JOGOS INDÍGENAS ATRAEM 600 ATLETAS EM 'LUTA' PARA MANTER VIVA A MEMÓRIA DE POVOS
Jogos são divididos em oito modalidades; a iniciativa
foi criada em 1996 pelo Comitê Intertribal de Memória e Ciência Indígena
O sertão foi palco, pela
segunda vez, de um ritual de valorização da cultura e da união de quatro povos
indígenas que vivem no Estado. Durante quatro dias, mais de 600 atletas nativos
dividiram o espaço na tribo Xakriabá, em São João das Missões, na região Norte,
para os VI Jogos Indígenas de Minas Gerais.
Nas terras do maior grupo
étnico do território, na Aldeia Barreiro Preto, os quatro povos se enfrentaram
em oito competições: derruba o toco, arco e flecha, cabo-de-guerra, zarabatana,
corrida do maracá, bodok, arremesso de lança e futebol.
Participaram do torneio
membros das etnias Xakriabá, Krenak, Xucuru Kariri e Pataxó – este distribuído
em quatro locais em Minas: Carmésia, Açucena, Candonga e Itapecerica. A
iniciativa é para valorizar e perpetuar as tradições através dos jogos, criados
em 1996 pelo Comitê Intertribal de Memória e Ciência Indígena.
Para quem imagina que os
grupos vêm perdendo força e as tradições culturais nos últimos anos, o evento
demonstra o contrário. A pintura no rosto é característica entre os índios,
marca de que os traços étnicos continuam muito vivos.
Além disso, a presença das
crianças, interessadas nas modalidades, é grande. Correndo pela tribo, a
diversão principal é o arco e flecha, nada de carrinhos ou brinquedos comuns à
faixa etária.
Antropólogo da Fundação
Nacional do Índio (Funai), França Júnior, que atua nas 34 aldeias Xakriabá que
fazem limite com os municípios de Manga, Miravânia, Montalvânia, Januária e
Itacarambi, lembra que na competição “há pouco valor para a vitória e mais atenção
para a comunhão, com forte impacto na cultura de cada povo”.
A pintura corporal, muito
mais forte ainda durante os quatro dias do torneio, “é uma tradição com
profundo significado para os povos indígenas, sinal de respeito pela terra e
pela cultura”, destaca o especialista.
O antropólogo reforça que
o motivo principal dos jogos “é aproximar os povos indígenas, de modo a
fortificar as culturas e tradições”.
Integração
“Os jogos nos permitem
conhecer a realidade de cada povo”, argumentou o cacique Thyeru Jal, que
assumiu a tribo Xucuru Kariri em 2015, após a morte do pai.
Ele lembra que a
competição o permitiu pisar em solo Xakriabá. “Depois de uma partida de
futebol, da derrubada de um toco, a gente senta para saber como estão as
questões internas de cada povo, vai descobrindo o segredo um do outro para
depois juntar tudo e fazer um bolo só”, disse.
A escolha de São João das
Missões para a realização dos jogos levou em conta, também, o fato de o
município ser administrado, pela terceira vez, pelo índio José Nunes. Em 1987,
com 11 anos de idade, ele foi testemunha da morte do pai, o cacique Rosalino
Gomes, na “Chacina Xakriabá”, que ganhou repercussão internacional. Após o
episódio, a Funai demarcou as terras da etnia.
Fonte/Foto:
Hoje em Dia/Manoel Freitas – O Norte


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