UMA GOTA DE POESIA NA BOCA DA NOITE: “O DIABO E A POLÍTICA”
Sempre que leio os
jornais, lembro uma historinha que nem sei mais quem me contou. Naquela aldeia,
todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos
caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia
resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.
Pouco adiante, já fora dos
muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha
cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na mais completa
sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.
O frade ficou admirado e
interpelou o Diabo:
– O que está fazendo aí
nesta boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a
vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua – assim eu pensava
até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de
Diabo, você é um vagabundo!
Sem pressa, acabando de
tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:
– Para quê? Trabalho desde
o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas
não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do
recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra
lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a
transparência, é um pega-pra-capar generalizado, eu estava sobrando, não
precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem.
Jogou o coco fora e botou
um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas
entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:
– Tem sido assim em todas
as aldeias. Quando entra a política eu dou o fora, não precisam mais de mim.
- Carlos Heitor Cony


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