ARTIGO DEDOMINGO: “ALEIJADOS”


- por Lúcio Flávio Pinto (*)

O filósofo Miguel de Unamuno, autor de O sentimento trágico da vida, uma das grandes contribuições espanholas à filosofia, era reitor da Universidade de Salamanca, uma das mais antigas do mundo, quando as tropas do general Francisco Franco tomaram a cidade, nos combates da guerra civil, em 1936. No dia da raça, o general Milan Astray, que fundou com Franco a Legião Estrangeira, fez um discurso de combate à inteligência e de saudação à morte.
Na peça Liberdade, Liberdade,  que estreou no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1965, um ano depois do golpe militar, Flávio Rangel e Millôr Fernandes reconstituíram o que se seguiu, numa cena recriada a partir do célebre livro de Hugh Thomas, A guerra civil espanhola.
Senhores! Meu nome é Miguel de Unamuno. Todos me conhecem. Sabeis que sou incapaz de me calar. Há momentos em que calar é mentir. Desejo comentar o discurso – se é possível empregar esse termo – do general Milan Astray, aqui presente. Acabei de ouvir um brado necrófilo e insensato: “viva a morte”. E eu que passei minha vida dando forma a paradoxos, devo declarar-vos, aos setenta e dois anos, que um tal paradoxo me é repulsivo. O general Milan Astray é um aleijado. Não há nesta afirmativa o menor sentido pejorativo.
Ele é um inválido de guerra. Cervantes também o era. Infelizmente há na Espanha neste momento um número muito grande de aleijados e em breve haverá um número muito maior, se Deus não vier em nosso auxílio. Causa-me dó pensar que o general Milan Astray esteja formando a psicologia de massa. Um aleijado destituído da grandeza espiritual de um Cervantes tende a procurar alívio causando mutilações em torno de si.
Este é o templo da inteligência! E eu sou seu sacerdote mais alto. Profanais esse sagrado recinto. Ganhareis porque tendes a força bruta. Mas não convencereis. Porque para convencer é necessário possuir o que vos falta: razão e direito em vossa luta. Considero inútil exortar-vos a pensar na Espanha. Tenho dito.
Unamuno foi preso e morreu dois meses e meio depois.

(*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.


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