DESMATAMENTO AVANÇA NA AMAZÔNIA, QUE PERDE 19 HECTARES DE FLORESTAS/HORA
Trata-se
do maior valor mensal para maio em uma década; esse volume, de apenas 15 dias,
está próximo da soma dos nove meses anteriores, entre agosto de 2018 e abril de
2019. Mas o nº de multas aplicadas pelo Ibama caiu 35% desde janeiro
BRASÍLIA - Em 2018, o País registrou os
maiores números de desmatamento na Região Amazônica de toda a história. Desde
agosto, a devastação ilegal continua e atinge, em média, 52 hectares da
Amazônia/dia. O novo problema é que os dados mais recentes, dos primeiros 15
dias de maio, são os piores no mês em uma década - 19 hectares/h, em média, o
dobro do registrado no mesmo período de 2018.
Foram perdidos oficialmente em uma quinzena
6.880 hectares de floresta preservada na Região Amazônica, o mesmo que quase 7
mil campos de futebol. Esse volume ainda está próximo do desmatamento
registrado na soma de todos os nove meses anteriores, entre agosto de 2018 e
abril de 2019, que chegou a 8.200 hectares.
Os dados foram levados ao governo, que os
confirmou. O Estado teve acesso a informações atualizadas do Sistema de
Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), ferramenta do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fiscaliza ações de
desmatamento. Os números se referem à devastação registrada nas unidades de
conservação, florestas protegidas que são administradas e fiscalizadas por
órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio). Uma
das regiões mais devastadas é a Floresta do Jamanxim, alvo histórico de saques
de madeira a partir da BR-163, que perdeu nada menos que 3.100 hectares.
Normalmente, as medições oficiais são feitas
de agosto até julho do ano seguinte. No período encerrado em julho de 2018, a
região registrou 20.200 hectares de desmatamento, um recorde histórico. No
atual ciclo, aberto em agosto e já considerando os números até 15 de maio, o
acumulado hoje chega a 15 mil hectares - e pode alcançar um novo recorde.
Questionado, o ministro do Meio Ambiente
(MMA), Ricardo Salles, disse que a responsabilidade pela curva crescente do
desmatamento é de governos anteriores. “Ainda não deu tempo de implementarmos
nossas políticas”, disse. Já Ibama e ICMBio não responderam aos questionamentos.
Técnicos do governo observam que o grande
volume de desmatamento em duas semanas pode estar ligado à meteorologia. É que
março e abril são de muita chuva e a maior incidência de nuvens dificulta o uso
de satélites. Com o fim das chuvas, o céu se abre e a área captada cresce. As
taxas da devastação, porém, confirmam os técnicos, referem-se exclusivamente ao
desmatamento efetivado neste ano. E a questão climática vale para os anos
anteriores, que registraram números menores.
Multas
As fiscalizações em campo feitas por agentes
do Ibama e ICMbio na região continuam em andamento, mas os dados obtidos pelo
Estado mostram que o número de multas diminuiu. Entre 1.º de janeiro e 15 de
maio deste ano, o Ibama emitiu 850 multas, 35% menos do que no mesmo período do
ano passado, quando foram 1.290. No ICMBio, entre 1.º janeiro e 15 maio, seus
agentes emitiram 317 multas na região, praticamente metade do aplicado no mesmo
intervalo de 2018.
O MMA não comenta a redução. Já o presidente
Jair Bolsonaro tem criticado regularmente o que chama de “indústria das
multas”. Em janeiro, o MMA acabou com o Departamento de Florestas e Combate ao
Desmatamento, que funcionava dentro da pasta desde 2007. O órgão tinha 15
servidores e estava ligado à Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas. Com o
fim dessa secretaria, os funcionários foram realocados. O MMA também não
comentou a situação.
Crítica
A justificativa do ministro Ricardo Salles
para os dados oficiais de desmatamento foi rebatida por seu antecessor no MMA.
“Não há surpresa nessas informações. Há tristeza. Quando um governo resolve
desmoralizar os agentes do Ibama, desmontar o ICMBio e acabar com as unidades
de conservação, ele só está dando o sinal verde para o desmatamento”, disse
Sarney Filho, hoje secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal. “Como
diminuir os índices, se os instrumentos criados para combater esses crimes
estão sendo desmontados pelo discurso e pela ação concreta do governo?”
ICMBio tem ‘fila’ de multas para cobrar
No Instituto Chico Mendes de Biodiversidade
(ICMBio), a cobrança das multas que já tramitaram pela área técnica,
administrativa e já receberam justificativas dos autuados está parada. O Estado
apurou que 354 autos de infração emitidos por agentes do ICMBio estão prontos
para serem homologados pelo presidente do órgão, para que sejam cobrados.
Neste ano, a chefia do órgão não homologou
nenhuma multa - como determina o regimento interno. As cobranças prontas para
serem aplicadas somam a quantia de R$ 146,2 milhões que o ICMbio poderia
receber. O ICMBio foi procurado, mas não comentou o assunto.
O Ministério do Meio Ambiente (MMA) também foi
questionado pelo Estado sobre as motivações da paralisação nas cobranças, mas
não se manifestou. O ministro do MMA, Ricardo Salles, tem trocado todos os
cargos de liderança do ICMBio desde que assumiu - nomeando militares.
O presidente Jair Bolsonaro, que foi multado
em 2012 pelo Ibama quando pescava numa área proibida de proteção integral em
Angra dos Reis (RJ), alterou no mês passado um decreto - de 2008 - que dispunha
sobre crimes ambientais. A mudança cria “núcleos de conciliação” para discutir
as multas ambientais aplicadas pelos órgãos, além de modificar o programa de
conversão de multas em projetos de restauração florestal, que vinha sendo
realizado pelo Ibama.
Ao justificar a mudança, o governo argumentou
que “a conciliação deve ser estimulada pela administração pública federal
ambiental (…) com vistas a encerrar os processos administrativos federais
relativos à apuração de infrações administrativas por condutas e atividades
lesivas ao meio ambiente”. Pela regra, quando o autuado for notificado, será
chamado a uma audiência de conciliação, já com dia e horário marcados, caso
queira.
Fonte:
André Borges, O Estado de S.Paulo


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