ARTIGO DEDOMINGO | ‘MORRE TAMBÉM A ESPERANÇA’

è Por Lúcio Flávio Pinto*

 

Títulos não faltam a Vinícius Rodrigues Vieira, autor de artigo publicado no portal do UOL. Ele é é doutor em Relações Internacionais pela universidade britânica de Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado e na Fundação Getúlio Vargas.

 

Encerra com este parágrafo o seu artigo:

 

“Causa-me asco ver Renan Calheiros (MDB-AL) posar de paladino e ser relator da CPI. Seu currículo explica minha ojeriza. Não vejo em Lula mais que o mais-do-mesmo, uma velha roupa apertada, desconfortável. Inominável, porém, é ver Bolsonaro rir da morte de meus compatriotas sem que ninguém faça nada. Estamos como Churchill: apoiemos, portanto, os diabos na esperança que o inominável caia antes que mais irmãos e irmãs pereçam neste vale de luto e luta em que o Brasil se transformou”.

 

Mesmo um tanto exagerada, a comparação se impõe. A tragédia maior, que estamos vivenciando pela matança contínua e alarmante de brasileiros pelo coronavírus, é composta por sucessão de tragédia menores, embora não menos importantes. Como a de ter que optar entre um governo insano e criminoso, o de Bolsonaro, e a volta de um líder popular cuja expressão histórica se exauriu, se tornando um atestado de óbito ao futuro do Brasil.

 

O artigo do doutor se intitula “Militares endossam golpe em meio a luto nacional”. A mera possibilidade de essa hipótese ser cogitada agrava ainda mais a sensação de perigo e de ameaça. No entanto, afora os espasmos autoritários e a melancolia ditatorial dos militares da reserva, presos a um passado de poder arquivado ao trocarem o uniforme pelo pijama, quase nada sabemos do que acontece dentro dos quartéis.

 

Parte da culpa por essa desinformação cabe à imprensa. O jornalismo foi tomado de assalto por analistas, comentaristas e palpiteiros em geral. Produzem análises esquemáticas (além de tudo, em linguagem que agride a razoabilidade e difama o vernáculo) com base em informações “de bastidor”, sem qualquer identificação da origem, mesmo que genérica, ou a inclusão de fatos concretos para desfazer a névoa de descrença no real e suspeita de fantasia. Produtos em abundância no mercado que se explicam pela carência de repórteres de linha de frente, aqueles que se mantêm à beira do canhão para dizer aos leitores: meninos, eu vi e ouvi.

 

De tragédia em tragédia, na camisa-de-força da escolha entre o pior e o menos pior, o Brasil vê morrer sua gente, desamparada e desorientada, e a própria esperança de futuro decente. Se vivo estivesse, Stefan Zweig decidiria viver para ver o que acontecerá – ou se suicidaria de novo?

 

 


è *Lúcio Flávio Pinto - Jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém-PA.

No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.

 

 

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