ARTIGO DEDOMINGO | ‘A CELEUMA PELA APREENSÃO DE MADEIRA’
- Lúcio Flávio Pinto*
Leitor me mandou a matéria abaixo, do portal G1, de fevereiro
deste ano, que ajuda a entender melhor o contexto da atuação do juiz federal
Antonio Campelo, que responde agora a inquérito disciplinar administrativo
instaurado pela corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, em Brasília.
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Juiz do PA aplica multas de R$ 200 mil a policiais federais
envolvidos em mega apreensão de madeira na Amazônia
Por Taymã Carneiro, G1 PA — Belém
04/02/2021
A operação Handroanthus GLO, da Polícia Federal do Amazonas, virou
um “nó judicial”, após a Justiça Federal no Pará determinar a prisão e multa de
R$ 200 mil a cada policial envolvido. A ação na divisa do Pará com o Amazonas
resultou em apreensão de madeira supostamente ilegal, classificada pela PF como
a maior da história na Amazônia.
Segundo reportagem do O Globo, foram apreendidos 131 mil metros
cúbicos de toras de madeira, material suficiente para encher 6.243 caminhões. A
carga foi avaliada em ao menos R$ 55 milhões.
O imbróglio está no conflito de competência, após a referida
decisão, entre a 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Pará e a 7ª
Vara Federal da Seção Judiciária do Amazonas, o que ainda deve ser julgado em
segunda instância, pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Em nota, a Polícia Federal do Amazonas disse que não vai se
manifestar. A Justiça Federal no Pará também disse que não vai comentar.
Decisão
Na decisão de 19 de janeiro, o juiz federal Antonio Carlos Almeida
Campelo entendeu que uma das madeireiras alvo da operação Handroanthus GLO é
situada no Pará e o transporte de madeira é feita entre dois portos no estado,
“somente fazendo passagem por uma pequena porção do estado do Amazonas, local
onde foram feitas as apreensões ilegais pela Polícia Federal do Amazonas, sem
ordem judicial”.
A empresa MDP Transportes Eireli é sediada no distrito de
Icoaraci, em Belém, e teve caminhões com toras de madeira apreendidos em 18 de
novembro de 2020 na divisa do Pará com o Amazonas. A apreensão ocorreu após um
laudo da Polícia Federal do Amazonas detectar irregularidades na área
denominada fazenda Imbaúba I, localizada em Juruti, no Pará, de onde a madeira
teria sido extraída.
O magistrado então determinou a competência da 4ª Vara Criminal
Federal no Pará para processar e julgar o caso, além de suspender o inquérito policial
em relação à MDP Transportes Eireli, até decisão final; e ainda a devolução de
três balsas e um empurrador, além da madeira, bens e documentos apreendidos.
À época da decisão, o juiz encontrava-se de férias, de acordo com
o site do TRF-1. Ele também revogou entendimento do substituto dele, que havia
declinado da competência em favor da Justiça do Amazonas, que seria o juízo
competente.
De acordo com a decisão, as tripulações e embarcações poderiam
transportar a madeira até Belém, para comercialização após autorização da
Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará (Semas).
O advogado de defesa da empresa, Diogo Condurú, alegou que o
projeto de manejo da empresa foi aprovado no Pará e todos os documentos foram
apresentados no momento da apreensão. “A madeira é legal e possui origem em
empreendimento aprovado pela Semas”.
“Segundo se depreende dos autos do processo, o delegado do
Amazonas quer forçar que o inquérito seja no Amazonas, mesmo sendo a empresa
sediada em Belém, o empreendimento licenciado no Pará, a área ser de jurisdição
do Estado do Pará, enfim, não há absolutamente nada que permita ser a
competência do Judiciário do Amazonas… Não se quer impedir investigação, mas
que seja ela feita pelo juiz competente. O que gostaria de indagar é: não há
polícia federal no Pará que possa conduzir essa investigação?”, afirmou.
Já a Semas disse que “está fazendo uma revisão nos documentos e
vistorias nos pátios de estocagem dos dois concessionários florestais alvos da
Operação da Policia Federal do Amazonas e que possuem planos de manejo
licenciados pela Semas”.
Segundo a secretaria, a averiguação servirá para conferir se as
madeiras estocadas conferem com os Planos de Manejo apresentados e licenciados
e “assim que este diagnóstico for concluído, a secretaria irá disponibilizar as
informações ao público e à Policia Federal do Amazonas”.
Multa
A PF do Amazonas, no entanto, não deu cumprimento à decisão e
manteve as apreensões.
Uma nova decisão da Justiça Federal no Pará, de 21 de janeiro,
determinou multa de R$200 mil por dia de descumprimento a um delegado e ao
superintendente da PF do Amazonas “e a qualquer outro delegado, agente que
descumprir a decisão”.
