TESE PREMIADA | FLORESTA AMAZÔNICA FOI 'DOMESTICADA', APONTA PESQUISA
Pesquisa vencedora do
Prêmio Capes mostra que a vegetação foi manejada há milênios por povos
indígenas
Doutora em Ecologia pelo
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), em agosto a bióloga
Carolina Levis conquistou o Prêmio Capes de Teses (2019) com a tese
“Domesticação das Florestas Amazônicas”, que trouxe evidências de que a
Amazônia possui florestas domesticadas pelos povos indígenas há pelo menos 13
mil anos. A tese foi defendida em 2018.
Durante o desenvolvimento
da pesquisa, Carolina Levis conta que buscou entender a influência das
sociedades humanas passadas nas florestas amazônicas atuais, um tema ainda
pouco explorado nos estudos ecológicos, mas de alta relevância para o
planejamento de ações futuras de conservação e manejo dos patrimônios naturais
ainda abundantes na região amazônica.
“Evidenciamos efeitos
persistentes dos povos indígenas anteriores à conquista europeia na composição
florística das florestas amazônicas atuais, especialmente em áreas próximas aos
sítios arqueológicos. Também descremos múltiplas práticas de manejo locais que
levaram a criação e manutenção de florestas com alta concentração de árvores e
palmeiras muito importantes para a dieta local (como o açaí e a castanha). Uma
parte da flora amazônica pode ser considerada a herança viva de seus antigos habitantes”,
disse.
Embora o conceito de
sustentabilidade seja muito recente, uma das constatações da tese defendia por
Carolina Levis evidencia que, durantes milênios, os povos indígenas da Amazônia
desenvolveram técnicas sofisticadas de uso da terra e manejo da floresta que
possibilitaram a sua expansão populacional sem causar desmatamento em larga
escala.
“As sociedades indígenas
pré-coloniais (antes da chegada dos europeus) domesticaram uma grande
diversidade de plantas e paisagens, manejaram o fogo para diversas finalidades,
inclusive para criar os solos mais férteis encontrados na região, que são as
‘terras pretas de índio’. Esses solos conhecidos por serem as antigas lixeiras
indígenas, além de serem muito férteis, são extremante estáveis”, disse, ressaltando
que os conhecimentos indígenas milenares podem ser valiosos para frear o
esgotamento dos recursos naturais e as alterações sem precedentes no clima do
planeta.
Natural do Rio de Janeiro,
a bióloga veio para Manaus em 2010 para fazer o mestrado no Inpa. Durante o
doutorado, ela foi orientada pelos pesquisadores Flávia Costa e Charles
Clement, e na Holanda pelos pesquisadores Frans Bongers e Marielos Peña-Claros,
da Wageningen University & Research. Em março desse ano ela começou o
pós-doutorado em Ecologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
“Continuo estudando o
efeito humano de longa duração nas paisagens florestais da América do Sul.
Fiquei muito emocionada com o prêmio, pois me fez refletir sobre a importância
das instituições públicas de ensino e pesquisa neste país que me formaram e
possibilitaram o pleno desenvolvimento da minha pesquisa. Infelizmente vejo com
grande preocupação o futuro do ensino superior e da ciência no Brasil. O futuro
da Amazônia, grande motivação da minha pesquisa, também depende deste
investimento. Suas imensuráveis riquezas presentes em seus solos, florestas,
rios e povos precisam ser urgentemente reconhecidos e valorizados antes que
desapareçam”, disse a pesquisadora.
A Amazônia tem uma
importância global pelos serviços que presta para o mundo, como a regulação
climática e os valores culturais indígenas. Por isso, os investimentos para
manter o funcionamento da floresta em pé e para o desenvolvimento de ciência e
tecnologia que possibilitem o uso sustentável da biodiversidade conjuntamente
com o conhecimento local precisam vir de diversas fontes nacionais e
internacionais.
O investimento mundial na
Amazônia não ameaça a soberania nacional, como o governo atual prega inconsequentemente,
a Amazônia Brasileira continua sendo nossa. Mas precisamos estar cientes de
que, por abrigarmos a maior parte da Amazônia, deveríamos também ter a
responsabilidade de cuidá-la para garantir o futuro climático do planeta.
Fonte/Foto: Luiz G. Melo – A Crítica Manaus/Acervo pessoal


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