POVOS YANOMAMI E YE'KWANA LANÇARAM CHOCOLATE COM CACAU NATIVO DA AMAZÔNIA
O lote produzido pelo chocolatier César de Mendes resulta da
primeira safra da Terra Indígena Yanomami (RR). O evento aconteceu em dezembro,
no Mercado de Pinheiros, em SP
O grito "Fora Garimpo!" que ecoa contra a invasão
de 20 mil garimpeiros na Terra Indígena Yanomami ganhou o reforço de um produto
único, capaz de mostrar em poucos gramas o valor inestimável da floresta em pé,
do território preservado e do conhecimento tradicional Yanomami e Ye'kwana.
O primeiro lote de Chocolate Yanomami, que foi apresentado ao
público no último sábado (14), no Mercado de Pinheiros, em São Paulo, é
produzido com cacau nativo beneficiado na comunidade Waikás e transformado em
1.000 barras de 50g pelo chocolatier César de Mendes, no Pará. Sua formulação
conta com 69% de cacau, 2% de manteiga de cacau e 29% de rapadura orgânica.
"As entidades da floresta desceram aqui na fábrica e
trouxeram um perfume que não tínhamos experimentado antes. É fora da
curva", brinca Mendes. "Ele é um chocolate com presença na boca. Tem
persistência prolongada e agradável, com doce equilibrado."
A ideia de produzir um chocolate partiu de lideranças
Ye'kwana, que buscavam gerar renda adicional para as comunidades e bater de
frente com a lógica destrutiva do garimpo, que assedia e ameaça as comunidades.
Os Ye'kwana se deram conta de que a floresta oferece outro “ouro”: o cacau
nativo. O fruto que dá origem ao chocolate é endêmico na área.
Em julho de 2018, teve lugar na comunidade Waikás uma oficina
promovida pela Associação Wanasseduume Ye’kwana, com apoio do Instituto
Socioambiental (ISA) e parceria do Instituto ATÁ, para que Mendes mostrasse aos
indígenas de diferentes comunidades as técnicas de colheita e processamento dos
frutos do cacau para produção da matéria-prima para chocolates finos.
Naquela oportunidade, algo histórico aconteceu: foi produzida
a primeira barra de chocolate da história da Terra Indígena Yanomami.
"Nós temos muitos conhecimentos da floresta. Fazemos
cestaria, artesanato e vimos que esse nosso conhecimento pode gerar renda para
as comunidades", explica Júlio Ye'kwana, liderança local que estará em São
Paulo para o lançamento de seu produto. "A gente estuda na cidade que o
chocolate é feito do cacau. E vimos que uma plantação de cacau seria uma
alternativa ao garimpo", diz ele sobre os próximos passos do projeto, como
o plantio de até 7 mil pés de cacau até 2021.
Para ele, o desenvolvimento do trabalho com o cacau é uma
maneira de mostrar ao mundo a realidade e o modo de vida das comunidades, além
de ser bom e saudável. "Nós temos riqueza na natureza e não no subsolo.
Temos riqueza aqui em cima e não precisa destruir. Em vez de destruir a gente
planta mais, sem deixar ferida na nossa terra. A natureza não vai ficar
irritada", diz Júlio.
A previsão é que um total de 1.142 pessoas, de cinco
comunidades, sejam beneficiadas pelo projeto do Chocolate Yanomami.
Segundo Júlio Ye'kwana, as comunidades estão animadas para
trabalhar com o cacau e acreditam que, como o chocolate, iniciativas para gerar
renda de forma sustentável são estratégicas para oferecer alternativas ao
garimpo, sobretudo para os indígenas mais jovens. Com a intenção do presidente
Jair Bolsonaro de liberar garimpo em terras indígenas – e de afirmar reiteradas
vezes seu interesse na Terra Indígena Yanomami – a relevância destas
iniciativas fica ainda maior para unir as comunidades e fortalecer a
resistência contra os invasores e inimigos.
Histórico de destruição
A Terra Indígena Yanomami (TIY) é a maior do Brasil com 9,6
milhões de hectares e nela vivem os povos Yanomami e Ye'kwana, com populações
de 25 mil pessoas e 700 pessoas, respectivamente, distribuídas em 321 aldeias.
Considerado como 'povo de recente contato', os Yanomami são o maior povo
indígena do planeta que mantém seu modo de vida tradicional. Constituem um
conjunto cultural e linguístico composto de, pelo menos, cinco subgrupos que
falam línguas diferentes de uma mesma família: Yanomam, Yanomami, Sanöma, Ninam
e Yanoamë.
O garimpo de ouro na Terra Indígena Yanomami é hoje a mais
grave ameaça aos Yanomami e Ye'kwana, configurando-se como a maior invasão de
garimpeiros desde a corrida do ouro nas décadas de 1980 e 1990, quando o
território yanomami foi tomado por 45 mil garimpeiros, levando a óbito 20% da
população yanomami. Hoje estima-se que o número de garimpeiros na TIY seja
superior a 20 mil pessoas, instalados ilegalmente em acampamentos que contam
com serviços permanentes de abastecimento e comunicação via satélite.
Um dos aspectos dramáticos da invasão garimpeira é que ela
atrai jovens indígenas em busca de renda em dinheiro para a aquisição dos bens
de consumo industrializados que foram se tornando necessidades correntes, de
roupas a celulares, passando por panelas e alimentos. Além de tirar pessoas da
cultura tradicional, a adesão ao garimpo acaba legitimando a ação dos
invasores.
Na região de Waikás, onde ocorreu a primeira oficina sobre
cacau nativo, um estudo feito pelo ISA, em parceria com a Fundação Oswaldo
Cruz, constatou que 92% das pessoas de uma comunidade apresentaram índices de
mercúrio superiores ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em um pedido desesperado por ajuda para combater o garimpo
ilegal em suas terras, que não para de crescer, o Fórum de Lideranças Yanomami
e Ye’kwana divulgou no dia 27 de novembro uma carta endereçada às principais
autoridades do Executivo e do Judiciário brasileiro. No documento, as
lideranças descrevem os diversos impactos da presença e atividade garimpeira na
Terra Indígena.
Festival pelos Povos da Floresta
O lançamento do Chocolate Yanomami faz parte do Festival
pelos Povos da Floresta, promovido pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a rede
Origens Brasil®. De 7 a 15 de dezembro, oito restaurantes apresentaram receitas
que dão visibilidade e colocam como protagonistas ingredientes de povos
indígenas, comunidades extrativistas e quilombolas.
Fonte/Foto: Portal Amazônia, com informações do Instituto
Socioambiental/Matheus Mendes


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