O LEGADO DE BRUNO COVAS

 


É muito triste a morte de um jovem. Bruno Covas lutou bravamente e o seu drama pessoal deixou algumas reflexões. No Dia das Mães, fez uma homenagem à sua mãe e à mãe de seu filho Tomás, que tem 15 anos, cuja imagem serena ao lado do pai emocionou o Brasil. Sábado, foram muitas as pessoas a pedirem desculpas, lamentando não terem percebido na ocasião o gesto de amor explícito, a última chance de levar seu filho a uma final da Libertadores da América com o seu time do coração, quando o atacaram duramente na época em que ele decretou lockdown e foi ao estádio com o menino.

 


O calvário de Bruno Covas começou em outubro de 2019, quando chegou ao hospital com trombose venosa profunda na perna direita. Os coágulos subiram para o pulmão, causando embolia. Durante os exames, detectaram o câncer na cárdia, região entre o esôfago e o estômago, já com metástase no fígado e nos linfonodos. Covas passou por sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. Mas a doença se espalhou no sistema digestivo e atingiu os ossos e sangue.

 

Na segunda-feira 9 de abril de 2018, quando assumiu a prefeitura de São Paulo, com a renúncia de João Dória, Bruno Covas disse:

 

"Tenho pressa. Serão apenas 33 meses que temos pela frente para pagar a minha dívida de gratidão.

 

Não é muito tempo, mas como disse Martin Luther King: 'O tempo é sempre certo para fazer o que está certo'.

 

É preciso mobilizar recursos, arregimentar competências, sacudir crenças, varrer disparates burocráticos, focar em práticas que traduzem a vontade política em tijolos de solidariedade.

 

É muito querer, sem dúvida. Mas quem não sonha, não faz."

 

(...)

 

"Nunca escondi de ninguém que sou um político. Aristóteles já dizia que o homem é um ser político.

 

Acredito que as transformações sociais que tanto desejamos devem ser travadas na arena política.

 

Como lembrou Mário Covas em seu discurso de posse como prefeito de São Paulo: “Não é sem razão que o vocábulo político encontra sua raiz na expressão pólis, isto é, cidade”.

 

A síntese para a cidade, bem como para a política, é a busca da identidade capaz de transformá-la num corpo vivo, ágil, capaz de traduzir a vontade coletiva da sua aspiração pela melhoria da qualidade de vida.

 

É forçoso, portanto, eliminarmos da linguagem do poder a primeira pessoa do singular.

 

A política, como a cidade, é a crença no povo. Crer no povo é reconhecer em cada homem, em cada mulher, o direito de viver com dignidade. É compreender seu papel de ator, de agente e de construtor do seu destino. É identificar nele a fonte legitima de poder.

 

A política, como a cidade, há de ser o querer traduzido em princípios e formulado em objetivos concretos.

 

A política, como a cidade, há de ser virtude e virtude não é um bem e sim um dever.

 

A política, como a cidade, há de ser esperança nascida da dinâmica transformadora.

 

A política, como a cidade, há de ser justiça que será tão mais implacável na medida em que se substitua a espada por um coração.

 

A política, como a cidade, há de ser a coragem de proclamar com clareza a nossa incapacidade de multiplicar os peixes, tarefa divina, mas há de ser também a tolerância para ensinar a pescar, e, sobretudo, a humanidade para reconhecer que cada homem deve ser pescador.

 

Assumi esse cargo, esse encargo, consciente da gravidade, da responsabilidade e do peso desta tarefa.

 

Trabalharemos incansavelmente porque temos os olhos postos em imagens que não nos deixam descansar. A de mães angustiadas, carregando seus filhos no colo, na longa espera por uma vaga em creche; a do enfermo, que no auge de seu sofrimento e dor não encontra amparo nos equipamentos de Saúde; a do trabalhador desesperançado, que leva horas e horas num sistema de transporte insuficiente; a de uma cidade pujante mas que ainda mostra a o horror de seus cortiços e as chagas de suas favelas.

 

O desafio parece impossível, mas acalento a todos com os versos de Gonzaguinha:

 

'Eu ponho fé na fé da moçada

 

Que não foge da fera e enfrenta o leão

 

Eu vou à luta com essa juventude

 

Que não corre da raia a troco de nada

 

Eu vou no bloco dessa mocidade

 

Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada'.

 

Vamos construir o amanhã que desejamos para São Paulo".

 

Vá em paz, Bruno Covas, e que saibamos sonhar e construir nossas cidades, nossos estados e nosso País, com ética, competência e humanismo!

 

 

 

è por Franssinete Florenzano

 

 

 

 

 

 

 

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