O juiz Antonio Campelo determinou a “imediata prisão em flagrante,
com abertura de inquérito policial, e comunicação ao órgão corregedor da
Polícia Federal ou do respectivo ente administrativo para abertura de processo
administrativo disciplinar”. Ele também decidiu:
que os documentos, balsas e empurrador fossem restituídos
imediatamente;
que as balsas, empurrador e produtos florestais estivessem
autorizados a trafegar “sem qualquer embaraço”
que a autoridade policial se abstivesse de “constranger exploração
dos planos de manejos florestais da fazenda Imbaúba”.
A pedido do Ministério Público do Amazonas, o TRF-1suspendeu,
liminarmente, a decisão da Justiça Federal do Pará.
Sindicato defende ação de policiais
O Sindicato dos Policiais Federais no Amazonas divulgou uma nota
nesta quinta (4) afirmando que a operação teve “propósito de desarticular uma
das maiores organizações criminosas na esfera ambiental” e que “toda a investigação
está sendo acompanhada pelo Ministério Público Federal do Amazonas e pelo juízo
da 7ª Vara Federal da Seção Judiciária do Amazonas”.
“Em que pese o exposto acima, as organizações criminosas
envolvidas tentaram efetivar manobras jurídicas para furtarem-se às implicações
legais, ingressando na Justiça Federal do Pará com o escopo de liberar as toras
de madeiras e equipamentos utilizados nas ações delitivas”, afirma.
O sindicato afirma ainda, que Desta feita, que “manifesta profunda
honra e orgulho pela atuação heroica e incansável dos policiais federais
envolvidos na investigação, que não se deixaram intimidar pelas furtivas
manobras dos representantes das organizações criminosas, pautando suas ações na
defesa abnegada da floresta amazônica”, (confira a nota na íntegra a seguir).
“O Sindicato do Policiais Federais no Amazonas, legítimo
representante de todos os servidores da PoliciaL Federal no estado, traz à
baila, para conhecimento da sociedade amazonense a excelência dos trabalhos
desenvolvidos pelos valorosos policiais federais envolvidos na OPERAÇÃO
HANDROANTHUS, desencadeada com o propósito de desarticular uma das maiores
organizações criminosas na esfera ambiental.
Insta esclarecer que policiais federais identificaram a atuação de
organizações criminosas que estavam causando uma verdadeira devassa na floresta
amazônica, especificamente na divisa dos estados do Pará e do Amazonas. No
contexto da OPERAÇÃO HANDROANTHUS – GLO, já foram apreendidos mais de 131 mil
m³ de madeira em tora (produto de crime), número que só aumenta com o
desenvolvimento dos trabalhos investigativos e periciais.
Além disso, foi apreendida uma infinidade de bens voltados à
logística de extração, transporte, beneficiamento, comercialização e exportação
da madeira ilegal, os quais revelam-se como verdadeiros instrumentos para a
prática criminosa, a exemplo de balsas, empurradores, caminhões, tratores,
entre outros.
Outrossim, toda a investigação está sendo acompanhada pelo
Ministério Público Federal do Amazonas e pelo juízo da 7ª Vara Federal da Seção
Judiciária do Amazonas.
Em que pese o exposto acima, as organizações criminosas envolvidas
tentaram efetivar manobras jurídicas para furtarem-se às implicações legais,
ingressando na Justiça Federal do Pará com o escopo de liberar as toras de
madeiras e equipamentos utilizados nas ações delitivas.
Não obstante, inúmeros remédios constitucionais, como habeas
corpus e mandados de segurança, vêm sendo impetrados pelas madeireiras
envolvidas na Justiça Federal do Pará, como claro subterfúgio para evitar a
contextualização dos atos ilícitos no âmbito da operação que vem sendo
deflagrada.
Numa dessas manobras, no bojo de um remédio constitucional, foi
proferida decisão a favor de uma madeireira investigada, ao final da qual um
juiz federal da Seção Judiciária do Pará fixou multa diária de R$ 200 mil para
cada policial federal envolvido na ação e, ainda, determinou a imediata
liberação de uma balsa de madeira apreendida. Não obstante, constava do site do
TRF1, na ocasião o referido magistrado encontrava-se de férias. Aliás, ele,
inclusive, revogou o entendimento de seu substituto, que havia declinado a
competência em favor da Seção Judiciária do Amazonas, que seria o juízo
competente.
De qualquer sorte, na medida de exceção de incompetência
apresentada pelo MPF, o Desembargador plantonista do TRF-1 suspendeu,
liminarmente, a decisão da Justiça Federal do Pará.
Desta feita, esta entidade sindical manifesta profunda honra e
orgulho pela atuação heroica e incansável dos policiais federais envolvidos na
investigação, que não se deixaram intimidar pelas furtivas manobras dos representantes
das organizações criminosas, pautando suas ações na defesa abnegada da floresta
amazônica, no direito das futuras gerações pela manutenção das riquezas
advindas das nossas matas e rios.”
*Lúcio Flávio Pinto -
Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das
principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em
O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal
Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.
Tem 21 livros individuais publicados, todos sobre a Amazônia, os últimos dos quais Amazônia Decifradada e A Questão Amazônica. É co-autor de numerosas outras publicações coletivas, dedicadas à Amazônia e ao jornalismo. Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012 pelo conjunto da sua obra. Foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para essa honraria.


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