ARTIGO DEDOMINGO: O QUE VIRÁ DA PRÓXIMA VEZ?
- por Lúcio Flávio Pinto (*)
A
Secretaria de Segurança Pública designou sete delegados da polícia civil para
investigar a chacina da semana passada. Talvez seja a maior equipe já formada
para tratar de um conjunto de homicídios em todos os tempos, o que se justifica
por dois motivos. O primeiro, pela quantidade de mortos, 28, além de 21
feridos, 12 deles ainda submetidos a tratamento de saúde. O segundo, pela
suspeita de que as mortes foram praticadas por policiais militares, talvez da
Rotam, a tropa operacional de elite da corporação.
Até
agora nenhum dos assassinos foi identificado e, por consequência, preso. Esse
resultado negativo suscita dúvidas, interpretações, apreensões e um ambiente
ainda mais tenso. Numa sessão convocada pela OAB para tratar da matança, o pai
do soldado da Rotam morto em combate protestou contra o tratamento parcial que
os defensores dos direitos humanos estão dando à questão. Estava indignado por
não ter sido procurado por esses grupos nem ter recebido sequer um telefonema
de condolências das autoridades maiores do Estado, pelo menos os superiores do
soldado, o secretário de segurança e o governador do Estado.
O
pai tem toda razão nestes dois aspectos. Mas não quando investe contra a
proteção aos direitos humanos, vendo nela uma causa das mortes dos policiais,
tratados com preconceito, enquanto os bandidos merecem a atenção. O soldado
Rafael Costa foi morto em ação. Ele e seus colegas de viatura cercaram o carro
de pessoas suspeitas de terem praticado sequestro relâmpago. O primeiro
infortúnio foi a colisão do carro da Rotam num muro. O segundo foi quando o
soldado saiu para enfrentar os homens que perseguia, recebeu um tiro e morreu.
Não
foi execução nem armadilha. Foi luta em campo aberto, que terminou mal para a
polícia. Por quê? Infelicidade mesmo? Menor destreza para o fogo cruzado do que
os bandidos? Falta de estrutura de suporte a operações desse tipo, com alto
grau de risco? Tudo combinado e mais alguns fatores?
Quando
os companheiros do soldado saíram atrás dos fugitivos, era natural o uso da
violência na caça. Era a revolta e a indignação inflamadas. Um excesso seria
quase inevitável. Mas já aí aconteceu a primeira execução. Daí em diante foi a
liberação de uma violência que caracteriza o descumprimento do dever de ofício,
a agressão à lei, a insubordinação e o puro banditismo. Ninguém autoriza um
policial a se comportar dessa
maneira.
Ele ultrapassou a cobertura legal. Tornou-se tão bandido quanto o bandido que perseguiu,
puniu e matou. Suas vítimas em potencial têm que ser protegidas e as vítimas,
reparadas ou indenizadas. É função do Estado.
Para
que a corporação seja preservada desses maus elementos e a Rotam sobreviva, é
preciso que os assassinos com farda sejam presos, processados e punidos
conforme sua responsabilidade na chacina. Mas é preciso ouvir a voz do pai do
soldado e de tantos outros pais, além da sociedade em geral. É preciso
interromper a morte de policiais e retirar dos grupos organizados à margem da
corporação o pretexto emocional da retaliação,. É o que gera, acoberta e
alimenta os grupos de extermínio paraestatais, que se acrescem ao crime
organizado numa modalidade tão ou mais nefasta.
Esse
clima provocou a discussão entre o pai do soldado morto e um dos membros da
comissão de defesa dos direitos humanos, Paulo Fonteles Filho, durante a sessão
na sede da OAB. A partir dessa chama irrompeu um incêndio de intolerância nas
redes sociais. O terreno está propício a esse tipo de manifestação, que poderá
se multiplicar e se agravar cada vez mais, contra um silêncio perturbador e
indigno dos órgãos de segurança do Estado e da sua autoridade maior, o
governador.
- (*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista profissional desde
1966. Percorreu as redações de algumas das principais publicações da imprensa
brasileira. Durante 18 anos foi repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988
deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal
que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.
No
jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos
Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças
sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace e, em
2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection), de Nova York.

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