EQUIPE DO IBAMA É ALVO DE TIROS EM OPERAÇÃO PERTO DE ÁREA INDÍGENA NO PARÁ
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| Policiais federais atiram em suspeitos de garimpo durante operação conjunta com o Ibama em Altamira, ontem, sexta-feira, 30 de agosto. |
Uma equipe de fiscalização do Ibama foi alvo
de tiros por parte de garimpeiros durante operação de fiscalização na
sexta-feira, perto da Terra Indígena Ituna/Itatá, em Altamira, no Pará, e homens
da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança Pública, que davam apoio à
operação, revidaram.
Ninguém ficou ferido na troca de tiros, e os
garimpeiros, que se esconderam na mata com a chegada dos fiscais, não foram
presos. Os agentes do Ibama destruíram duas retroescavadeiras e três motores
usados no garimpo, de acordo com Hugo Loss, coordenador do Ibama responsável
pela operação, acompanhada por uma equipe da Reuters.
"Eles (garimpeiros) se esconderam no
mato e dispararam contra a equipe", disse Loss à Reuters por telefone,
acrescentando que o desmatamento tem aumentado significativamente na região,
especialmente nessa reserva indígena que, de acordo com o coordenador, teve 10%
de sua área desmatada somente neste ano.
Loss afirmou que um aumento expressivo da
grilagem de terras na área indígena impulsionou a alta de desmatamento na
reserva Ituna/Itatá que, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), é
destinada a índios isolados, engloba os municípios de Altamira, Anapu e Senador
José Porfírio e ocupa uma área de 142.402 hectares.
De acordo com Loss, a demarcação dessa área
foi uma das condicionantes para permitir a construção da usina hidrelétrica de
Belo Monte. A reserva é de restrição de uso, o que significa que nenhuma
atividade pode ser desenvolvida na região, e a demarcação visa proteger índios
isolados, cujos sinais de presença foram detectados durante a construção da
usina.
O garimpo, alvo da operação com troca de
tiros nesta sexta, fica a cerca de 50 quilômetros da área indígena, disse o
coordenador do Ibama.
"Essa demarcação da terra (Ituna/Itatá)
é feita com base em um decreto presidencial. Com a alteração toda que houve na
orientação da política ambiental, criou-se uma expectativa de regularização, de
desregulamentação dessa terra, de desfazimento desse decreto", disse Loss.
"Então a grilagem aumentou muito forte
lá dentro dessa expectativa. Isso causou o aumento drástico do desmatamento
naquela área."
O presidente Jair Bolsonaro, que vem
sofrendo pressão internacional por causa do aumento do desmatamento e das
queimadas na Amazônia, é crítico ferrenho da demarcação de terras indígenas.
Segundo ele, as demarcações visam "inviabilizar" o Brasil.
Bolsonaro, que já disse várias vezes que não
assinará a demarcação de nenhuma nova área indígena em seu governo, defendeu na
manhã de sexta-feira a revisão das demarcações já feitas, apontando suspeitas
de fraudes, sem dar detalhes.
APOIO POLICIAL
Com a pressão internacional sobre o governo
brasileiro por causa da Amazônia, Bolsonaro editou um decreto de garantia da
lei e da ordem para que militares das Forças Armadas ajudem no combate às
queimadas na floresta. O governo também enviou a Força Nacional de Segurança Pública
para auxiliar no combate ao desmatamento.
Loss disse que, com essas duas medidas, as
equipes de fiscalização do Ibama voltaram a ter condições de realizar operações
no Pará. De acordo com o coordenador do Ibama, a Polícia Militar do Estado não
vinha oferecendo apoio às equipes.
"Desde maio, a gente não tem apoio da
Polícia Militar do Estado do Pará", disse Loss.
"Somente agora que o desmatamento e o
fogo foram realmente reconhecidos como alarmantes, é que houve o decreto da
GLO, e com isso a gente conseguiu condições para poder operar aqui nesta
área", afirmou. "Nesta área a gente tinha operações programadas em
junho e julho, mas a gente não conseguiu executar as operações nesta área em
que a gente está hoje por falta de apoio."
Segundo o coordenador do Ibama, as
autoridades paraenses alegavam que era necessário um acordo de cooperação
técnica com o Ibama, que não foi assinado, para fornecer apoio às equipes.
"Mas esse acordo nunca foi necessário
anteriormente. Os termos do acordo não evoluíram na negociação e assim a coisa
foi ficando travada", disse Loss.
Procurada, a Secretaria de Estado de
Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) negou, por meio da assessoria
de imprensa, que a PM paraense tenha deixado de dar apoio às equipes de
fiscalização do Ibama.
O órgão disse que, desde o início do ano, tem
buscado fechar um termo de cooperação com o Ibama para dar respaldo jurídico
aos policiais que dão apoio às operações, e que acordos deste tipo foram
fechados com outros órgãos federais, como a Funai e o ICMBio. A secretaria
ressalvou, no entanto, que a falta do termo não impediu a PM de dar apoio ao
Ibama.
De acordo com nota da secretaria, nos dias
21 e 25 deste mês, as polícias civil e militar do Pará participaram, junto a
outros órgãos como o Ibama, de operações que resultaram na apreensão de madeira,
equipamentos usados no desmatamento, armas de fogo e na destruição de
acampamentos clandestinos.
Documentos obtidos pela Reuters nesta semana
mostraram que o Ibama alegou ao Ministério Público Federal (MPF) que não teve o
respaldo necessário da Polícia Militar do Pará para evitar a realização no dia
10 de agosto do chamado "dia do fogo", quando foi registrado, segundo
dados oficiais, um aumento no número de focos de incêndio no sudoeste paraense.
Na ocasião, a Segup disse em nota que
mantinha o apoio às equipes de fiscalização e que "somente nos sete
primeiros meses de 2019, mais de 70 fiscalizações foram deflagradas com a
integração entre as instituições, o que será massificado durante o segundo
semestre deste ano".
Em entrevista à Reuters nesta semana, o
procurador da República, Ricardo Negrini, disse que os danos ambientais gerados
pelo "dia do fogo" poderiam ter sido parcialmente evitados com um
suporte policial para a ação que o Ibama pretendia fazer antes do ato.
O procurador disse ainda que, a despeito do
suporte ou não da polícia nesse tipo de ação, os efetivos para operações de
fiscalização de meio ambiente tanto no âmbito estadual como federal são
insuficientes.
Fonte/Foto: Pablo Garcia e Eduardo
Simões – Terra/Reuters


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