ARTIGO DEDOMINGO: CONSTITUIÇÃO DE 1988, UMA JOVEM ANCIÃ
A
Constituição brasileira, promulgada em 1988, é a segunda mais extensa do mundo
(perde da Índia nesse quesito), compatível com o arcabouço de 180 mil leis por
aqui existentes. Somos um país que escolheu a complexidade como caminho, para
alegria dos advogados que se valem da mesma como ‘ganha pão’, na mais litigiosa
das nações da Terra, com 100 milhões de processos em andamento, praticamente um
para cada dois habitantes.
Voltando
à nossa carta magna, desde que foi promulgada, ela sofreu 101 emendas, uma média
de 3.3 por ano. A americana, nascida em 1789 (e ratificada em 1791), recebeu 27
alterações até hoje, a última delas em 1992. Enquanto no Brasil mudar a
Constituição é um evento praticante trimestral, nos EUA ele acontece uma vez
por década (a cada nove anos, em média). Em matéria de estabilidade jurídica,
como se vê, há uma distância estelar entre os dois países…Ao longo de nossa
história independente, tivemos 8 Constituições (5 votadas e 3 outorgadas). A
atual nasceu sobre os escombros de uma ditadura militar que atravessou duas
décadas. Natural que à época, se dedicasse mais a direitos que deveres. Há 167
citações aos primeiros contra 45 aos últimos. Egressos de um período onde
direitos de toda ordem foram suprimidos, a reação lógica de uma primeira Assembleia
Constituinte amplamente democrática de nossa história foi concentrar esforços
em garantí-los. Exagerou-se na dose.
Trinta
anos após seu nascimento, o Brasil que a concebeu não existe mais. Aliás, o
planeta é outro. Existe um descasamento gritante entre as necessidades do país
e a complexidade defasada de sua carta magna. A Constituição cidadã, tal qual
foi denominada por seu patrono Ulisses Guimarães, é um fardo que 210 milhões de
brasileiros carregam.
Dirigista,
o texto constitucional adota o ‘estado babá’ como mantra, onde cidadãos em
geral são tratados como seres desprovidos de discernimento para fazerem as
melhores escolhas em seus cotidianos. Não à toa, o termo ‘reforma’ será o mais
citado ao longo da próxima campanha eleitoral. Não é preciso fazê-la para algo
em boas condições de uso.
O
fardo também é imenso para o poder executivo, que precisa esmerar-se em
negociações dificílimas com o Congresso para dar vazão a qualquer medida
modernizante, que exija uma daquelas alterações trimestrais mencionadas há
pouco. Sabemos qual a moeda de troca comumente utilizada nessas ocasiões. Para
completar nosso drama, uma carta desatualizada e complexa é madrinha de um STF
confuso, quase esquizofrênico, fonte inesgotável de insegurança jurídica. Não
ouso dizer que a Constituição é mãe de todos os nossos males, seria demasiado
injusto, mas ela é protagonista desse pardieiro.
Eleger
uma nova Assembleia Constituinte para promover uma lipoaspiração seguida de
cirurgia plástica radical seria uma solução? Estivéssemos vivendo em tempos
mais serenos, eis uma ótima alternativa, mas na era da polarização misturada
com populismo barato, o desfecho dessa iniciativa poderia ser desastroso. Alto
risco.
Infelizmente,
as circunstâncias reservam ao Brasil um caminho mais árduo do que poderia ser
trilhado, fôssemos uma sociedade moldada por princípios pragmáticos. Confesso
que no fundo nutro um sentimento de compaixão pelo próximo (a) presidente.
Envelhecerá uma geração em quatro anos. Há muito a ser feito, e o ecossistema não
ajuda.
Resta-nos
a esperança de que com o passar do tempo, a eficiência e o pragmatismo derrotem
a burocracia e a complexidade. A esperança, coitada, nunca resolve nada. Apenas
nos fornece energia para a caminhada. É o que temos.
Fonte/Arte: O post Constituição de 1988: uma
jovem anciã apareceu primeiro em Blog do Victor.


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