ARTIGO DEDOMINGO | CLARA PANDOLFO: 109 ANOS
- por Lúcio Flávio Pinto*
Neste mês, se ainda
estivesse viva, Clara Martins Pandolfo teria completado 109 anos. Ela morreu 12
anos atrás, aos 97 anos. Já era pouco conhecida e menos reconhecida ainda,
apesar da enorme contribuição que deu para o melhor conhecimento da Amazônia e
pela adoção de políticas oficiais conciliadas com a ciência, a lei e as
características da região.
Como uma forma de
incentivar a comemoração dos seus 110 anos em 2022 para registrar a data e
garantir a retribuição dos paraenses a personagem tão importante no nosso
tempo, reproduzo artigo que escrevi em 2015 no Jornal Pessoal.
———————————————–
Se viva ainda
estivesse, Clara Martins Pandolfo teria completado, ontem, 103 anos. Ela teve
uma longa e fértil carreira no serviço público, com maior destaque para o
período em que chefiou o Departamento de Recursos Naturais da Sudam. Além das
atividades do seu ofício, ela exerceu intensa atividade de pesquisa e escreveu
livros. Defendia com entusiasmo suas ideias e sabia dialogar. Tornou-se uma
referência na interpretação da Amazônia.
Pelo menos duas vezes
por mês eu passava no gabinete da doutora Clara. Às vezes atrás de informações
específicas, outras para conversas que podiam se estender por sua tolerância e
desejo de divulgar suas ideias. Tornamo-nos amigos, independentemente das
nossas diferenças de pontos de vista. Além de respeitá-la, eu lhe dedicava
muito carinho.
Acabei me tornando
intermediário em um dos momentos mais altivos da sua função na Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia. O então superintendente queria aprovar três
projetos agropecuários no Acre. Firme defensora da floresta, a doutora Clara se
opôs.
O superintendente
decidiu não submeter os projetos ao setor competente e levá-lo diretamente ao
plenário do Conselho Deliberativo. Denunciei o fato, que gerou debates e, para
mim, um bate-boca. Mas foi um momento de grande significado na defesa da Amazônia.
Em homenagem a essa
personagem tão importante quanto esquecida, reproduzo texto escrito ontem pelo
seu neto, o jornalista Murilo Fiúza, que mora no Rio de Janeiro, e, em seguida,
o que escrevi quando ela morreu. Espero que a proposta que fiz, seis anos
atrás, sensibilize alguém com poder decisório: dar-lhe, pós-morte, o título de
doutora honoris causa da universidade – seja a federal como a estadual. Ela fez
por merecer.
TEXTO DE MURILO
Clara foi uma grande
cientista, uma mulher à frente de seu tempo, uma das primeiras a defender o uso
sustentável dos recursos naturais da Floresta Amazônica. Em 1929, aos 18 anos
(!!!!), graduou-se em Química pela antiga Escola de Química Industrial do Pará,
cujo diretor era o naturalista francês Paul Le Cointe, um dos maiores
pesquisadores da flora amazônica do século XX.
Foram poucos os
graduados por aquela escola em seus 10 anos de existência. No total, apenas
nove. Entre eles, estava Clara, a única mulher do grupo. Para além da questão
de gênero expressa neste contexto (imagine uma mulher formada no Norte do país
em 1929!), foi graças ao rigor metodológico adquirido na velha instituição, em
especial, à paixão pela Amazônia, lhe transmitida por Le Cointe, que levaram a
futura cientista a pensar em projetos pioneiros de desenvolvimento para a
região.
Somente hoje esses
projetos vêm sendo implementados no país, como a concessão de florestas
públicas para exploração sustentável de madeira, lei sancionada em 2006 na
gestão da então ministra Marina Silva, e o incentivo ao plantio da palma (ou
dendê) em terras degradadas da Amazônia – considerado o mais produtivo
biodiesel de oleaginosa existente atualmente e cujo maior produtor do país é o
Pará.
MEU ARTIGO NO JP
Clara Pandolfo, que
morreu na semana passada [em junho de 2009], aos 97 anos, foi uma das
mais notáveis paraenses, pioneira na emancipação da mulher. Foi aluna muito
estimada de Paul Le Cointe na velha escola de química, produto de uma época em
que a elite local ainda era esclarecida, mesmo – ou, sobretudo – depois da
decadência da borracha.
