PUBLICAÇÃO BARÉ | LIVRO SOBRE VERBETES RIBEIRINHOS DO AMAZONAS CONCORRE A PRÊMIO NACIONAL
A obra ‘Fala Beiradão’
reúne expressões usadas em diferentes comunidades ribeirinhas do Amazonas
Nas comunidades próximas
ao rio Mariepaua, situadas no município de Novo Aripuanã, a água que surge da
terra após o período da seca é chamada de xororo. Paxiba!, diria algum indivíduo
bem-humorado da comunidade indígena Kambeba, na zona ribeirinha de Manaus, caso
observasse o fenômeno – a expressão é equivalente ao popular “tá legal”.
Trata-se de exemplos da
linguagem típica das populações tradicionais do Amazonas, reunidos no livro
“Fala Beiradão: registro e valorização da linguagem ribeirinha do Amazonas”,
organizado pelo biólogo e arte-educador Emerson Munduruku. O lançamento oficial
do volume deve ocorrer após o resultado do Prêmio Rodrigo 2019, ao qual o
projeto concorre. Promovida pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan), é considerada a maior premiação do setor no Brasil. O
resultado deve ser divulgado no dia 5 de setembro.
A ideia do “Fala Beiradão”
surgiu quando Emerson ministrava oficinas do projeto Inceturita, do qual é
coordenador e que integra o Programa de Educação e Saúde (PES) da Fundação
Amazonas Sustentável (FAS), realizadas semanalmente com jovens de 40 comunidades.
Durante os encontros, ele começou a notar uma pluralidade linguística, cujos
elementos, ao mesmo tempo, se constituíam como específicos de cada localidade.
“As comunidades são
lugares que têm formas de linguagem diferentes entre si e da cidade”, observa.
“Decidimos olhar para a riqueza desses espaços”. A partir de então, Emerson
propôs aos alunos uma investigação sobre o significado dos termos que revelam a
identidade e os processos de cada população.
“É um barato quando eles
se questionam sobre esses termos, até então restritos à fala. Também
incentivamos que os jovens fizessem o registro dessas palavras e como elas são
aplicadas no dia a dia”, acrescentou. Em março do ano passado, Emerson iniciou
o trabalho de pesquisa desse vocabulário. Da colaboração de 150 autores – os
próprios alunos – resultou o dicionário com 180 páginas e sessenta verbetes.
Posteriormente, foram acrescidas à obra informações de cada Unidade de
Conservação (UC), além de cenários, imagens e mapas detalhando o local de
origem das palavras.
Na opinião do organizador,
o dicionário pode ser considerado um complemento ao “Amazonês: expressões e
termos usados no Amazonas”, compilação feita pelo professor Sérgio Freire, da
Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “É o primeiro livro protagonizado por
jovens ribeirinhos”, sintetiza o organizador, referindo-se ao fruto da parceria
com seus aprendizes.
Ideia do dicionário
surgiu durante trabalhos no ‘Inceturita’
O Projeto Inceturita
(abreviação de “Incentivo à Leitura e Escrita”) é uma das iniciativas
desenvolvidas no Programa de Educação e Saúde (PES). Criado em 2012 pela
Fundação Amazonas Sustentável (FAS), o programa implementa um conjunto de
projetos para promover o acesso à educação de qualidade, formação
profissionalizante e atenção básica de saúde nas Unidades de Conservação (UC)
onde atua.
O programa tem apoio da
Samsung do Brasil e Bradesco, e todas as ações estão alinhadas com os Objetivos
do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU) relacionados à
erradicação da fome, saúde de qualidade, educação de qualidade, água limpa e
saneamento, inovação e infraestrutura, redução das desigualdades, vida sobre a
terra e parceria pelas metas. A Fundação Amazonas Sustentável atua em dezesseis
Unidades de Conservação (UCs) do Estado.
Estreitar o contato
Emerson considera a
pesquisa uma tentativa de estreitar o contato da metrópole com a cultura nativa
e promover questionamentos sobre a preservação da floresta. “Manaus conhece
muito pouco o interior. A população tende a ficar na cidade, e essas linguagens
e histórias acabam passando batidas”.
Fonte/Foto: Daniel Amorim – A Crítica Manaus/Bruno Kelly - FAS


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