A VEZ DE LULA
- por Lúcio Flávio Pinto (*)
A
denúncia que o Ministério Público Federal ofereceu hoje contra o ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (mais sua esposa Marisa Letícia, o petista Paulo
Okamoto e cinco pessoas) é um ajuste de contas com um dos maiores líderes
políticos do Brasil, que fez carreira admirável alegando nada saber sobre as
condutas infratoras – em escala constante e crescente – dos seus parentes,
amigos, correligionários, seguidores e parceiros.
Os
integrantes do MPF na força-tarefa da Operação Lava-Jato, sediada em Curitiba,
não hesitaram em usar uma linguagem adjetivada em demasia para o que devia ser
uma peça sobriamente jurídica (por sua enorme gravidade). Agiram assim
exatamente porque queriam destruir esse habeas corpus preventivo que Lula se
conferiu por ato de império, à margem da lei e escondido nos bastidores do
cenário público.
Como
é que tanta coisa grave e profundamente prejudicial ao país aconteceu em pelo
menos cinco dos oito anos do mandato duplo do ex-líder sindical (e em pelo
menos dois dos cinco e meio da sua sucessora) sem que Lula, o pioneiro na
auto-imunização moral e política, e Dilma soubessem – ou, não sabendo, se
interessassem por saber e agissem para extirpar o mal e interromper a sangria?
Um
técnico rigoroso haverá de fazer objeções ao tom panfletário, às imprecisões,
às generalizações e a outras falhas da denúncia do MPF, que nem sempre
estabeleceu a conexão entre os fatos apontados e os tipos criminais, arguidos
para justificar a incriminação de Lula e parceiros, na instauração da ação
penal solicitada hoje à justiça.
Há
hiatos e lacunas bastantes para serem exploradas ao longo da instrução
processual pela defesa dos acusados, se tornados réus pelo juiz que preside o
feito, Sérgio Moro, da 13ª vara criminal da justiça federal no Paraná.
Tanto
esses pontos podem vir a ser contestados, como já o foram na nota pública que
os defensores de Lula e Marisa Letícia divulgaram hoje, como podem vir a ser os
embriões de uma apuração com potencial de chocar o país e o mundo.
O
MPF diz que só no esquema organizado de corrupção na Petrobrás as empresas com
contratos na estatal pagaram 6 bilhões de reais em propina, quase 2 bilhões de
dólares. O superfaturamento feito para gerar caixa para essas atividades ilícitas
de políticos, executivos e empresários causou prejuízo de R$ 42 bilhões, ou em
torno de R$ 13 bilhões.
Quantos
episódios de corrupção chegaram a esse patamar no mundo? Já seria o suficiente
para provocar uma hecatombe no Brasil. Mas a Petrobrás não foi o único alvo
dessa combinação de predadores e parasitas. Há também o sistema Eletrobrás, os
fundos de pensão estatais, o BNDES, a Caixa e mais alguma coisa. O número pode
ir além de R$ 100 bilhões, ou 2% do PIB nacional em mãos de poucas dezenas de
pessoas.
Só
de algumas delas, para prevenir o rombo dos quatro maiores fundos de pensão
federais, a justiça bloqueou bens de patrimônios particulares no valor de R$ 8
bilhões. É espantoso.
Corrupção
sempre houve e, ao que tudo indica, sempre haverá. Mas não na intensidade, na
velocidade, na escala e na sistematicidade praticadas a partir de 2004,
prolongando-se até 2014 com intensidade, justamente o ano da quase frustrada
reeleição de Dilma Rousseff.
O
mais importante na denúncia do MPF foi garantir que, além do enriquecimento
ilícito das oito pessoas denunciadas, todo esse esquema foi montado para
“alcançar governabilidade em práticas corruptas e perpetuação criminosa no
poder”.
É
algo que, se definitivamente confirmado, colocaria o PT no álbum de histórias
do PRI do México ou mesmo das Farc na Colômbia, embora sem derramamento de
sangue (o que, talvez, diga alguma coisa sobre o que é a sociedade brasileira).
É
uma afirmativa sem paralelo na história republicana do Brasil, cuja força não
guarda coerência com o texto da denúncia, que às vezes se desvia pelo
subjetivismo de adjetivos que estariam melhor se não estivessem no texto. Ele
diz mais do que prova.
Mas
tem um grande mérito: permite à instância certa numa democracia, a justiça,
obrigar Lula a sair da suya estratégia de não saber de nada. Agora, ele precisa
dizer duas coisas: o que sabe e o que realmente fez.
- (*) Lúcio Flávio Pinto
é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de algumas das
principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi repórter em
O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se ao Jornal
Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada em Belém.


Nenhum comentário:
Postar um comentário