CERCA DE 2,3 MIL JACARÉS-AÇÚ FORAM MORTOS PARA SERVIREM DE ISCA NA PESCA DA PIRACATINGA
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| Carcaça de jacaré-açú morto a golpes de terçado por pescadores. |
Carne do “predador” é usada por pescadores da região
do Médio Solimões como isca para atrair peixes piracatinga. Mesmo assim,
espécie jacaré-açú não é alvo de campanhas ambientais
Ele não está no foco das
campanhas de defesa dos animais, nem no centro da polêmica em torno da
moratória da pesca da piracatinga - um tipo de bagre comum na Amazônia -,
decretada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para acabar com a matança de
botos.
Muitas vezes, ele nem é
lembrado quando se fala na caça ilegal de animais silvestres, talvez, por ser
um predador com fama - e cara - de mau e uma relação historicamente emblemática
com os caboclos.
Mas é o jacaré-açu
(Melanosuchus niger) o principal alvo dos pescadores no Médio Solimões: em
2013, foram mais de 2,3 mil animais mortos para servirem de isca para a pesca
da piracatinga.
E tudo isso apenas na
Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, uma das 43 Unidades de
Conservação estaduais do Amazonas, localizada a 600 quilômetros de Manaus, entre os municípios de Tefé, Fonte Boa e
Maraã. O número alarmante é uma estimativa de pesquisadores do Instituto
Mamirauá, que há dez anos estudam a pesca da piracatinga na reserva.
A pesca ganhou os
noticiários após a Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa), em parceria com o
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), lançar, em julho, a
campanha Alerta Vermelho, contra a caça de botos na amazônia e em defesa da
antecipação da moratória da piracatinga.
De acordo com a presidente da Ampa, Nívia do Carmo, 1,6 mil botos foram
mortos e usados como isca para piracatinga, ano passado, em Mamirauá.
Os números são
preocupantes, mas podem ser ainda mais. É o que aponta um estudo realizado pelo
Instituto Mamirauá sobre a mortalidade de botos e jacarés associada à pesca da
piracatinga na região do Médio Solimões.
De acordo com uma das
autoras da pesquisa, Miriam Marmontel, ao contrário do que vem sendo divulgado,
a isca mais usada na pesca da piracatinga são os jacarés, com preferência para
o jacaré-açu, e não os botos. “Acompanhamos a pesca dentro da reserva há dez
anos e, nesse tempo, podemos dizer que são mortos mais jacarés do que botos
para a pesca da piracatinga”, afirmou Marmontel, que é líder do Grupo de
Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do instituto.
Recaída
O jacaré-açu, que esteve
ameaçado de extinção após intensas caçadas nas décadas de 1960, 70 e 80, hoje
figura lista de animais “dependentes de programas de conservação” da União
Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). Enquanto isso, o boto não é
classificado por ter “dados insuficientes” sobre a população.
Essa recuperação na
população desses réptéis só foi possível com a proibição do abate e consumo do
jacaré, implantação de atividades sustentáveis e criação de áreas protegidas,
como a RDS Mamirauá, lembrou o pesquisador do Programa de Pesquisa em
Conservação e Manejo de Jacarés do Instituto Mamirauá, Robinson Botero-Arias,
ao justificar a preocupação com a possibilidade de a espécie voltar a fazer
parte da lista de animais vulneráveis da IUCN.
“A longo prazo, se a morte
de jacarés se mantém à escala atual, o aumento dos efeitos sobre as populações
naturais será maior. Falar sobre extinção é complexo, o melhor é mitigar os
efeitos nocivos à espécie”, disse.
De acordo com ele, a morte
de jacarés é uma realidade preocupante em Mamirauá que pode se repetir em
outras regiões, em escalas até maiores,
no caso das áreas não protegidas, ainda não estudadas.
Mas a ausência de dados
sobre a população não diminui a preocupação com a caça predatória dos botos,
que levam mais tempo para se reproduzirem do que os jacarés, lembra o
pesquisador. “Independe de que tipo de isca é mais usada, se boto ou jacaré, o
preocupante na pesca da piracatinga é o uso predatório de animais silvestres
para serem usados como isca. É um uso marginal dos recursos. Esta é, realmente,
a crise ambiental que estamos enfrentando”, alertou Robinson.
Consumo é de 29 mil por
ano
Todos os anos, mais de 29
mil exemplares de jacaré-açu e jacaretinga vão parar nas mesas dos lares
amazonenses. Eles são mortos para abastecer o mercado negro, que comercializa,
ilegalmente, mais de 100 toneladas de carne de jacaré por ano somente no
Amazonas. Os dados são da Gerência de Fauna do Instituto de Proteção Ambiental
do Amazonas (Ipaam).
“Isso é só o consumo da
nossa população, catalogado, registrado e verificado in loco, sem contar o que
a gente não sabe. A caça predatória de jacarés vai muito além da pesca da
piracatinga. Tem um mercado consumidor muito grande”, alertou a gerente de
Fauna do Ipaam, Sônia Canto.
De acordo com ela, apesar
das pesquisas sobre as populações de jacarés no Amazonas se concentrarem,
principalmente, na região do Médio Solimões, é na calha do Purus que a caça
predatória mais ameaça as espécies.
“A maioria desses jacarés
sai da região do Purus, onde a carne do jacaré salgada é usada como moeda de
troca para comprar óleo, combustível, e vendida a preços que variam de 50
centavos a R$ 1,50 por quilo. Bem menos do que os R$ 17 por quilo que o mercado
local pagava em 2008, e menos ainda que o mercado legal paga hoje em outros
Estados”, relatou.
Caçadores de iscas
Especialista em jacarés, o
pesquisador Robinson Botero-Arias conta que, com o incremento na cadeia da
pesca da piracatinga nos últimos dez
anos - em grande parte impulsionada pela demanda do mercado colombiano, onde o
peixe amazônida é bastante apreciado -, os jacarés passaram a ser alvo de outro
mercado, além do da carne: o de iscas.
É que, como a caça de
jacarés para a pesca da piracatinga não é uma prática comum a todos os grupos
de pescadores, o aumento da demanda pelo peixe abriu espaço para o surgimento
de grupos especializados em comercializar iscas para piracatinga. “Eles cobram
para caçar botos e jacarés e vendem as carcaças para os pescadores. Não é parte
da cultura dos pescadores, mas uma prática oportunista, que precisa ser
freada”, alertou.
Fonte/Fotos:
Mônica Prestes - acrítica.uol.com.br/João
Carvalho



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