ARTIGO: “O REALISMO FANTÁSTICO DO SENADO FEDERAL”
Nesse final de semana, o
Senado Federal nos brindou com um roteiro de realismo fantástico, passando a
sensação de estarmos diante de uma obra de Dias Gomes, famoso dramaturgo
brasileiro, criador de ‘O bem amado’, ‘Saramambaia’, ‘Roque Santeiro’, dentre
outras, todas com alta dose de sarcasmo em relação à classe política. Foram
várias as situações dignas de cenas históricas do famoso autor baiano.
Na sexta-feira, Davi
Alcolumbre assumiu os trabalhos da mesa diretora por ser o único remanescente
da legislatura anterior, e começou a deliberar sobre um tema particularmente
sensível à disputa pela presidência da casa, a natureza do voto (aberto ou
fechado), colocando-o em pauta. Ocorre que como futuro candidato, ele não
poderia estar exercendo a função. Malandramente, Alcolumbre deixou para
registrar sua candidatura no último instante, de tal modo que oficialmente seus
atos não pudessem ser contestados. Uma ação do tipo ‘me engana que eu gosto’,
tradicional no Congresso Nacional.
Como os senadores podem
ser acusados de tudo, menos de bobos, a matreirice não passou desapercebida.
Aqueles que se sentiram prejudicados, particularmente os aliados de Renan
Calheiros, elevarem o tom da conversa para gritos, e viram na senadora Katia
Abreu o símbolo da resistência. Aos berros, ela subiu à mesa e ‘sequestrou’ a
pasta com as deliberações do dia, sem a qual a sessão não poderia prosseguir.
No plenário, um Renan com dedo em riste bradava ‘canalha’, em referência ao seu
adversário, acusando-o de desrespeitar a Constituição. De algum lugar no
anedotário popular, Mãe Joana assegurava que sua casa era mais civilizada que
aquele pardieiro. Confusões à parte, prevalecia a tese do voto aberto, aprovada
por 50×2, mas os perdedores não se davam por vencidos.
Pausa para reflexão: por
um instante, imaginei o espetáculo ainda mais deplorável que seria registrado
caso Lindberg, Gleise e Vanessa Graziotin estivessem por lá…
Diante de tanta algazarra,
a eleição foi transferida para o sábado pela manhã (11 horas) e seria presidida
por José Maranhão, o mais velho dos representantes da casa. Qual não foi a
surpresa no país ao saber que enquanto dormíamos, o ministro Dias Toffoli,
acionado pelo MDB de Renan e pelo Solidariedade, despachou às 3:45 da madrugada
uma decisão em várias páginas que obrigava a votação secreta. Haja disposição e
eficiência! A geladeira do ministro certamente está repleta de energéticos. A
promessa de não interferência nos poderes havia sido
quebrada. Tal qual nas
dietas pós férias, ‘foi deixada para a segunda-feira seguinte’…
A manhã começara bem para
Calheiros, mas foi por pouco tempo. O grupo anti-Renan rapidamente articulou
uma solução que contornaria a decisão de Toffoli, bastava que eles declarassem
o voto. Mais confusão. Houve quem ameaçasse aqueles que o fizessem de cassação!
Balela. Votação terminada, secreta com declarações, vamos à contagem. Fraude.
Fraude? Mas como? Havia 82
cédulas de votação, todas assinadas pelo presidente da mesa e devidamente
fiscalizadas pelo senador presidiário Acir Gurgacz (PDT-RO), internado em
regime semi aberto na Papuda. Como são apenas 81 senadores, alguém votou em
duplicidade. Quem? Mistério. Mas a situação é digna de comédia pastelão, já que
o Senado foi incapaz de realizar uma eleição lícita com apenas poucas dezenas
de eleitores. Também, pudera, o fiscal era um presidiário condenado por crimes
financeiros. Em que país do planeta…?
Os votos das duas cédulas
sob suspeição foram atribuídos a Renan, que via, pouco a pouco, suas esperanças
ruirem em uma nova votação, convocada para contornar o problema da fraude. Com
boa parte dos senadores declarando o voto, o cacique alagoano anteviu a derrota
e tomou o microfone para si, renunciando à sua candidatura. Deixou o plenário
bufando de raiva. O todo poderoso Golias, presidente do Senado por quatro
vezes, era derrotado por um Davi, oriundo do Amapá, terceiro estado mais pobre
do Brasil, e até então desconhecido do eleitorado nacional, por quem não se
pagava um mísero real nas apostas que antecederam o pleito até o final do ano
passado.
Mas a novela não parou por
aí. Criticado em várias frentes por representar a velha oligarquia política,
altamente rejeitada pela população, que exerceu forte pressão nos senadores por
sua derrota através das redes sociais, Renan deu mostras de como será seu
comportamento com seus detratores a partir de agora. Irritado com uma coluna de
Dora Kramer (Veja) que o chamara de arrogante, o senador alagoano desceu às
profundezas do pântano e atirou para todos os lados, primeiro declarando que a
jornalista o assediava mesmo enquanto tinha o marido como seu assessor, e
depois colocando mais lenha na fogueira ao dizer que estimulara Geddel e Rames
Tebet a flertar com ela, este um falecido senador que supostamente havia
namorado a jornalista. Termina ressaltando sua fidelidade à esposa.
Independente da veracidade, que não interessa ao público, a declaração, de uma
baixeza sem limites, expõe de forma clara que para o ‘experiente cacique’ não
haverá limites quando se
tratar de atingir seus
adversários. Rames é o falecido pai de Simone Tebet, a mais recente antagonista
de Renan…
Em tempos de reality show,
nenhum será capaz de produzir o mesmo entretenimento que o senado federal. Nele
estarão presentes os comportamentos humanos mais sórdidos, capazes de mexer com
os sentimentos do espectador e aumentar a audiência: traição, falsidade,
mentiras, cara de pau, fins justificando os meios. Não há folhetim que dê conta
de competir com essa realidade, um prato cheio para revistas de fofoca. Seria
digno de admiração artística, não fossem os protagonistas representantes
eleitos por nós. A derrota de Renan, enfim, foi um alento para quem deseja
menos baixaria.
No dia seguinte, uma
arrependida Katia Abreu entrega rosas brancas ao novo presidente do Senado, em
sinal de paz. Novos tempos? Resta saber como serão as cenas dos próximos
capítulos…
Fonte/Foto: Blog
do Victor


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