ARTIGO DEDOMINGO | CORO DE TRAGÉDIA


*Por Lúcio Flávio Pinto

Jair Bolsonaro reagiu como pai e não como presidente da república à afirmativa do caçula de 35 anos, o deputado federal Eduardo, que ameaçou a radicalização da esquerda, na avaliação dele, com um novo AI-5. Disse que o filho está sonhando. Não sonha, não: está delirando num pesadelo.
Argumentou que o AI-5 surgiu (no final de 1968) sob uma constituição completamente diferente do atual. É verdade. Mesmo a constituição talhada pelos militares em 1967, depois do golpe, era muito melhor do que a carta desnaturada pela emenda de 1969, que refletiu o criador, o monstrengo Ato Institucional de sexta-feira, dia 13 (de dezembro), data aziaga.
Se o presidente foi sincero na sua avaliação, ou precisa impor o solilóquio aos três filhos políticos ou se trata de um coro de três vozes, afinadas pelo regente, que lhes submete variações em torno do mesmo tema. Cada um canta de um jeito, mas começam com a mesma partitura e terminam de volta a ela. É a aposta no tumulto, na provocação aos quarteis, numa solução de força.
Nada sugere que haverá o gran finale que planejam.


*Lúcio Flávio Pinto é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.

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