ARTIGO DEDOMINGO | ‘CABANAGEM – PERSONAGENS (3)’
-por Lúcio Flávio Pinto*
Continuo a publicar a seleção dos principais cabanos
presos pela força imperial que combateu a cabanagem. Seus nomes constam da
relação nominal dos rebeldes presos em 1836, contida nos códices 972, 973, 974,
1.130, 1.131 e 1.132 do Arquivo Público do Pará. Grifei alguns trechos mais
importantes.
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Cristino José Brandão.
Cafuz, 30 anos, lavrador. Quando os cabanos tomaram o governo, no tempo dos
cabanos, “passou todas as escravas do barão de Jaguarari a chicote e
palmatória”. Remetido para bordo da corveta Defensora em março de 1838. Morreu
no hospital de S. José em abril de 1839.
Custódio Miguel Arcanjo.
Índio, 43 anos, casado, pescador. Comandou o ponto dos rebeldes em Val-de-Cans.
Invadiu a fazenda na boca do Una com um grupo de cabanos para tentar seduzir os
escravos do coronel João de Araújo Rozo, dono da propriedade, para assassinar o
feitor e dois pretos da fazenda, que não quiseram acompanhá-los. Acabou sendo
preso por Rozo e enviado para Belém, em junho de 1837. Morreu a bordo da corveta
Defensora, em fevereiro do ano seguinte.
Custódio da Vera Cruz.
Cafuz, 51 anos, viúvo, ferreiro. Logo depois da entrada dos rebeldes em Belém,
foi ao sítio Impaúba, de Maria do Carmo de Barros, que ali estava com mais
quatro filhas donzelas. “Desumanamente as passou a palmatória até lhe
arrebentarem as mãos, além dos insultos que lhes fez”. Em Belém, praticou
assassinatos e roubos, assim como já tinha feito em outro tempo naquele
distrito, matando até sua própria mulher. Preso em Belém, foi para a Defensora
em agosto de 1836. A última referência foi anotada quando ele seguiu para o
hospital de S. José em outubro do mesmo ano.
Diógenes Thomaz Guilherme.
Do Rio de Janeiro, branco, 37 anos, negociante.
Apontado como escrivão de
Eduardo Angelim no Acará, onde foi preso, em 1836.
Permaneceu na corveta Defensora de setembro de 1836 a agosto de 1838, quando
foi solto.
Dionísio Ferreira da Costa.
Banco, 22 anos, pintor. Preso em Belém pelo alferes Afonso de Albuquerque e
Melo. Pelos relevantes serviços que prestou ao movimento rebelde, foi elevado
ao posto de major e comandante do fortim, onde esteve até a entrada da força
legal. Preso em Belém, foi remetido para bordo da corveta Defensora em julho de
1837. Morreu no Hospital Geral Militar em julho de 1838.
Domingos Antônio. Denunciado
como o assassino do capitão de fragata inglês. Por esse serviço é
que teria sido promovido a olheiro da alfândega. Quando foi preso, em sua casa
foram encontrados gêneros roubados nas lojas da cidade e documentos que
evidenciariam ter sido comandante do ponto do Benjamim e prestado relevantes
serviços aos rebeldes. Preso em 14 de setembro de 1836, em Monforte. Faleceu
ao desembarcar no porto de Belém.
Domingos Congo. Africano,
preto, de 40 anos, foi preso na fazenda de sua senhora por uma patrulha de
Jaguarari. Era escravo de Luiza de Vasconcelos quando se desligou da fazenda e
se juntou aos rebeldes. Teria se tornado um condutor das armas e munições para Antônio
Clemente Malcher e Lavor Papagaio. Preso, foi remetido para
bordo da Defensora em abril de 1837. Solto cinco meses depois.
Eduardo Francisco Nogueira
Angelim. Cearense, branco, 20 anos, casado, proprietário. Na sua ficha de
aprisionamento foi anotado: “acusado por seis testemunhas, por ser o primeiro
chefe dos que agrediram a capital e dela se apossaram, em agosto de 1835.
