WAI WAI DEVE R$ 3 MILHÕES (NÃO CONFUNDIR COM A ESCOLA DE SAMBA DE SÃO PAULO, DO MESMO NOME, MAS DE MUITO MAIS POSSES)
- por Lúcio
Flávio (*)
Timoteo Tayatasi Wai Wai
está sendo executado pela justiça por uma dívida de quase três milhões de reais
junto ao Ibama. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis autuou Timoteo quando ele transportava artesanato “confeccionado com
sub-produto da fauna silvestre”. No caso, eram penas de arara e papagaio.
São aves da família dos
“psitasidios”, proclama a certidão da dívida ativa da Procuradoria Geral da
União, no valor originário de 75 mil reais. Por não ter autorização para a
comercialização das peças, Timoteo cometeu infração ambiental e foi autuado.
A dívida venceu em 15 de
outubro de 2013. Como não foi quitada, aos 75 mil reais foram acrescentados R$
1,5 milhão de majoração, agravamento e amortização; R$ 706 mil de taxa Selic;
R$ 297 mil de multa moratória, e R$ 497 mil de encargo legal. O valor
consolidado da dívida ficou em R$ 2.985.517,18. Mas ainda pode crescer até o
fim do processo.
Na execução fiscal, o
Ibama tratou logo de pedir o arresto prévio de valores existentes em contas
bancárias de Timóteo ou seus responsáveis, “a fim de evitar possível
desfazimento de bens ou valores em depósito de instituições financeiras após a
citação”, o que caracterizaria fraude ao credor.
Acolhendo o requerimento,
em novembro do ano passado, o juiz da vara única de Oriximiná, Daniel Ribeiro
Dacier Lobato, instruiu o oficial de justiça a fazer penhora dos bens do
devedor, “procedendo desde logo à avaliação, devendo o valor constar do termo
ou auto de penhora”.
Três semanas depois do despacho
do juiz, o oficial de justiça Humberto de Sousa Sarubi Júnior cumpriu o
mandado, intimando pessoalmente Timoteo. Mas deixou de proceder à penhora dos
seus bens porque o executado só tinha um, a casa em que mora com a família,
toda de índios como ele, construção que o oficial de justiça avaliou em 15 mil
reais.
Os “bens de maior monta
que guarneciam a casa” eram um aparelho de televisão, uma geladeira pequena, um
fogão, uma mesa pequena com cadeiras de madeira, duas camas, um micro sistem e
uma cômoda de modulado. O oficial de justiça não encontrou no imóvel
“automóveis, motocicletas ou bicicletas”.
Timoteo é índio da tribo
dos wai wai (não confundir com a escola de samba de São Paulo, do mesmo nome,
mas de muito mais posses). Ele mora com sua família, todos eles também
indígenas, na travessa Piquiá, “ao lado do nº 55, bairro de São José”, na
cidade de Oriximiná, no oeste do Pará, conforme a meticulosa certidão de Sarubi
Júnior.
A milionária ação de
execução fiscal contra o índio, de um grupo que só estabeleceu contato
definitivo com a sociedade nacional há meio século, se baseou numa sumária
certidão da dívida. O documento deu o valor original à infração ambiental, sem
sequer mencionar quantas peças de artesanato Timoteo Taytasi carregava, que o agente
do Ibama avaliou em nada menos do que 75 mil reais.
Além de não ter bens de
significação para dar em garantia aos quase R$ 3 milhões da dívida que lhe foi
atribuída, nem contas bancárias, dentro ou fora do país (ao contrário dos
corruptos e corruptores do “petrolão”), Timoteo, por ser índio, tem um tutor. É
a Funai, a Fundação Nacional do Índio, que não foi citada nenhuma vez nas peças
do processo.
Esses autos certamente
entrarão para a história contemporânea da combinação de burocracia oficial com
os povos mais antigos do Brasil, costumando resultar em casos escabrosos ou
inacreditáveis.
---------------------------------------------------------------------------------
- (*) Lúcio
Flávio Pinto é jornalista profissional desde 1966. Percorreu as redações de
algumas das principais publicações da imprensa brasileira. Durante 18 anos foi
repórter em O Estado de S. Paulo. Em 1988 deixou a grande imprensa. Dedicou-se
ao Jornal Pessoal, newsletter quinzenal que escreve sozinho desde 1987, baseada
em Belém
No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois
Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas. Por seu trabalho em defesa da
verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio
Colombe d’oro per La Pace e, em 2005, o prêmio anual do CPJ (Comittee for
Jornalists Protection), de Nova York.


Nenhum comentário:
Postar um comentário