ARTIGO: O CHINELO TEM MAIS PODER QUE A TOGA. SÓ NÃO PERCEBEU ISSO AINDA ...
- Por Leonardo Sakamoto*
Auxílio-moradia é um
direito pago quando a pessoa tem que morar fora de sua cidade de residência por
conta do trabalho. Parte dos juízes, desembargadores e ministros já recebia o
auxílio quando não tinha acesso a um apartamento funcional. E parte deles, pasme,
já recebia esse auxílio mesmo quando morava na cidade em que trabalhava e
possuía um imóvel próprio. Nas últimas duas semanas, o Supremo Tribunal Federal
estendeu, ainda que em caráter provisório, o benefício de receber o auxílio a
todos os juízes federais, juízes do trabalho e demais magistrados no caso de
ausência de imóvel funcional, mesmo aos que moram em sua própria residência.
Onde não houver regulamentação para o valor, ele será de até R$ 4.377,73 por
mês.
O ministro Luiz Fux, que
tomou a decisão, disse que isso é justo.
Concordo que é justo o
pagamento do auxílio para magistrados que moram fora de casa. Contudo, essa
situação em que todo mundo recebe o benefício, traz uma incômoda lembrança: a
efetivação do que está no papel depende do poder de mobilização do grupo social
em questão. E isso independentemente do seu tamanho.
Os magistrados são um
grupo poderoso, mas pequeno. Bem menor que os pensionistas da Previdência
Social e demais trabalhadores que sobrevivem com um salário mínimo. E o artigo
7º, inciso IV, da Constituição Federativa do Brasil, que afirma que o salário
mínimo fixado em lei deve ser capaz de atender todas as necessidades vitais
básicas do trabalhador e às de sua família, “como moradia, alimentação,
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social''.
O Dieese que, há 20 anos, calcula o que significaria isso, afirma que o valor
para agosto deste ano deveria ser de R$ 2.861,55 (considerando uma família com
dois adultos e duas crianças). Hoje, é de R$ 724,00.
O governo federal atrelou
o ritmo de crescimento do PIB ao do salário mínimo, na tentativa de resgatar
seu poder de compra. E ele melhorou muito nos últimos anos. Mas não faz nem
cócegas do que está previsto na Constituição.
É claro que é mais fácil
implementar um orçamento para garantir alguns milhões a mais a fim de
universalizar o auxílio-moradia da magistratura do que reservar bilhões para
garantir que o salário mínimo financie patamares mínimos de dignidade. Além do
mais, seria necessário legislação infraconstitucional para tirar isso da
Constituição, então não dá para, simplesmente, comparar uma coisa com outra.
Por favor, não achem que
estou defendendo o sucateamento da magistratura. Quero juízes felizes e
satisfeitos para que não completem a remuneração de outra forma.
Mas se o debate legal não
é cabível, a discussão moral é mais do que bem-vinda. É justo, mas é certo? E
mais do que isso, faz-se necessária uma discussão sobre a percepção do
potencial de pressão social. Pois terno e toga são mais organizados, mas
chinelos são em maior número e mais poderosos, apesar de não terem percebido
isso ainda.
O que deve passar pela
cabeça de uma pessoa que mora no interior do país, recebe pouco mais de um
mínimo e tem que depender de programas de distribuição de renda para comprar a
telha de zinco do barraquinho quando vê, na sua TV velha, a notícia da
universalização de auxílio-moradia para todos os juízes do país? Você acredita
realmente que essa pessoa vai encarar isso como uma discussão sobre a extensão
legal de direitos previstos?
Ela pode engolir o choro
de frustração e torcer para a novela começar rápido a fim de tentar esquecer o
que acabou de ver e ouvir. Mas também pode ir à luta e exigir que seus direitos
também saiam do papel.
*Leonardo
Sakamoto é jornalista e doutor em
Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos
em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é
coordenador da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas
para Formas Contemporâneas de Escravidão.


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