OPINIÃO | TORCER PELA SELEÇÃO OU PELO BRASIL?
Marcelo Abreu Ducroquet*
Em um período de
apenas dez dias, recebemos duas notícias surpreendentes. Primeiro, a Copa
América na Argentina e Colômbia seria cancelada e, segundo, o Brasil aceitou
receber a competição a duas semanas do início. A primeira notícia não é inédita,
a história do torneio é marcada pela intermitência e mudanças no cronograma. A
segunda é inédita. Quem aceitaria sediar um evento dessa magnitude em cima da
hora? Quais são os benefícios de sediar a competição? Quais são os riscos?
Os benefícios são econômicos
e políticos. As pessoas envolvidas na organização da Copa ganharão milhões.
Direitos de transmissão e publicidade. Aparentemente, os clubes donos de
estádios que recebem jogos também recebem pagamentos. Em tempos normais, um
pouco do dinheiro permearia a economia por meio do turismo, aumentaria o
faturamento de restaurantes e hotéis. Com mais pessoas visitando o Brasil,
aumentaria o número de oportunidades de negócios. Mas neste ano, esses
benefícios tendem a ser reduzidos pelas dificuldades de deslocamentos impostas
por vários países. Mesmo que o governo brasileiro não imponha restrições de
viagem, muitos países não recomendam que seus cidadãos venham ao Brasil neste
momento.
Que malefícios a Copa
pode trazer? São políticos e sanitários. Os governos estaduais e municipais
decretaram restrições à atividade comercial ao longo do último ano. É difícil
conciliar essa posição com a realização de um evento esportivo internacional
com o qual não tínhamos compromisso. Esse ponto é especialmente relevante. Não
tínhamos nenhum compromisso assumido com a realização da Copa América este ano.
O governo japonês está enfrentando duras críticas internas pela manutenção dos
Jogos Olímpicos. O argumento que estão usando é que o cancelamento
representaria um prejuízo de 50 bilhões de dólares. Hotéis programaram
ampliações, contrataram funcionários. Pessoas investiram dinheiro, fizeram
empréstimos... Não é o nosso caso, soubemos que a Copa seria no Brasil menos de
15 dias antes do início da competição. A situação aqui é oposta. Não houve
tempo para preparar nada.
Em relação à questão
sanitária, os riscos estão relacionados principalmente à entrada de novas cepas
no Brasil. Um dos países mais bem sucedidos no combate à pandemia é a
Austrália. Qual é o segredo? Um embargo praticamente completo a entrada de
pessoas no país. Realizar um evento internacional é o oposto disso.
O Brasil já se mostra
fértil em desenvolver novas cepas, o que acontece, principalmente, pela falta
de um plano integrado de combate à pandemia. De acordo com a plataforma de
dados genômicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o País tem, atualmente,
mais de 90 cepas em território nacional. E o principal desafio com as variantes
é o alto grau de transmissão, além dos riscos de mutação. As restrições impostas
até aqui não se provaram eficientes, basta olhar a atualização do número de
mortes. Portanto, mesmo sem público, a competição vai reunir muitas pessoas -
algumas delegações estão vacinadas, mas não completamente. E isso não é
garantia de que eles não possam transmitir o vírus.
Ou seja, com a
entrada de mais pessoas, novas linhagens, novas variantes, novas cepas,
possíveis mutações, mais pessoas infectadas, mais hospitalizações, mais mortes,
mais famílias em luto. E tudo novamente. Até que o Brasil tenha como prioridade
a vida.
O que poderia ter
sido feito quanto a Argentina e Colômbia que se recusaram a receber os jogos? A
alternativa mais clara seria o cancelamento ou adiamento do evento. Que, aliás,
parece ser a alternativa preferida dos jogadores, não pelo risco de contaminação
com Covid-19, mas porque a competição é realizada a cada dois anos e atrapalha
os compromissos profissionais dos jogadores com seus clubes. Nem eles têm
interesse nessa competição.
Esse ano, o melhor
seria torcer pelo Brasil e não pela Seleção.
*Marcelo Abreu
Ducroquet é infectologista e
professor do curso de Medicina da Universidade Positivo.


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