Cooperou direta e indiretamente para assassínios, roubos, arrombamentos, incêndios,
não só na mesma capital como em todos os lugares desta província. Acha-se
acusado pelo juiz de paz de Ourém no depoimento de testemunhas que fez
proceder. Acusado pelo juiz de paz de Barcarena de ter sido o primeiro que
fulminou ajuntamento contra as autoridades e pelas mais acima e mais por chefe
dos 9 dias de fogo da capital e por ter-se aclamado presidente. (Também
processado pelo juiz de paz de Aicaraú, inclusive por testemunhas de vista.)”.
Remetido para bordo da corveta Defensora em 30 de outubro de 1836, no dia
seguinte foi mandado para a Fortaleza da Barra.
Espínola de Brito Falke.
Branco, 20 anos, caixeiro. A denúncia o considera “um dos influentes rebeldes
que no dia 7 de janeiro de 1835 entrou na conspiração das assassinadas
autoridades legais e que pretendeu assassinar o alferes Alfonso de Albuquerque
e Melo. Consta mais que na noite de 6 para 7 de janeiro de 1835 teve em sua
casa uma reunião de homens e depois de mortas as autoridades se apresentou
armado, comandando uma patrulha, e foi ao Trem para o tomar, andando sempre
armado durante as revoluções que se seguiram a 20 e 21 de fevereiro e 18 de
maio do ano” de 1836, no qual foi preso pelo alferes Alfonso. Foi para o
Arsenal com bexiga em março de 1838. Teve alta dois meses depois e voltou para
bordo. Foi seu último registro.
Eugênio Foles. Tratado
oficialmente como “celerado”, de Igarapé-Miri, responsável por várias mortes.
Seu filho, Ambrósio Henriques Foles, também era cabano, Preso, acabou sendo
solto.
Felipe Eurico Xavier.
Paraense, branco, 21 anos, solteiro, empregado público, estudante
de gramática. Foi remetido para bordo da corveta Defensora em
agosto de 1837. No mês seguinte passou para o brigue português Flor do Mar. Até
ser mandado para Lisboa, ficou impedido de ir a terra. Seu destino ficou
desconhecido.
Felipe Moreira.
“No tempo dos cabanos apoderou-se de sete escravos, destruiu muitas roças e
mesmo preso na viagem levantou-se com outros querendo se apossar das armas dos
guardas que os acompanhavam”. Foi preso em março de 1837, onde morreu em agosto
do mesmo ano.
Florêncio Silva Cravo do Amazonas. Paraense,
branco, 36 anos, almoxarife. Preso em 1837 por espalhar “doutrinas
incendiárias e subversivas” entre os povos do rio Capim,
“promovendo ódios contra o chefe da província”. Em abril de 1838 fugiu da
escolta que o levava para audiência com o presidente da província. Foi
recapturado e internado no Hospital Geral Militar em maio de 1839. Seis meses
depois foi autorizado a curar-se em casa.
Florentino dos Reis.
Paraense, pardo, 28 anos. “Rebelde furioso e inquietador do serviço público”.
Preso em 1836, morreu no mesmo ano.
Francisco Felisberto.
Mulato livre, 20 anos, lavrador. “Malvado de profissão”, assassinou o
português Nicolau de Souza Leão e ameaçou com vergalho e palmatória a família
do comandante do destacamento. Preso em maio de 1837, foi mantido na corveta
Defensora até ser mandado para Pernambuco, em outubro de 1839.
Francisco Fernandes de Macedo.
Branco, 52 anos, capitão reformado de 2ª linha. Preso em outubro
de 1836, por ser considerado ajudante de ordens de Vinagre. Em março de 1839 teve
alta no hospital e ficou preso no quartel do 5º batalhão de caçadores.
Francisco José da Silva Ramos.
Cearense, branco, 25 anos, solteiro, tipógrafo.
Acusado de ter sido um dos “furiosos” assassinos do ex-presidente
Lobo. Participou da reunião realizada no dia 4 de janeiro de 1835 no engenho de
João Pedro Gonçalves Campos, na qual organizaram o ataque a Belém. Conseguira
fugir para o Marajó enquanto era feita uma busca na casa de Abaetetuba do arcipreste
Batista Campos, seu padrinho, para onde ele e outros levaram cinco
“armas da nação”: três pistolas de alcance, um barril e uma lata grande com
pólvora. Foi preso em Muaná e remetido para bordo da corveta Defensora em
outubro de 1836. Solto em setembro de 1838.
