ARTIGO DEDOMINGO: O TRIBUNAL DOS LEWANDOWSKIS, TOFFOLIS E GILMARES
- por Lúcio
Flávio Pinto (*)
Reproduzo comentário de
Alcides Alcântara, publicado na seção de cartas.
Da antiga Casa de
Suplicação, do anterior Supremo Tribunal de Justiça Imperial, nunca se viu nada
parecido com a atual composição do Supremo Tribunal Federal, provavelmente a
pior de todos os tempos. A cada dia o tribunal se excede em bizarrices que,
claro, para os que querem ver, algumas delas com favores de destino certo
Há bandas: uma, impotente,
sempre vencida, a outra, capaz de tudo. Não sei por quais diabos ainda não
removeram o profanado busto de Ruy daquele local.
Toffoli, do alto de sua
autoridade de quem foi reprovado em dois concursos para juiz de direito,
instaura inquérito para investigar qualquer um, do presidente da República ao
camelô que faz ponto no terminal rodoviário de Belém, que, a juízo do
constitucionalista Moraes, diga, por exemplo, que o tribunal toma decisões
excêntricas ou que Gilmar precise fazer uma redução labial.
O Supremo concedeu-se,
assim e pelo visto, o poder de investigar, denunciar, julgar e sentenciar os
que o desagradam (será isso?). Esse disparate não se viu nem no Tribunal de
Segurança Nacional ( projeto de criação encaminhado por Deodoro de Mendonça) da
famigerada “Era Vargas”. Naquele templo de desgraças (Sobral Pinto soube como
poucos), não se dispensava a figura do promotor de justiça.
Nesse pandemônio que foi a
“histórica” sessão do dia 14, Gilmar, que como sempre não desaponta os seus,
destilou rios de impropérios contra membros do Ministério Público – sob o olhar
tímido e acovardado da Procuradora Geral – quiça abalado pelo teor da petição do
respeitável jurista (quero ver quem vai processá-lo) Modesto Carvalhosa que,
junto ao Senado, lhe pede o impeachment. São 150 páginas de vigorosas
acusações. capazes de enrubescer dedicados estudantes de direito, congregados
marianos ou moças desenvoltas de labor desconhecido dos pais.
A sessão prossegue e
termina com a intervenção do decano que, com o seu usual gongorismo, desfia
intermináveis platitudes. Cada voto seu é um “Guerra e Paz” particular. Mas
acho que no futuro será mais lembrado pelo sinete que lhe pespegou Saulo Ramos,
figura da qual não consigo dissociá-lo, do que pelos votos rançosos de dimensão
tolstoianas que profere.
E o Senado, onde está o
Senado? Enquanto alguns senadores manifestam justa indignação pelos desatinos
da corte, o seu lépido presidente comparece a convescotes promovidos pelo
presidente da Câmara (naturalmente pagamos isso) que juntamente com Bolsonaro e
Toffoli procurarão “selar um pacto”não sei de quê (sei sim, entre coisas claras
e obscuras, evitar a tal CPI da toga). Esse pacto” é figura recorrente no tosco
discurso do Toffoli. Aliás, embora não haja razão (mistérios da mente), quando
vejo esse rapaz, lembro do major Cosme de Faria, popular e competentíssimo
rábula baiano, tão respeitado que abria a porta do gabinete do governador de
plantão sem marcar audiência ou pedir permissão, e ai de quem tentasse
impedi-lo.Sua fama ganhou mundo pelas páginas do extinto “O
Cruzeiro”…Presidente de Corte Suprema que se dá respeito não celebra pacto com
ninguém. Esse contubêrnio entre poderes faz mal ao país. Ficam todos como
farinha do mesmo saco.
Quando se vê essa plêiade
de anões espalhados na vida pública, sente-se a falta que nos fazem homens como
Ulysses, Tancredo, Brossard, Djalma Marinho, Afonso Arinos, Milton Campos e
tantos outros que iluminaram o cenário da vida pública, antes dessa
esculhambação generalizada.
O Congresso, especialmente
o Senado (basta dar curso a um pedido de impeachment) tem o dever de mostrar
que o tribunal não pode tudo, não pode mesmo, ou vamos ficar de quatro,
imprensa, juízes, procuradores, parlamentares, advogados, escriturários, todo
mundo, reféns e a mercê dos humores dos lewandowskis, toffolis e gilmares da
vida?
(*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as
redações de algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante
18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa.
Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde
1987, baseada em Belém.
No jornalismo, recebeu
quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por
seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em
Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do
CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.

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