ARTIGO DEDOMINGO | “O MUNDO DE BENEDITO E SYLVIA”

è Por Lúcio Flávio Pinto*

 

A bela e valiosa casa na qual Benedito e Maria Sylvia Nunes, mais Angelita Silva, moraram, na rua da Estrela 2735, no bairro do Marco, em Belém, permanece viva e ocupada, mas perdeu sua alma.

 

Seus proprietários e ocupantes já morreram. Deixaram o imóvel a uma herdeira indicada, a sobrinha-neta Potira Nogueira. Um grupo de pessoas, que talvez se considerem herdeiras espirituais dos três moradores, iniciou um movimento para o tombamento da residência, que, depois, por compra ou desapropriação, abrigaria um centro de formação em pesquisa nas áreas de artes e humanidades, segundo informa o Diário do Pará de hoje.

 

A herdeira legal declarou que não pensa em vender o imóvel e não concorda com a iniciativa – de resto, inútil, já que pretende, ela mesma, requerer o tombamento. Nenhum dos legatários, em vida, pretendeu que sua casa tivesse a destinação que lhe pretendem dar. Por ato consciente, transferiram o bem patrimonial a uma pessoa de sua própria família.

 

Com todos os bons propósitos que possam ter os participantes da mobilização, eles contrariam a vontade explícita, pessoal e intransferível de Benedito e Maria Sylvia Nunes (não sei de alguma deliberação de Angelita, pioneira feminina na engenharia paraense, responsável, com o arquiteto, escultor e poeta Ruy Meira, pelo projeto da residência; ela morreu mais cedo). Sem açodamento e ciente do fato, esses cidadãos deveriam retirar os requerimentos já formulados ao município de Belém e ao Estado.

 

Foi constatado, em verificação oficial, que a casa, ocupada pela herdeira há sete meses, após a morte de Maria Sylvia, está sendo bem tratada, encontrando-se em bom estado. Não há qualquer sinal de deterioração ou descaso.

 

O argumento sobre a utilidade pública da casa onde residiram três personagens da história contemporânea do Pará, com significação regional, nacional e internacional, sobretudo pela atividade intelectual de Benedito Nunes, advogado, professor, escritor e filósofo, perde o seu sentido sem o acervo cultural que ele e suas acompanhantes formaram ao longo de décadas.

 

Os livros, os documentos e o arquivo deles foi transferido para a Universidade Federal do Pará, estando na fase de tratamento para sua incorporação ao acervo da instituição para serem colocados à disposição do público. O que restou naquele local da rua da Estrela (impropriamente rebatizada para Mariz e Barros) é um imóvel residencial como outro qualquer, independentemente do seu valor arquitetônico ou histórico.

 

Mesmo que o acervo particular dos Nunes tenha sido previamente inventariado com todo rigor e vá merecer prioridade para logo estar acessível a quem por ele se interesse, há precedentes que sugerem cautela e atenção. Por quanto tempo os livros de Eneida permaneceram encaixotados na biblioteca central da UFPA? A preciosa biblioteca de Francisco Paulo Mendes está aberta ao público? Onde foram parar os livros, cartas e documentos da sala dedicada a Haroldo Maranhão na biblioteca do Centur depois que o local foi desfeito, desrespeitando o compromisso assumido pelo Estado?

 

Se a biblioteca de Benedito e Maria Sylvia não voltar ao lar do casal, qual o sentido de tombar o imóvel, submetendo-o à sempre problemática adaptação para o funcionamento de um centro cultural a mais, apenas com os retratos dos homenageados na parede? Não seria mais um exercício de mitomania ou o culto da personalidade, num templo vazio, por mera formalidade?

 

Se Benedito e Sylvia cultivassem esse projeto, eles o deixariam explicitamente consignado. O que fizeram foi legar sua casa a uma herdeira de carne e osso. O que eles consideravam era algo mesmo que longinquamente parecido com o que a USP fez com a biblioteca de José e Guita Mindlin em São Paulo. Para que o destino não seja ingrato, como em diversos casos de doação de acervos culturais, é preciso delimitar a linha divisória entre a boa intenção e o inferno para não cometer um erro fatal. Mais um.

 

 


*Lúcio Flávio Pinto - Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém

No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.

Tem 21 livros individuais publicados, todos sobre a Amazônia, os últimos dos quais Amazônia Decifradada e A Questão Amazônica. É co-autor de numerosas outras publicações coletivas, dedicadas à Amazônia e ao jornalismo. Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012 pelo conjunto da sua obra. Foi considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para essa honraria.

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