A química foi a base
científica para voos mais altos e amplos da sua inteligência, que se acantonou
na SPVEA, em 1953, e se manteve no órgão substituto, a Sudam, em 1966. Ao longo
de 40 anos a voz da doutora Clara se manteve firme, respeitada e temida. Ela
não devia sua posição a nenhum pistolão. Podia exigir que a convencessem
através de argumentos. Se não, defenderia sua própria posição.
Um episódio ilustra o
que ela foi. No início da década de 80, o então superintendente da Sudam, Elias
Sefer, queria aprovar de qualquer maneira três projetos agropecuários no Acre.
O principal argumento era que o Estado não fora “beneficiado” por nenhuma
fazenda dos incentivos fiscais. O problema é que elas ficariam em área de
floresta densa e uma resolução da própria Sudam proibira essa localização. A
doutora Clara se colocou contra a iniciativa.
O superintendente
encaminhou os três projetos por um atalho para a reunião do Conselho
Deliberativo. Denunciei o fato em O Estado de S. Paulo e O Liberal, provocando
grande repercussão. O superintendente tentou se explicar: não precisava ouvir o
Departamento de Recursos Naturais porque conhecia a Amazônia como ninguém. O
que devia servir-lhe de defesa, o condenou de vez.
O superintendente se
foi e o tempo apagou seu nome da história. Doutora Clara prosseguiu por mais
uma década ainda e só saiu do front pela aposentadoria compulsória. Permanecia
lúcida e com a memória em dia. Estava em condições de continuar a ser útil à
sociedade, mas nenhum novo lugar se abriu para ela. Nos últimos anos tentei
convencer a Universidade Federal do Pará a homenageá-la com um título de doutor
honoris causa ou equivalente. Consegui apoio importante, mas não foi o
suficiente.
Temia o que acabou
acontecendo: doutora Clara morreu sem receber o reconhecimento devido ao seu
valor e contribuição à Amazônia. Uma homenagem, como a que sugeri, talvez
pudesse tirá-la do abatimento que a deixou prostrada pela última década, com a
agravante da perda progressiva da visão. Por que a universidade foi indiferente
ao clamor da história? Seria por uma estreiteza de quem não reconhecia nela
títulos ou rigor científico? Ou por não ser par na ciranda acadêmica?
Clara Pandolfo não
tinha currículo adornado por mestrados, doutorados e outros penduricalhos
pós-graduados. Mas possuía um conhecimento vasto e íntimo da Amazônia, que
qualquer um podia checar. Alguns superintendentes da Sudam devem ter tido o
ímpeto inicial de retirá-la do DRN, mas acabaram recuando.
Nomes célebres da
bibliografia amazônica torciam o nariz à sua referência, talvez por despeito e
inveja. Tudo que foi na vida, Clara Pandolfo o deveu à sua inteligência e ao
seu trabalho. E não foi pouca coisa. O que fez está documentado em vários
trabalhos que escreveu e nas obras que realizou.
Nunca fui fã
incondicional dela. Terçamos armas em alguns momentos na defesa de pontos de
vista divergentes e até conflitantes. Nunca, porém, deixei de respeitá-la e
admirá-la. E ela nunca fechou sua porta para mim, mesmo quando sua visão era
criticada. Um caso raro em que ideias não se confundiam com pessoas – e a
causa, em prol da Amazônia, estava acima de tudo.
O Pará podia ter
enterrado Clara Pandolfo com todas as glórias de que ela se tornou merecedora.
Infelizmente, porém, vai ter que reparar a omissão pós-morte. Como de regra.
*Lúcio Flávio Pinto - Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.
Tem 21 livros individuais
publicados, todos sobre a Amazônia, os últimos dos quais Amazônia Decifradada e
A Questão Amazônica. É co-autor de numerosas outras publicações coletivas,
dedicadas à Amazônia e ao jornalismo. Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012
pelo conjunto da sua obra. Foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras,
com sede em Paris, como um dos mais importantes jornalistas do mundo, o único
selecionado no Brasil para essa honraria.


Nenhum comentário:
Postar um comentário