BRASIL | POR QUE A EFICÁCIA DE 50,38% DA CORONAVAC NÃO É RUIM

O governador de São Paulo, João Doria, mostra embalagem da CoronaVac para a imprensa na sede do Instituto Butantan, em São Paulo
Outras
vacinas consagradas no Brasil têm eficácia semelhante à apresentada pelo
imunizante contra covid-19 desenvolvido pelo Butantan e a chinesa Sinovac.
Entenda por que a Coronavac pode ajudar na luta contra a doença.Muitos
receberam com decepção a notícia de que a eficácia global da Coronavac foi de
50,38% nos testes clínicos realizados no Brasil. A informação foi divulgada
nesta terça-feira (12/01), pelo Instituto Butantan, que desenvolve o imunizante
contra a covid-19 em parceria com a empresa chinesa Sinovac.
Contudo,
o índice está dentro do recomendável tanto pela Organização Mundial da Saúde
(OMS) quanto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — em
consonância com outros órgãos regulatórios pelo mundo, como Food and Drug
Administration (FDA) dos EUA. E é similar ao de pelo menos dois outros
imunizantes já consagrados no calendário vacinal brasileiro, o contra a gripe e
o contra a tuberculose.
Para
se chegar a um índice razoável de eficácia para uma vacina, epidemiologistas
usam uma equação matemática chamada teorema do limiar, que indica qual a
percentagem mínima da população que precisa ser vacinada para conter a
epidemia. No caso da covid-19, um índice de 50% bastaria desde que a cobertura
vacinal fosse de 100%.
Quanto
maior a eficácia da vacina, menor pode ser a proporção de vacinados. Se for
utilizada uma vacina com 90% de eficácia, por exemplo, um mínimo de 56% da
população vacinada seria suficiente.
“Fazendo
um raciocínio bem simplista: vacinar 10% da população com uma vacina com 100%
de eficácia é a mesma coisa de vacinar 20% da população com uma vacina com 50%
de eficácia”, esclarece o médico Marcio Bittencourt, professor da Faculdade
Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
“A
ideia é que [com uma vacina de eficácia mais baixa] vamos ter de vacinar mais
gente para ter uma proteção coletiva maior. Mas ainda assim, [a Coronavac] é
uma vacina que acrescenta bastante proteção”, considera. O desafio agora parece
ser encorajar a população a aderir à campanha de vacinação de forma maciça.
Entre
as vacinas já em uso contra a covid-19, a da Pfizer-Biontech apresentou
eficácia de 95%; a da Moderna, de 94,5%; e a da AstraZeneca-Oxford, de 70%. Nos
testes clínicos com a Coronavac realizados na Indonésia, foi anunciada uma
eficácia de 65,3%, com base em dados preliminares.
Gripe e tuberculose
Especialistas
apontam que as pessoas não questionam a eficácia de outras vacinas, ainda que
tenham índices também baixos. É o caso do imunizante contra a gripe. Ele é
feito com diferentes cepas do vírus influenza — inativado, fragmentado e
purificado. Como essas cepas variam rapidamente de ano para ano, a eficácia
também não é constante. Depende de cada atualização.
Todos
os anos a OMS promove consultas técnicas para eleger as recomendações das
amostras vacinais que devem compor os imunizantes antigripais, respeitando as
sazonalidades dos hemisférios Sul e Norte. Nas safras em que essa escolha é bem
acertada, os índices de eficácia chegam na casa dos 60% — mas muitas vezes o
imunizante não contem uma ou mais cepas que estão circulando no momento da
campanha vacinal. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças
(CDC) dos Estados Unidos, a média de eficácia desse imunizante entre 2009 e
2019 foi de 44%.
“É
uma vacina extremamente variável. Geralmente fica entre 40% e 60%, mas às vezes
até mais baixa”, comenta Bittencourt.
“É
importante frisar que a vacina contra a gripe, que em alguns momentos tem
eficácia até abaixo dos 50%, mesmo assim salva muitas vidas”, acrescenta a
biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.
“A
vacina contra a gripe é constituída por três a quatro sorotipos diferentes. E é
bastante frequente que um dos sorotipos tenha a eficácia de 35% a 40%, mas como
esse sorotipo na vacina é suficiente para reduzir a mortalidade da gripe, nós o
utilizamos”, explica o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e
ex-presidente da Anvisa.
Outra vacina que tem eficácia considerada baixa mas, a exemplo dos números da Coronavac anunciados, conta com o benefício de evitar a manifestação mais grave da doença, é a famosa BCG, utilizada contra tuberculose. Criada em 1921 pelos imunologistas Albert Calmette (1863-1933) e Camille Guérin (1872-1961), recebeu esse nome em alusão a ambos — a sigla significa bacilo Calmette Guérin. Sua eficácia é de 60%.
