PREOCUPANTE: BELÉM-PA VIRA ROTA E MERCADO PARA O TRÁFICO DE DROGAS



Pesquisador diz que rede do tráfico está integrada à economia nos centros do País
A localização geográfica da Amazônia, próxima aos principais produtores de cocaína, facilita a entrada desse entorpecente em território brasileiro. “A Amazônia é rota obrigatória de passagem da droga para a Europa e para a África. Isso significa dizer que o Brasil desempenha o papel de área de trânsito da droga”. É o que afirma o pesquisador Aiala Colares Couto. Ele também destaca ter havido um aumento do consumo de cocaína no Brasil em relação à Europa. E, de acordo com relatório de 2014 do Escritório das Nações Unidas Sobre Crime Global, o Brasil ocupa a segunda posição no consumo dessa substância, atrás apenas dos EUA, que ocupa a primeira colocação nesse ranking.
O pesquisador diz que uma parte da droga é comercializada em cidades amazônicas. “E aí temos Belém, que além de ser uma cidade que se apresenta como rota internacional do tráfico, exerce também a função de mercado consumidor em meio a um comércio de entorpecentes que se realiza em sua periferia dispersa e por toda a sua região metropolitana”. Bacharel e licenciado em Geografia, especialista em Planejamento Urbano, mestre em Planejamento Regional e Urbano e Doutorando em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA-UFPA), Aiala Colares destaca que uma parte da droga chega de barco, transportada por “mulas” - pessoas que atravessam a droga de um país a outro. “Na verdade, o rio se tornou um dos elementos centrais do tráfico de drogas em função do potencial de ‘camuflagem’ em meio às fiscalizações dos órgãos de segurança públicas federais e estaduais”.
Ainda segundo ele, cidades como Santarém, Vigia de Nazaré, Cametá, Barcarena e Belém estão nesses circuitos espaciais. “São cidades-nós e, no sul do Pará, Marabá e Conceição do Araguaia concluem o cerco, onde em Conceição a cocaína que entra vem da Bolívia passando por Mato Grosso, Goiás e Tocantins até entrar no Pará por essa cidade e Marabá, se destacando enquanto um mercado consumidor em potencial. Ressalta-se que 65% da cocaína que entra no Brasil vem da Bolívia, segundo a Polícia Federal”, afirma.
Em Belém e em sua região metropolitana a droga entra via Alça Viária ou rio Guamá até chegar ao Guamá, Jurunas, Terra Firme e Cremação, bairros com forte presença do narcotráfico e outros tipos de criminalidade urbana e vários tipos de conflitos sociais. “Internamente, existem várias formas de fazer a distribuição interna. Uma delas é baseada no chamado ‘moto-tráfico’ - pessoas que fingem exercer a profissão de mototaxistas para distribuírem a droga e despistar a polícia”, afirma. 
COCAÍNA
Professor e pesquisador da Universidade do Estado do Pará e coordenador do curso de Geografia, Aiala afirma que a droga mais comercializada no Estado é, sem dúvida, a cocaína. “Essa droga é comercializada de duas formas. A primeira em pó de cocaína, que é vendida em pacotes que variam de R$ 20,00 a R$ 30,00 e que podem sofrer variação de preço sempre que a procura aumentar, pois pode estar em falta nas outras ‘bocas de fumo’. A cocaína pode ser comercializada em forma de pasta base, que é consumida em forma de mesclado - ou seja, misturada com maconha ou com cigarro - e é vendida ao preço de R$ 10,00. Depois vem a maconha, onde existe um movimento de luta pela sua descriminalização e liberação, mas que ainda o seu uso é considerado crime e pode ser encontrada aos preços de R$ 5,00 e R$ 10,00. E, por fim, vem aumentando o consumo de crack, que já nos faz enxergar o nascimento de cracolândias no centro da cidade; essa droga é comercializada ao preço de R$ 5,00”, analisa.
Ele continua: “Assim, podemos dizer que o pó de cocaína se popularizou e por isso é muito consumido. Existem diversos pontos espalhados na cidade e no Estado, onde a cocaína chega e causa um grande impacto social. Já as drogas sintéticas são muito caras em função do custo de transportes da Europa para o Brasil ou então dos altos custos em se fabricar internamente”.
Aiala Colares afirma que, nos últimos anos, mudou o perfil dos traficantes. “A mídia quase sempre costuma confundir pequenos ‘aviões’ (que são pessoas que comercializam a droga intra-bairro) com o chefe do tráfico. Temos uma espécie de narcotraficante empreendedor. Ou seja, o tráfico de drogas movimenta a economia dos bairros com várias atividades que geram emprego e renda, como mercadinhos, clínica de estética, depósitos de bebidas, táxis, pizzarias, dentre outros. O que quer dizer que a economia do tráfico está incorporada à economia urbana”, explica.
No passado, diz ainda Aiala Colares, os traficantes construíam casarões na periferia e tinham que conviver diariamente com a extorsão policial e isso dava muito prejuízo para seus ‘negócios’. “As estratégias dos narcotraficantes de agora são mais ousadas. Eles pagam por proteção, criam esquema de agiotagem e usam serviços dos grupos de extermínio. A disputa por territórios é inevitável, mas esta fica mais numa escala micro que se realiza no interior dos bairros”, afirma. Vários segmentos dizem que a Polícia só prende o pequeno traficante, não conseguindo alcançar os grandes traficantes. Sobre esse tema, o pesquisador observa que o grande traficante nunca está no lugar do tráfico. “Existe um gerente da ‘boca de fumo’. Ou seja, a pessoa que recebe uma parte do lucro para organizar o esquema da venda da droga no bairro, inclusive selecionando ‘aviões’ e ‘olheiros’ ou então indicando ‘soldados’ do tráfico. O jovem da periferia é o principal alvo para fazer parte das redes, pois ele é facilmente cooptado em razão dos interesses em obter privilégios, como se envolver com garotas bonitas da periferia, se inserir na sociedade de consumo comprando roupas de marcas famosas e tênis e usando cordões de ouro ou aço; em outras palavras, ostentando. Por isso, tornam-se frágeis diante do poder de persuasão do narcotráfico. A fragilidade nas políticas públicas do Estado legitimam ação do crime”, afirma. 
PESQUISA
Aiala Colares diz haver uma necessidade urgente em se repensar as políticas que são direcionadas para o combate ao tráfico de drogas. “É preciso reconhecer que a economia da droga está infiltrada nas estruturas sociais, econômicas e políticas do Estado-nação. Permitir que cada vez mais cresça o número de jovens envolvidos na criminalidade, ou em situação de risco, é também permitir com que o tráfico se organize espacialmente exercendo sua macro e micro relação de poder, comprometendo inclusive as instituições de segurança pública. Talvez o maior desafio dos órgãos governamentais seja o de traçar um debate amplo sobre o tema e buscar compreender mais sobre a atuação do circuito do narcotráfico, de forma que se busque resgatar a cidadania de muitos jovens envolvidos por essa rede”, afirma.

Fonte/Foto: O Liberal





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