Francisco Pedro Vinagre.
Branco, 23 anos, casado, seringueiro. Logo que entrou em Belém com sua tropa de
rebeldes, no dia 7 de janeiro de 1835, foi até a cadeia soltar os presos,
seguindo para os quartéis, onde assassinou os alferes que lá estavam. Armou os
presos e com eles foi assassinar as autoridades. Preso em 28 de junho (ou
julho) de 1835, em Belém, pelo ajudante João de Paula Miranda, por ordem do
ex-presidente, Manoel Jorge Rodrigues. A última anotação foi do seu envio para
a Fortaleza da Barra em 31 de outubro de 1836.
Francisco Rodrigues dos Santos.
Branco, 30 anos, lavrador.Comandou um ataque em Arari a um destacamento de 50
praças. Persuadiu-os a se render dizendo-lhes que nada lhes havia de acontecer;
acreditaram e, depois de rendidos, foram desarmados, fechados em um quarto de
casa segura e no dia seguinte fuzilados. O juiz de paz João Miguel e mais 12
homens da legalidade conseguiram escapar. Concluído o crime, os cabanos
passaram à fazenda de Francisco Manoel Manso Manito, levando tudo que puderam
colocar em uma canoa. Preso junho de 1836, no rio Capim. Na última referência
estava no Arsenal de Guerra, em novembro de 1839.
Geraldo Francisco Nogueira
“Gavião”, Cearense, branco, 22 anos marceneiro (carpinteiro). Integrou o
primeiro ataque a Belém, seguido pelo de agosto de 1835. Pronunciado pelo juiz
de paz de Barcarena como um dos primeiros chefes de Conde, Beja e Barcarena.
Pronunciado pelo juiz de paz de Aicaraçu e acusado pelos mesmos crimes nos
quais Vinagre e Eduardo foram incursos. E mais em Moju, Guajajrá-Miri,
Miritipitinga, Acará, Bujaru e Beja. Foi comandante dos rebeldes do corpo de
permanentes, da polícia do ponto do Porto do Sal. Remetido para bordo da
corveta Defensora em 30 de outubro de 1836. Passou para a fortaleza da Barra no
dia seguinte, de onde saiu em 22 de dezembro do mesmo ano. Recolhido à corveta
Amazonas em 6 de abril de 1840.
Geraldo Francisco de Oliveira
Vinagre. Branco, casado, 23 anos, carpinteiro (negociante). Nomeado
por Eduardo Angelim, quando na presidência da província, como 1º comandante do
corpo de guardas municipais permanentes, em 12 de março de 1836. Pronunciado
como assassino e tenente-coronel comandante de expedições, participando em
todos os crimes cometidos no tempo da rebelião, nos processos do 1º, 2º e 3º
distrito de Belém, e no de Bujaru. Preso em 14 de maio de 1836, em Belém, pela
força legal. Passou da corveta Regeneração para a corveta Defensora em 16 de
junho de 1837. Recolhido à corveta Amazonas em 6 de abril de 1840.
Geraldo do Sacramento Júnior
(filho de Lino José). Mulato, 30 anos, solteiro,
carpinteiro. Foi administrador da mesa de diversas rendas nacionais no tempo do
governo rebelde. Participou do ataque à vila da Vigia. Marchou
depois para os matos próximos da capital, a esperar pelos outros rebeldes que,
de Oeiras e Muaná, a eles se reuniram para atacar Belém, como o fizeram em 14
de agosto de 1835, dizendo muitas vezes que ele vinha defender sua pátria e
extinguir os maçons e os caramurus. Preso em Belém, foi remetido para bordo da
corveta Defensora em outubro de 1838. Solto em junho de 1839.
*Lúcio Flávio Pinto
é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das
principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em
O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal
Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da
Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e
contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro
per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists
Protection), de Nova York.
Tem 21 livros individuais publicados, todos sobre a Amazônia, os
últimos dos quais Amazônia Decifradada e A Questão Amazônica. É co-autor de
numerosas outras publicações coletivas, dedicadas à Amazônia e ao jornalismo.
Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012 pelo conjunto da sua obra. Foi
considerado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos
mais importantes jornalistas do mundo, o único selecionado no Brasil para essa
honraria.


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