ALERTA | ‘UMA DOR ALÉM DO CORPO’, DIZ JOVEM INDÍGENA VÍTIMA DE ESCALPELAMENTO NO PARÁ
Adriana Fernandes, de 19 anos, perdeu
parcialmente o couro cabeludo em setembro de 2018 e ainda sofre com as
consequências do trauma
Quase um ano após o acidente que
mudou os planos e causou sequelas gravíssimas no corpo e na alma, a jovem
indígena Adriana Fernandes, de 19 anos, volta aos poucos à rotina na comunidade
Mariazinha, na região de Cachoeira do Aruã, no rio Arapiuns, a 100 km de
Santarém, no oeste do Pará. A jovem foi a primeira vítima de escalpelamento
após cinco anos sem registro de casos na região.
Sonhadora e confiante, Adriana ficou
três meses afastada da família para receber tratamento, os estudos foram
adaptados dentro do hospital, mas agora essa fase faz parte do passado.
“Eu já estou boa, mas acabei perdendo
totalmente 20% do cabelo. A dor que isso causa vai além do corpo, é uma dor na
alma”, disse.
O acidente aconteceu em setembro de
2018, de forma rápida e trágica. Adriana e a mãe seguiam em uma bajara
(embarcação de pequeno porte e motorizada) do sítio da família até a escola da
jovem, quando Adriana, que estava penteando os cabelos, tropeçou em uma tábua e
caiu. Os cabelos foram puxados pelo eixo do motor. A mãe da jovem que
desprendeu os cabelos da filha.
Depois a mãe buscou ajuda na
comunidade onde a família mora. Em seguida, se deslocaram até a comunidade
Cachoeira do Aruã, onde conseguiram a transferência de helicóptero para
Santarém.
Adriana ainda ficou uma semana no
Hospital Municipal de Santarém (HMS) e foi transferida para a Fundação Santa
Casa de Misericórdia, em Belém, onde passou três meses.
Adaptação de estudos e companhia da
mãe
Para não perder aulas, Adriana contou
ao G1 que precisou adaptar os estudos ao leito e a nova realidade de
acompanhamento para lidar com as sequelas do escalpelamento.
Desde o acidente a dona de casa e mãe
de Adriana nunca a deixou sozinha. Até hoje Marcilene Fernandes é o braço
direito da filha, assim como os irmãos.
“Foi um pouco difícil para mim,
porque eu nunca passei por uma situação dessas. Eu fiquei do lado dela desde o
início. Foi um trauma para toda família. Ficou a cicatriz grande na cabeça e
tivemos que andar muito para Deus dar a saúde da minha filha”, contou
Marcilene.
A jovem ainda sente dores de cabeça e
dificuldade para ler. Os problemas apareceram depois do escalpelamento.
O tempo passa e os cabelos crescem.
Para esconder a cicatriz, a jovem indígena usa os cabelos soltos e a encobre.
Prevenção
Depois que a jovem indígena voltou
para a comunidade, os moradores passaram a ter mais consciência sobre os riscos
que a não cobertura do eixo do moto pode acarretar à vida de uma pessoa.
Os comunitários, assim como a mãe de
Adriana, foram até a cidade colocar as proteções de eixo e evitar novos
acidentes. A cobertura do eixo é disponibilizada gratuitamente pela Capitania
Fluvial de Santarém.
“Esse acidente foi o primeiro da
minha comunidade, depois dela o pessoal se juntou para que não acontecesse
mais. Eu aconselho as meninas prenderem o cabelo para não acontecer isso, e
também os pais devem colocar a proteção”, disse Adriana.
O QUE É O ESCALPELAMENTO
O escalpelamento é um acidente mais
comum no Norte, sendo provocado pelo eixo do motor das pequenas embarcações.
Por conta da falta de proteção, as vítimas, em sua maioria mulheres, ao se
aproximarem do motor, têm os cabelos puxados.
A forte rotação enrola os cabelos em
torno do eixo e chega a arrancar parte ou totalmente o coro cabeludo. Em alguns
casos, as vítimas sofrem danos graves e chegam a perder as orelhas e a pele do
rosto, causando deformações e até a morte.
Fonte/Foto: Geovani Brito – G1 Santarém-PA


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