2018, em pleno apogeu das fake news sob o mandato de Donald
Trump. “O resultado é um clima de desconfiança generalizada em relação à
autoridade”, tendendo ao populismo, conclui.
(El País)
*Lúcio
Flávio Pinto - Jornalista
profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais
publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de
S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal,
newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.
No
jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos
Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças
sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em
2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.


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