“Trata-se
de uma vacina muito antiga, feita com bactéria atenuada. É uma das vacinas que
protegem menos, mas, por outro lado, protege muito porque evita a doença
grave”, aponta o médico Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do
Instituto do Coração (Incor).
Vacinas
com eficácia alta
Por
outro lado, outras vacinas têm eficácia muito alta. As contra poliomelite, por
exemplo, chegam a 99% de proteção. A vacina contra HPV tem 98% de eficácia. O
imunizante contra catapora protege de 80% a 90% contra a infecção — e de 95% a
98% contra as formas graves. O contra hepatite B apresenta índices na casa dos
80%.
A
tríplice viral — caxumba, rubéola e sarampo — tem eficácia de 97%. No caso do
sarampo, contudo, a transmissão é um problema: uma pessoa doente pode infectar,
em média, outras 14. Por isso que, voltando ao teorema do limiar
epidemiológico, no caso dessa doença é preciso que pelo menos 92% da população
esteja vacinada para que não haja risco de epidemia.
“As
pessoas precisam entender que vacinas são uma estratégia enquanto sociedade.
Não se trata apenas de uma proteção individual”, afirma Fontes-Dutra. “Assim,
mesmo uma vacina com 50% de eficácia, se todo mundo se vacinar, já vai
conseguir, de alguma forma, reduzir os riscos [de transmissão].”
“A
grande maioria das vacinas que normalmente tomamos, como sarampo, difteria,
tétano, tem eficácia alta. Mas essas são doenças mais letais”, diz Vecina Neto.
“Doenças com probabilidade de matar mais baixa, como é o caso da gripe e agora
aqui também da covid-19, nós aceitamos que [a vacina] tenha uma eficácia menor.
[São doenças que] se disseminam muito e têm uma letalidade mais baixa.”
Os
números da Coronavac
A
chamada taxa de eficácia global — que no caso dos testes da Coronavac no Brasil
foi de 50,38% — indica a capacidade de uma vacina de proteger contra todos os
casos da doença, sejam leves, moderados ou graves.
A
cifra de 50,38% tem como base a análise das informações de 9.242 voluntários.
Destes, um grupo de 4.653 pessoas recebeu duas doses da Coronavac, e 4.599
receberam placebo. Entre todos os participantes, 252 foram infectados
posteriormente, sendo que 85 desses voluntários receberam a Coronavac, e o restante,
167, tomaram placebo. Ou seja, quem recebeu a Coronavac está 50,38% mais
protegido contra a doença, segundo o estudo.
“Sem
dúvida os níveis de proteção [global da Coronavac] apresentados foram
decepcionantes. Em todo caso, há uma eficácia de 78% em casos que necessitem de
atendimento médico, ou seja, já deixa a doença mais branda”, avalia Kalil, do
Incor.
Dados
divulgados pelo Butantan na semana passada haviam mostrado que a Coronavac tem
eficácia de 78% em casos leves de covid-19, em que os pacientes necessitaram de
atendimento médico, mas não a ponto de internação.
O
instituto também havia divulgado eficácia de 100% em casos graves e moderados,
protegendo assim contra mortes e complicações mais severas, embora esse índice
tenha sido calculado com base em apenas sete pacientes que desenvolveram esse
quadro da doença, todos do grupo que tomou placebo, e não a vacina. O número é
considerado pequeno para uma análise final, e mais casos deverão ser
analisados.
“Não
é a vacina que estávamos esperando. Mas já vamos conseguir diminuir a
circulação do vírus. É importante salientar isso: podemos tomar essa vacina
agora e outra [melhor] depois, futuramente”, diz Kalil.
Preocupação
com idosos
O
médico demonstra preocupação, contudo, com os idosos — justamente um dos grupos
mais afetados pela covid-19. De acordo com ele, é preciso ainda observar como
seus organismos irão reagir à vacina, porque “normalmente idosos respondem pior
a vacinas feitas com vírus inativados”.
Por
enquanto, foram testados para a Coronavac profissionais de saúde saudáveis com
idade de 18 anos ou mais. É comum, que inicialmente estudos de vacinas se
concentrem em adultos saudáveis para depois serem ampliados para outros grupos.
A
eficácia de um imunizante constatada em testes clínicos pode, portanto, não ser
a mesma da que virá a ser verificada na população em geral.
Fonte/Foto: ISTOÉ/AFP

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