OPINIÃO | "HÁ GENTE PASSANDO FOME AQUI NAS COMUNIDADES GUARANI E KAIOWÁ”

Indígenas em acampamentos na beira da estrada têm sido vítimas de atropelamentos no MS


- Por Leonardo Sakamoto (*)

Continua criança indo para cama passando fome. Posso mandar provas, fotos, entrevistas de famílias que não recebem programas do governo e passam fome se alguém duvidar."
A afirmação é de Elizeu Pereira Lopes, representante da aldeia Kurusu Ambá no conselho Aty Guasu (Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, principal organização social e política desse povo), na Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e do Conselho Continental da Nação Guarani, que reúne representantes de quatro países.
O presidente Jair Bolsonaro afirmou que "falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira" em café da manhã com correspondentes internacionais, nesta sexta (19). "Passa-se mal, não come bem Aí eu concordo. Agora, passar fome, não." De acordo com ele, "você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo".
Mais tarde, ele se corrigiu. "Falei que o brasileiro come mal, alguns passam fome". E disse que isso "é inaceitável em um país rico como o nosso, com terras agricultáveis, água em abundância". O que ele não relacionou, contudo, é que é exatamente a desigualdade no acesso à terra e à água que contribui para a persistência da fome. Um dos principais exemplos é a falta de demarcação de terras para a população indígena no Mato Grosso do Sul - demarcação que ele já disse que não vai fazer.
"Se nós tivéssemos terra e a liberdade de buscar o sustento de nossa própria terra, a gente não dependeria de programas de governo. O principal problema é que a terra não está sendo demarcada e estamos sendo impedidos de plantar nas retomadas [ocupações de territórios tradicionais]. Enquanto isso, há gente usufruindo das nossas terras, lucrando com as nossas terras, destruindo mata, destruindo rio, usando veneno para plantar soja", explica Elizeu.
A Fian Brasil, em parceria com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), realizou uma pesquisa para medir a insegurança alimentar e nutricional em três comunidades Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul - Guaiviry, Apyka’i e Kurusu Ambá. As três são palco de disputas por territórios tradicionais e tiveram lideranças assassinadas. Os dados foram divulgados, em 2016, no relatório "O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do povo Guarani e Kaiowá", divulgado em 2016.
Nas comunidades indígenas avaliadas, 28% dos domicílios contavam com pessoas com menos de 18 anos encontradas em insegurança alimentar grave. Em 76% dos domicílios da pesquisa, a pessoa entrevistada afirmou que, no mês anterior, houve ocasião em que crianças e jovens da casa passaram um dia todo sem comer e foram dormir com fome, porque não havia alimento.

- Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de <amazôni@contece>




(*) Leonardo Moretti Sakamoto é um jornalista brasileiro. Além da graduação em jornalismo, possui mestrado e doutorado em ciência política pela USP. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão e retratou problemas sociais em reportagens realizadas por todo o país.

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