CRÔNICA | O ÍNDIO MORTO NA TERRA ARARIBOIA
- Por
Miriam Leitão
Um
amigo perdeu um amigo e me avisou que está doendo demais. O amigo do meu amigo
era índio e estava na Terra Indígena Arariboia. E foi atacado à noite por
invasores que queriam tirar madeira. Outro amigo me manda uma coluna que
escrevi no dia 21 de setembro avisando que naquela terra, exatamente naquela,
tinha havido um perigoso conflito. Narrei o confronto, no meio da noite,
felizmente sem mortes, mas disse que os índios estavam sozinhos. Ter avisado
não alivia. Aumenta a angústia, na verdade.
Vejo
nesse blog que na principal base dos índios isolados no Vale do Javari houve
invasão de caçadores armados. Índios isolados são grupos que recusam contato.
Desde os anos 1980 quando houve a redemocratização decidiu-se que se eles
querem ficar isolados, tudo o que cabe ao poder público é evitar que eles
corram riscos. De longe a Funai vigia. Pois foi exatamente essa base de
proteção étnica que foi atacada no Vale do Javari, Amazonas.
O
índio assassinado era guajajara e morava numa das terras indígenas do Maranhão.
Ele faz parte de grupos que estão se organizando em defesa das terras. Os guardiões
da floresta. O poder público deveria estar lá e não está. Eles vigiam, andam
pela mata, alertam que está havendo desmatamento. Antes isso levava os órgãos
públicos para o local. Atualmente pouca coisa acontece. Foi assim que Paulo
Paulino Guajajara morreu. No meio da noite, um ataque certeiro, um tiro
certeiro, numa luta desigual.
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| Foto: Sarah Shenker/Survival International |
O
Maranhão é um estado onde há poucos remanescentes da floresta amazônica. O que
há é, em geral, terra indígena. Caru, Awá Guajá, Alto Turiaçu, Pindaré e
Arariboia. Fora isso, só a reserva Gurupi, criada por Jânio Quadros. O que
significa que os indígenas prestam um serviço ao Maranhão e ao país. Na T.I.
Arariboia houve em 2015/2016 um grande incêndio. Foi debelado, mas destruiu
parte grande da mata. Ela ficou ainda mais preciosa. Outro dia entrevistei o
governador do Maranhão e projetei no telão as terras indígenas do Estado
mostrando que ali, na Arariboia, havia ocorrido na semana anterior um perigoso
confronto entre índios guajajara e invasores madeireiros. E que mais acima os
Ka’apor estavam também pedindo socorro. Ele nada pode fazer. Terra indígena é
federal. Quem tem que entrar e fiscalizar, proteger, preservar são órgãos
federais.
E
onde eles estão? Os servidores querem trabalhar. Mas a Funai ficou à deriva na
Esplanada dos Ministérios. Foi dividida e transferida de Ministério. Depois o
Congresso reunificou e levou de volta para o Ministério da Justiça. O ministro,
que eu me lembre, não demonstrou até agora nenhum interesse na questão
indígena. Outro dia teve uma operação nas terras lá do Maranhão que deveria
durar 30 dias, mas acabou no quarto dia. Faltaram recursos. É assim que o país
vai plantando uma tragédia. A repetição de uma velha tragédia.
Ano
passado eu estava num lançamento de livro infantil e apareceu um jovem
pré-adolescente que me disse: “minha mãe trabalha na Funai”. Ele disse aquilo
com tanto orgulho que me impressionou. Fiquei imaginando aquela mãe do qual o
filho se orgulha. Sem conhecê-la penso nela. Deve passar os dias em alguma mesa
da Funai tentando trabalhar.
Na
coluna em que narrei o aumento da tensão na Terra Arariboia, eu terminei
avisando: “Os índios estão por sua conta e vão tentando defender a si mesmos e
a floresta”. Pois é. Meu amigo avisou que a morte do amigo está doendo muito e
eu não sei o que dizer a ele.
*
Miriam Leitão é jornalista e escritora. Escreve crônicas aos sábados como
colaboradora do blog do Matheus Leitão


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