ARTIGO DEDOMINGO: O BRASIL VAI DESLIGAR A MÁQUINA DE FAZER TRAGÉDIAS OU SÓ LIMPAR A BAGUNÇA?
A responsabilidade da Vale
por centenas de vítimas em Brumadinho é clara. Se a Justiça for feita, muita
gente vai em cana e a empresa terá que, além de desembolsar indenizações
morais, materiais e ambientais bilionárias às pessoas à coletividade e ao país,
bancar até o banho e tosa dos cachorros que foram cobertos de lama no caminho
dos rejeitos de minério de ferro.
Se a Justiça for mesmo
feita, isso vai envolver também administradores e gestores públicos que eram
responsáveis por fiscalizar e limitar os efeitos do porte de arma, quer dizer,
da autorização para que a empresa depositasse milhões de metros cúbicos de
resíduos da exploração sem segurança para tanto. E, claro, magistrados e
legisladores que deveriam ter cumprido seu papel de garantir não apenas o
crescimento econômico, mas também a proteção dos direitos sociais como previsto
no artigo 3o da Constituição Federal que trata dos objetivos da República.
É importante punir CPFs,
CNPJs e membros do poder público, mas não apenas. Somos capazes de mudar nosso
modelo de desenvolvimento e, mais do que isso, quais alternativas temos a ele?
Municípios como Brumadinho dependem profundamente da operação da Vale e de
outras empresas do mesmo setor não apenas por empregos, mas pelo dinheiro dos
impostos e royalties. Famílias de mortos na tragédia, ouvidas por colegas
jornalistas nos últimos dias, afirmaram que querem Justiça, mas também disseram
que não imaginam como seria sua vida sem a mineração – que já foi retomada em
outras empresas da região.
O Estado, ao deixar o
planejamento do desenvolvimento de toda uma região nas mãos da iniciativa
privada, ausentando-se em fomentar efetivamente a diversificação econômica,
acaba contribuindo para uma perigosa dependência. Esse erro só é percebido após
uma tragédia, como a de 25 de janeiro, mas também quando, após um boom
crescimento relacionado à exploração extrativista, chega o momento do colapso
regional com a exaustão de uma mina.
Mariana depende da Samarco
da mesma forma que Brumadinho depende da Vale. Qual o plano B que o poder
público, em suas várias esferas, projetou para esses locais para o dia em que o
plano A falhar? A falta de uma resposta consistente é a mesma que traz
ansiedade a outros locais de onde empresas brasileiras ou multinacionais
extraem riquezas, gerando empregos e arrecadação, levando crescimento, mas
também colocando
em risco vidas e o meio
ambiente, em uma contagem regressiva para o abandono.
A ideia de que vale
crescimento acima de qualquer coisa (o trocadilho foi intencional), que norteia
um conceito ultrapassado de desenvolvimento, professado por expoentes dos
principais grupos políticos do Brasil, está na gênese das catástrofes. O fato
de ninguém ter apresentado um projeto claro de desenvolvimento do país nas
eleições e da população não ter sentido falta disso são sintomas desse quadro.
Vamos à deriva, agindo de forma reativa.
O discurso de que o
desenvolvimento é a peça-chave para a conquista da soberania (o que concordo) e
que, portanto deve ser obtido a todo o custo (o que discordo) tem sido usado
por gente de todo o espectro político. Mantém viva a ideia de que o sacrifício
de peões é um dano colateral para ganhar o jogo.
No Brasil, movimentos e
organizações sociais, pesquisadores e jornalistas que cobrem sistematicamente o
tema defendem que o crescimento não pode ser uma onda de lama passando por cima
de pessoas e do meio ambiente. Por conta disso, são taxados de entreguistas e
de fazerem o jogo do capital internacional, ajudando o "interesse
externo".
Passamos anos falando dos
riscos da exploração mineral inconsequente em um país no qual grandes empresas
controlam não apenas a produção de leis como influenciam nos processos de
licenciamento e fiscalização e no julgamento de disputas que as envolve mas a
culpa é do mensageiro.
Logo após tragédias, o
coro é contra os responsáveis por elas. No restante do tempo, o coro é contra
quem denuncia e alerta sobre riscos.
Como já disse aqui, o
Congresso Nacional deveria ser rigoroso na criação de leis que responsabilizem
empresas e seus dirigentes, em ações de prevenção a danos causados pela
mineração, na garantia de estrutura e liberdade para fiscalização. E prever
que, algumas vezes, a proibição de exploração – até que se encontre uma maneira
verdadeiramente racional de extrair o minério – é o único caminho.
O atual modelo, em plena
vigência no Brasil, tem um potencial destruidor muito grande, além de ser
extremamente concentrador. Ou seja, o resultado da pilhagem dos recursos
naturais e do trabalho humano, mantendo o padrão adotado até aqui, continuará
nas mãos de poucos, sejam eles brasileiros ou estrangeiros.
Passou da hora de tirarmos
o "desenvolvimento sustentável" da prateleira da ficção. Para isso,
será necessário que o modelo de crescimento da ditadura – que continua sendo
implementado, com algumas mudanças,
pelas mesmas pessoas que
foram torturadas por ela ou celebraram as torturas – seja julgado e,
finalmente, substituído.
E a perspectiva de futuro
de milhões de pessoas não se encerre quando a montanha no horizonte for levada,
por trem ou barco, para longe dali.
Fonte/Foto:
Leonardo Sakamoto/Mauro Pimentel - AFP


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