TUDO OU NADA - EIKE BATISTA E A VERDADEIRA HISTÓRIA DO GRUPO X
Livro narra saga do empresário Eike Batista desde
exploração de ouro na Amazônia
Jornalista Malu Gaspar apresenta o livro 'Tudo ou nada
– Eike Batista e a verdadeira história do Grupo X' (Record), lançado no final
do ano passado
Quando começou a ser
exibida na televisão a novela “Império”, sobre um magnata que constrói sua
fortuna a partir do garimpo na Amazônia, a jornalista Malu Gaspar lembrou logo
da história de outro personagem da vida real, até mais famoso que o Comendador
do folhetim: Eike Batista. Mas qual a relação entre eles? É que Eike também
iniciou sua saga empreendedora nos garimpos da região, nos anos 1980. É o que
Malu conta no livro “Tudo ou nada – Eike Batista e a verdadeira história do
Grupo X” (Record), lançado no final do ano passado.
“A carreira dele como
empreendedor começou no garimpo na Amazônia”, conta a autora, em entrevista por
telefone à reportagem. Ao longo de 546 páginas, ela narra a ascensão e a queda
de Eike, da juventude entre a Europa e o Brasil até sua saída do edifício
Serrador, luxuosa sede do Grupo X, às vésperas de ser julgado por especulação.
A Amazônia, declara ela em entrevista por telefone à reportagem, foi cenário
importante no início dessa trajetória.
“Eike morou em Genebra e
Bruxelas parte da adolescência, mas sempre vinha ao Brasil. Numa dessas vindas,
soube que havia uma ‘corrida do ouro’ na região. Ele tinha espírito
empreendedor, e começou a fazer viagens em busca de lugares para comprar ouro
para revender no Sudeste”, conta a autora, lembrando que era tudo bem
aventureiro. “Ele começou essa atividade indo de teco-teco aos lugares para
comprar ouro. Ele foi a Itaituba (PA), estabeleceu contato com Ditão, que
comandava o garimpo ali, para comprar o minério. Eles chegavam com cacos de
roupa e voltavam em barcos cheios de ouro, com as roupas por cima”.
A atividade na região foi
o impulso para Eike deslanchar sua carreira como empreendedor. Com o dinheiro
ganho com o ouro, o empresário foi além e começou a adquirir minas e terrenos
para exploração, que depois repassava a outros operadores. “Em determinado
momento, ele tinha uma bela pilha de direitos de lavra e exploração. Dizia que
tinha 8 milhões de hectares da Amazônia”, conta a jornalista.
Do garimpo às ações
O sucesso do modelo de
negócios de Eike lhe permitiu montar sua primeira grande companhia, adquirindo
participações na canadense TVX, e tornar-se sócio de grandes mineradoras
internacionais, nos anos 1980 e 1990. Isso daria início a um outro momento na
trajetória do empresário, quando começou a operar no mercado de capitais.
“No Canadá, ele conheceu o
mercado financeiro e aprendeu a lançar projetos na Bolsa”, narra Malu. Também
lá, revela a jornalista, ele desenvolveu uma experiência que lembra, em escala
menor, o caso do Grupo X. “Ele comprou terras que dizia serem promissoras para
exploração, contratou os melhores executivos, começou a explorar em vários
lugares do mundo. No final, porém, as terras não tinham minério suficiente ou
eram difíceis de explorar”.
Do caso resultou que Eike
enfrentou problemas no mercado canadense e teve a empresa tomada dele. Anos
depois, após se reerguer e criar a empresa OGX para a exploração de petróleo e
gás natural, ele replicaria o erro do Canadá em escala global, como avalia
Malu.
“A princípio, tudo o que
montou tinha razão de ser. A questão é que ele fez promessas sem fundamento, e
quando a realidade se revelou pior, recusou-se a voltar atrás e refazer os
planos. Ele foi avisado que não havia o óleo que dizia que havia para a OGX. Ele
vendeu o que não tinha”, comenta a escritora, lembrando a imagem mirabolante
criada pelo magnata, de uma petroleira capaz de produzir, em sete anos, um
milhão de barris de petróleo/dia – número que até uma gigante como a Petrobras
levou 55 anos para alcançar. “Estava na cara que não havia como entregar. Tavez
tudo pudesse ter tido outro desfecho, mas não da forma como ele conduziu. Foi
uma questão de tempo”.
