DENÚNCIA DE PADRE TADEUSZ SEPEK, PÁROCO DE MELGAÇO-PA


“Município de Melgaço–PA, abandonado, desprezado e maltratado pela polícia grita pelo socorro.
Exatamente e infelizmente nesta frase podemos resumir a situação do município de Melgaço – PA, a trato recebido por agentes da polícia, tanto civil como militar. Como está sendo dirigido o trabalho deles, é algo que grita de nossa terra melgacense para o Céu. Quero partilhar alguns casos concretos.
* O mais triste é o fato de que o povo do município de Melgaço perdeu completamente qualquer confiança no trabalho da polícia, ou seja, os policiais, por causa de sua negligência, falta de seriedade, total descompromisso com o povo, agressão feita muitas vezes a pessoas inocentes, corrupção vergonhosa, eles perderam toda credibilidade nos olhos do povo. E quem conhece a situação sabe o porquê.
* Ierecê de Melo Coelho no dia 07.10.2016 perdeu o filho Benedito do Socorro de Melo Coelho assassinado por José Palheta de Melo. O caso aconteceu em volta de 23:00h. Chamaram a polícia. Quando o corpo do falecido estava presente no hospital municipal de Melgaço a polícia veio, porém fazendo só algumas perguntas na porta do hospital. Nem entraram. De fazer levantamento, fotos, investigação, perícia, nem se pensa. Logo, tranquilos voltaram para a sua casa. A mãe desesperada pelo filho morto logo foi atrás deles, mas ninguém quis mais atendê-la. No outro dia, foi com o outro filho para delegacia. Em vez de ajudar, o filho Diego de Melo apanhou do investigador Sr. Paulo, que neste momento estava substituindo o delegado. Ela mesma, pessoa já idosa, professora aposentada, ouviu muitos palavrões por motivo de que, a polícia deu ouvido às fofocas ao redor de toda esta situação. Até hoje o assassino está solto, enquanto as pessoas, principalmente jovens da família do assassino, passando perto da casa da mãe do falecido, fazem caçoada dela com ameaças.
* Eu, como pároco desta comunidade, na pele experimentei a grosseria dos policiais. No ano passado, parece-me que no mês de maio.
Devido à grande quantidade de roubos na cidade fui falar com os representantes da polícia militar, pedindo socorro. Fui atendido extremamente mal como se fosse um intruso que rouba a paz da polícia. Percebendo que não iria alcançar nada, perguntei: Senhor policial, (que estava sem camisa): “O senhor está trabalhando atendendo às pessoas”? Surpreso, respondeu: claro que sim. Fiz outra pergunta: “com esta camisa, senhor?” Ouvi então: “Padre, mais uma palavra e vou te prender”. Depois
disse para o chefe dele que não iria sair do lugar, a não ser preso mesmo, se fiz um crime ou depois de ouvir as desculpas do policial que me ameaçou. Ouvindo de mim, que iria denunciar para Comissão Justiça e Paz, o policial vestiu uma roupa de primeira qualidade (foi até engraçado esta cena), pediu desculpas e prometeu organizar o trabalho da polícia de uma forma nova e responsável. Até hoje esperamos ver este trabalho novo...... e nada.......A verdade é esta: É mais fácil ver um fantasma na rua de que uma viatura de polícia. É triste. Muito lamentável mesmo!!!
É fácil imaginar, se um padre é tratado desta forma, como estão sendo tratadas pessoas simples? É algo tremendo!!! Diariamente o povo é tratado muito mal, apanham as pessoas inocentes, ouvindo muitos palavrões. O povo então tem medo da polícia, e raramente procura os policiais.
* Em fevereiro de 2016, na presença do Cardeal Hummes, um dos representantes da comunidade do interior chamada Nossa Senhora do Desterro, no rio Tajapuru, senhor Francinei Lobato, denunciou que o cunhado dele, Adelson Pereira, foi assaltado. Quando procurou a delegacia pedindo a investigação ouviu as seguintes palavras: “vamos até lá só depois de recebermos mil reais”. Os casos de corrupção são recorrentes. Virou a lei em Melgaço. Sem propina a polícia não investiga, principalmente em casos que ocorrem nas zonas rurais.
* Algum tempo atrás um pedreiro chamado Francinei de Souza Corrêa, pessoa humilde, justa e trabalhadora, foi humilhado por um policial, abordado na rua, igual a um criminoso, por causa de uma moto velha, com documentação em dia, só faltando pagar IPVA (em Melgaço, como não tem Detran, as pessoas na verdade não pagam IPVA). Prenderam a moto dele. Quando procurou conversar com o policial Sr. Renato, este perguntou “quanto dinheiro você tem na bolsa?”. Francinei respondeu: cem reais. “Coloque na mesa agora”, continuou o policial. Eu pessoalmente fiquei muito revoltado e indignado, pois estes cem reais a paróquia tinha pago para ele por serviços de pedreiro para sustentar a família. Denunciei o caso ao delegado, naquela época Sr. Rodrigo Amorim, que prometeu levar o caso para frente, porém não fez nada.
* Quero mencionar que a forma da abordagem das pessoas é muito humilhante e com abusos.
* Finalizando, gostaria ainda de relatar mais um caso muito triste. Nestes dias está preso em Breves uma pessoa inocente, Odielson Ferreira dos Santos, que faz parte de nossa paróquia de Melgaço, sendo membro de uma comunidade do interior, no rio Tajapuru. Segundo os relatos, alguns meses atrás, no lugar chamado Carpinal foi assassinado um idoso. Dentro do grupo que está sendo investigado está o irmão do Odielson, que já tem passagens pela polícia. Na hora de assinar os documentos, ele colocou o nome de seu irmão Odielson, que como confirma toda a comunidade é pessoa pacífica, amigo de todo o mundo. Inclusive é membro atuante da Pastoral da Criança da comunidade, que tem como objetivo defender a dignidade das crianças em todos os níveis humanos e espirituais. Pergunto: porque está presa uma pessoa inocente?!!! Porque não foi feito o exame datiloscópico para que a verdade possa aparecer?!!! As pessoas só por causa de pertencer a um município com IDH mais baixo que é Melgaço, têm que passar por toda esta discriminação e humilhação?
Em nome do meu povo tão maltratado, humilhado, abusado, povo que merece o respeito dos seus direitos, clamo aos responsáveis, e para aqueles que por meio dos seus cargos têm capacidade para mudar este quadro triste. Serei muito grato por toda ajuda e atenção.
O povo não suporta mais. Clama e pede socorro. O povo não é um objeto, tem a sua dignidade humana que deve ser valorizada e ela é igual para todos.

Com respeito e atenciosamente,

Padre Tadeusz Sepek – pároco
Melgaço-PA, 23.07.2018 ”

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