SERÁ? LIBERDADE MONITORADA DE FORMA ELETRÔNICA PRETENDE DIMINUIR SUPERLOTAÇÃO DE PRESÍDIOS DO AM
As tornozeleiras eletrônicas são rastreadas e mostram
cada passo do detento. Objetivo é diminuir superlotação de presídios no Estado
Todos os passos do
carpinteiro A.M.F (*), 52, são monitorados diariamente por um setor específico
da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap). O motivo foi um
empurrão dado em ex-mulher durante uma briga. Após ser denunciado à polícia,
ele foi “enquadrado” na Lei Maria da Penha e, desde então, usa uma tornozeleira
eletrônica que, segundo o titular do órgão, Louismar Bonates, promete compor o
sistema prisional do futuro: suspeitos de crimes irão circular entre nós, mas
terão todas as ações monitoradas 24 horas por dia.
A.M.F é réu primário e
utiliza o aparelho desde 5 de fevereiro. Ele conta que um relacionamento
conturbado com a mãe de seus filhos causou um grave confronto. “Ela jogou o
celular no chão quando perguntei para quem ela mandava mensagem. Ela saiu,
depois voltou quebrando tudo dentro de casa, pegou uma enxada e me feriu, aí eu
empurrei e ela escorregou e caiu”, defendeu-se.
O episódio marcou
negativamente a vida do carpinteiro. Isso porque o crime se configurou como
agressão, e desde então Aguinaldo deve manter 500 metros de distância da
ex-mulher. “Perdi minha casa, meus filhos e minha liberdade”.
Pelo erro, A.M.F passou a
viver em uma espécie de “presídio a céu aberto”. Tem todas as ações vigiadas, é
avisado por telefone quando se aproxima de algum lugar onde não pode estar, não
pode sair da cidade e vive em um campo invisível determinado pela Justiça. O
carpinteiro não tem permissão para retirar o aparelho em nenhuma situação, sob
a pena de voltar para a cadeia.
Como qualquer detento, ele
também aprendeu a conviver com a “vergonha”, disfarçando o aparelho com uma
atadura. “Enrolo no tornozelo porque as pessoas perguntam. Eu tenho vergonha,
sim... As pessoas julgam as outras. Ninguém sabe porque estou com isso na
perna. Eles pensam que sou um bandido”, explicou.
Semiaberto vigiado
Além de A.M.F, outros 320
acusados de diversos crimes - entre homens e mulheres - estão espalhados pela
capital, mas com a circulação restrita. Dentre eles, 49 são apenados pelo crime
de agressão à mulher, pela Lei Maria da Penha. As informações são do secretário
Louismar Bonates, que mostrou a A CRÍTICA o local onde todos os suspeitos são
monitorados.
O sistema fica no Centro
de Operações e Controle do Sistema Penitenciário, localizado em um prédio anexo
à Seap, no Centro da capital. No complexo, somente é permitida a entrada de
funcionários do setor com digitais registradas. “Aqui podemos ver todos os
presos de regime semiaberto e alguns de regime fechado que, por decisão
judicial, passaram a usar a tornozeleira”, mostrou Bonates no mapa.
O centro armazena todos os
trajetos realizados por cada pessoa. Em um caso comum de Lei Maria da Penha,
onde o suspeito não deve se aproximar da vítima, o sistema aponta uma área de
exclusão. Nesse caso, o homem é impedido de estar no perímetro em que a vítima
vive ou trabalha, por exemplo. “A tornozeleira vibra e o mapa marca um percurso
vermelho. Ligamos imediatamente para ele e dizemos que ele está saindo da área
dele”. Ao suspeito sair do local, o mapa volta a apontar o cursor em azul.
Bonates cita um rosto
conhecido que é monitorado pelo sistma, por meio das tornozeleiras: Raphael
Souza, filho do ex-deputado falecido Wallace Souza, condenado em 2012 por homicídio.
“Ele está preso no semiaberto do Compaj. Durante o dia ele pode trabalhar no
Vieiralves. A mãe dele mora no Parque Dez, mas ele não pode visitá-la. O
trajeto dele é ir da Torquato até o Vieiralves, e depois voltar ao semiaberto.
Ele não pode almoçar fora e não está autorizado a ir a qualquer local. Não
deixa de ser uma cadeia”, declarou.
Outra “beneficiária” da
tecnologia é a socialite Marcelaine Schumann, acusada de ser a mandante de uma
tentativa de homicídio contra um suposto affair do empresário Marcos Souto, de
quem era amante há nove anos, no final do ano passado. Presa desde o início do
ano, ela foi liberada para deixar o presídio usando uma tornozeleira
eletrônica.
Violações em 30% dos
aparelhos
A vigilância e a
tecnologia empregada no sistema de tornozeleiras eletrônicas não impedem que
novos crimes sejam praticados pelos detentos. A declaração é do próprio
secretário Louismar Bonates.
Segundo ele, entre maio e
julho de 2014, quando o sistema foi implementado, a porcentagem de violações
dos aparelhos chegaram a 30%. ACRÍTICA apurou que, pelo menos, cinco outros
rompimentos de tornozeleiras foram registrados entre fevereiro e abril deste
ano.
Bonates justifica o alerta
ressaltando que o aparelho tem a função de apenas “monitorar” os presos. “Não
tem como dar choque e o cara parar de fazer algo errado. O que pode acontecer é
que a tornozeleira pode ajudar a descobrir o trajeto que a pessoa fez”.
No caso do sargento da
Polícia Militar José Cláudio Marques, o “Caju”, Bonates afirma que um dos
suspeitos, Jhonatan Paiva Costa, o “Jho Jho”, acabou sendo localizado com o
auxílio da tornozeleira. “Quando ele chegou lá na bola da Suframa, cortou a
tornozeleira, violou, e pendurou na árvore. Ele só foi descoberto por causa
disso”.
Em alguns vídeos da
Internet, detentos ensinam maneiras de violar o aparelho com objetos cortantes.
Ao ser questionado sobre a possível vulnerabilidade do sistema, o secretário é
enfático. “Não tem jeito. É uma fibra ótica que, se cortada ou violada, vai
avisar a central. Essa será a prisão do futuro e, mais que prender gente,
queremos diminuir a superlotação dos presídios”, disse Bonates.
(*) sigilo solicitado
Fonte/Foto: Oswaldo
Neto – ACRITICA.COM/Márcio Silva


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