O escândalo logo tomou os
noticiários: o homem que fora o mais rico do País – e o sétimo do mundo – foi à
bancarrota. Mas a dúvida ficou no ar: ele agiu por leviandade ou má fé? Para
Malu, um pouco das duas coisas. “Quando ler o livro, você verá que, em alguns
momentos, Eike parece ingênuo, de acreditar em coisas como promessas de
políticos. Mas ele também ignora pessoas que avisam a ele sobre os planos
superdimensionados. Creio que até certo ponto ele foi ingênuo, mas depois foi
irresponsável, por divulgar dados que sabia serem mentira”.
Romance da vida real
Malu fala com conhecimento
de causa: ela começou a seguir a trajetória de Eike e do Grupo X há dez anos,
no trabalho como jornalista. “Tive oportunidade de entrevistá-lo em ocasiões
formais e informais, conheci pessoas que trabalham e trabalharam com ele. Tinha
uma coleção de histórias”, conta a jornalista, que teve a ideia de escrever o
livro ao notar a repercussão das dificuldades de Eike, há poucos anos. “As
pessoas se perguntavam como alguém podia ascender e cair de forma tão
espetacular. Pensei, ‘Eu sei responder a isso’”.
Em um ano de trabalho,
Malu fez mais de cem entrevistas, desencavou documentos e coletou material de
inúmeras fontes. Transformou tudo numa narrativa envolvente e acessível até aos
menos chegados ao noticiário econômico. “Minha ideia era fazer um thriller, um
romance da economia. É uma história fácil de entender, não tem nada de
‘economês’”, diz.
O resultado do enorme
esforço de Malu, afinal, é o romance de um personagem da vida real, mas que
pode ser lido também como metáfora do País hoje.
“Para mim, a história do
Eike é uma parábola do Brasil. Nos últimos anos, ele foi uma figura central do
capitalismo brasileiro. Você o via sempre ao lado de políticos, banqueiros,
artistas. Essa é a história de um personagem que também é uma história do
Brasil recente”, conclui a escritora.
‘Acho difícil ele voltar’
O escândalo de Eike
Batista e do Grupo X teve vários episódios bizarros desde que ganhou os
noticiários. É o que se pode dizer, por exemplo, da recente declaração de Eike
dizendo que voltará aos negócios em breve. Malu Gaspar acha difícil. “Hoje ele
deve R$ 1 bilhão a diversos credores. Sua quebra foi em escala global, não há
ninguém no mundo que não saiba de sua história. Acho difícil ele conseguir
atrair investimentos de novo nestas circunstâncias. Creio que nunca mais vamos
vê-lo da forma como ele foi antes”, opina.
Outra esquisitice foi o
caso do juiz Flávio Roberto de Souza, que resolveu tomar para si bens
confiscados do empresário, como um carro Porsche e um piano. “No mundo que
envolve Eike acontecem as coisas mais absurdas. As pessoas me perguntam se tudo
o que escrevi em meu livro é verdade. Sim, não romanceei nada. Mas o juiz
parece saído de um roteiro do meu livro”, comenta Malu.
Bizarrices à parte, a
jornalista aponta que o caso tem repercussões bem sérias na economia. “O Brasil
hoje vive uma crise: o Governo está quebrado e precisa de investidores privados
para fazer o país acontecer. Mas o Eike abalou a fé das pessoas no mercado. E o
fato de ele não ter sido julgado até hoje dá a impressão de que investir no mercado
de capitais no Brasil não é sério. Afora o lado pitoresco, a coisa do juiz
pegar o carro ou o ovo Fabergé (achado pela Polícia Federal na casa de Eike, e
que se revelou ser falso), há um lado muito triste, uma impressão de que as
coisas não funcionam, de que pessoas podem cometer crimes e vai ficar por isso
mesmo”.
Fonte/Foto:
Jony Clay Borges – ACRITICA.COM/Divulgação


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