A DESCONSTRUÇÃO DE UMA IDEIA DE JERICO
Ciro
Gomes afirmou na Globo News que iria tirar os 63 milhões de brasileiros do SPC.
De certo por julgarem que se tratava apenas de retórica tresloucada de
campanha, os jornalistas não exploraram o assunto. No debate da Rede
Bandeirantes, o coronel de Sobral voltou a insistir no tema, já espalhado como
proposta séria em suas redes sociais. O pior é que vi gente elogiando a medida,
demagogia em estado puro, e a maior ideia de jerico proferida por um candidato
até o momento, nem o cabo Daciolo chegou perto de tal proeza. Vamos aos
esclarecimentos sobre as várias armadilhas que essa aparente boa intenção
esconde.
Primeiramente,
é importante dizer que o contingente de pessoas que estão com o nome incluído
nos birôs tem dívidas em aberto há algum tempo. Muito embora o credor possa
incluir o devedor no cadastro negativo a partir do momento da inadimplência, a
grande maioria não o faz imediatamente, mas a partir dos 30 dias após o
vencimento. Assim, um benefício que contemplasse os ‘negativados’ excluiria os
adimplentes e aqueles com pouco atraso. A medida tem potencial de gerar um
estímulo aos tomadores de crédito não pagarem suas contas, o que é algo muito
sério, que no limite pode quebrar o sistema financeiro. Apenas esse argumento
já seria o suficiente para classificar a ideia ‘cireana’ como uma grande
bobagem, mas esse nem é o pior efeito colateral.
Boa
parte desses inadimplentes são devedores do mercado financeiro, mas há um
contingente razoável que transita pelas pequenas empresas, que nem sempre
incluem seus devedores no birô e adotam um processo de cobrança rudimentar. Uma
ação do governo que subsidiasse inadimplentes beneficiaria portanto os grandes
credores: bancos. Se os 63 milhões de devedores possuírem uma dívida média de
R$ 3 mil, informação que não está disponível, mas parece ser razoável, teríamos
um montante de R$ 200 bilhões impactado pela ideia de jerico, 142% do déficit
público previsto em orçamento para esse ano.
Como
o governo não tem dinheiro, a saída provavelmente seria estimular o refinanciamento
das dívidas via BNDES ou bancos públicos, com taxas de juros camaradas. Ou
seja, o contribuinte estaria financiando a maior capitalização de bancos da
história da humanidade. Boa parte dessa dívida já foi provisionada na sua
totalidade em seus balanços, outra parcialmente, mas o fato é que a solução das
dívidas injetaria dezenas de bilhões de reais no caixa das maiores instituições
financeiras do país, constituindo-se em uma gigantesca transferência de renda
de pobres para ricos. E o pior, as novas dívidas estariam provavelmente nas
mãos dos bancos públicos, que assumiriam o ônus do crédito ruim de toda a
indústria.
Mas
e os 63 milhões de supostos beneficiários? Bem, aqui vale uma explicação ao
candidato de como funciona a indústria de crédito. À medida que avança o atraso
de uma dívida, as condições de renegociação ficam mais flexíveis ao devedor, o
mercado já pratica descontos vultosos e prazos extensos para obter o
compromisso de pagamento. Se não consegue, provavelmente não é por falta de
opção, e sim por ausência de emprego e renda na outra ponta. Some-se a isso o
fato de que os índices de inadimplência de quem fecha acordos em dívidas muito
atrasadas são bem mais altos que a média, pois a reincidência é bastante comum.
Ou seja, se a ideia de jerico implica em facilitar renegociações através de
instituições públicas, elas constituiriam novas carteiras de crédito de baixa
qualidade e criariam bilionárias provisões em seus balanços, um verdadeiro
desastre que poderia inclusive levá-las à bancarrota, requerendo resgate do
Tesouro…
Os
devedores teriam um alívio momentâneo, e só. O fato de não estarem mais
negativados não lhes concederia acesso a crédito barato, os mesmos não
deixariam de serem tomadores de alto risco de um dia para o outro e continuariam
pagando caro pelo dinheiro. Fatalmente retornariam ao cadastro negativo no
curto prazo, com novas anotações, resultado de uma bolha de consumo cujo
desfecho seria mais inadimplência.
Para
terminar, somente um sujeito muito leigo pode achar que o cenário de zero
inadimplência é possível ou sugerir que sua eliminação seja um objetivo. Quem
trabalha com gestão de risco sabe que reduzir a inadimplência é fácil, basta
fechar a torneira do crédito.
Mais
que isso, a inadimplência por si só não é algo necessariamente ruim, mas parte
de uma equação mais complexa que envolve apetite de risco, valor emprestado,
prazo e spread. Mesmo uma economia a pleno emprego terá milhões de
inadimplentes. A título de informação, quando o Brasil nadava de braçada,
crescendo 7.5% ao ano e com desemprego inferior a 4%, no final da década
passada, eles já eram quase 50 milhões.
Por
quê então beneficiar os bancos responsáveis por decisões de crédito
equivocadas, com dezenas de bilhões de reais de dinheiro público? A única
explicação para tamanha barbaridade é a ignorância de como funciona esse
mercado. Ciro Gomes está muito mal assessorado. Dilma Rousseff deve ter lhe
‘soprado’ essa sugestão, trata-se de uma intervenção típica da musa da
mandioca, que tanto dano já causou à nossa economia.
Quer
melhorar a situação dos devedores?
Proporcione
emprego e renda, estimule a competição no sistema bancário mais concentrado do
mundo, implemente o cadastro positivo. Soluções mágicas não existem e a
divulgação de uma proposta tão equivocada quanto essa é um sinal de que
precisamos ficar muito atentos ao risco dos demagogos mentirosos. O Brasil não
pode repetir os erros da catastrófica gestão Dilma, já pagamos com uma geração
perdida.
Fonte/Imagem: Blog do Victor


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