IMAGINEMOS O MUNDO COMO UM DESERTO
![]() |
Dois milhões de hectares de terra estão muito degradados no mundo em consequência da desertificação. |
Nações Unidas, 20/6/2014 –
Imaginemos uma extensão de território árido, que se estende por quilômetros,
sem um rastro de vegetação, nem um só galho que proporcione uma mancha de
sombra ou um fio de água que umedeça a terra ressecada. Agora, imaginemos que
este deserto se expande ao ritmo de 12 milhões de hectares por ano. Por quê?
Porque já está ocorrendo.
Os estudos demonstram que
a cada ano 24 bilhões de toneladas de terra fértil sofrem erosão, e que dois
bilhões de hectares de terras já estão muito degradados em consequência da
desertificação. O território árido da África subsaariana aumentará 15% na próxima
década. Em todo o mundo, 1,5 bilhão de pessoas estão a poucos passos de caírem
na aridez, com suas terras e meios de vida ameaçados pela seca crônica.
Nesse contexto, altos
funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) celebraram, no dia 17, o Dia
Mundial de Luta Contra a Desertificação com o tema “A terra pertence ao futuro,
vamos protegê-la da mudança climática”. “Com o crescimento da população
mundial, temos urgência em trabalhar para construir a capacidade de recuperação
de todos os recursos de terras produtivas e das comunidades que dependem
deles”, afirmou, no mesmo dia, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em
mensagem enviada de Bonn, na Alemanha.
A Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) prevê aumento de 50% na demanda
por alimentos até 2050, embora os cientistas alertem que o rendimento de
cultivos como trigo, arroz e milho poderá cair 20% na próxima década devido às
temperaturas mais elevadas. A escassez de produtos de primeira necessidade
poderia levar à absorção de mais terras pela agricultura industrializada, um
dos motores do aquecimento global já que responde por 15% a 30% das emissões de
carbono e metano em todo o mundo, o que, por sua vez, provoca a desertificação.
Aproximadamente 35% da
superfície terrestre é composta por terras áridas, incluídas as savanas, os
matagais e as florestas secas, que em conjunto capturam 36% do carbono e
sustentam 50% do gado no planeta. Essas terras secas naturais proporcionam
excelente exemplo de regeneração dos solos degradados e inspiraram uma solução
para a desertificação baseada no ecossistema, cujo objetivo é reforçar os
sistemas naturais para amortizar os piores impactos da mudança climática.
“Um bom exemplo da
adaptação baseada no ecossistema pode ser visto no Níger, onde a regeneração
natural administrada pelos agricultores recuperou cinco milhões de hectares de
terra”, disse à IPS Louise Baker, assessora da Convenção das Nações Unidas para
a Luta Contra a Desertificação (CNULD). “Pequenas mudanças nas técnicas do uso
da terra – como construção de terraços ou instalação de tanques para coleta de
água – podem ser um grande diferença. Depois disso cabe aos governos e
latifundiários atar as pontas e gerar um leque de usos da terra, que juntos
sejam um pacote resistente”, acrescentou.
Em cerimônia realizada na
sede do Banco Mundial, em Washington,no dia 17, a CNULD entregou seu
prestigiado prêmio Terra para a Vida a duas organizações, do Afeganistão e da
Mongólia, que lutam contra a desertificação mediante a adaptação do
ecossistema.
Em Bamyan, a árida
província central do Afeganistão, a Organização para a Conservação das Zonas
Montanhosas Afegãs recuperou 50% das vulneráveis pastagens do lugar com a
plantação de árvores, soluções de tecnologia ecológica em mais de 300 povoados
e sistemas de irrigação por gravidade. Na Mongólia, os mais de 25 mil
voluntários da Rede da Ásia Verde plantaram árvores para paliar a
desertificação que afeta 78% do território nacional. Refugiados climáticos que
haviam abandonado a região regressaram a um lugar que mal reconhecem com sua
nova vegetação.
Mas grupos ativistas
afirmam que o próprio Banco Mundial tem parte da culpa pelos problemas da
mudança climática, pela insegurança alimentar e pela desertificação, já que
promove a agricultura em grande escala e as monoculturas no Sul em
desenvolvimento.
A campanha Nossa Terra,
Nosso Negócio, lançada pelo Instituto Oakland, dos Estados Unidos, dedicado à
pesquisa, e organizações não governamentais e camponesas de todo o mundo, busca
“responsabilizar o Banco Mundial por seu papel no roubo desenfreado de terras e
recursos de agricultores, pastores e comunidades indígenas, que atualmente
alimentam 80% dos países em desenvolvimento”, segundo comunicado que divulgaram
no dia 31 de março.
A campanha culpa os
índices Doing Business do Banco Mundial – que classificam os países segundo as
facilidades que dão às empresas privadas, na opinião dos funcionários de
Washington – por obrigarem os governos de países do Sul em desenvolvimento a
flexibilizarem suas normas ambientais, violar as leis trabalhistas e desregular
suas economias com a esperança de atrair o investimento estrangeiro.
O investimento mundial no
Sul se dirige “principalmente à agricultura e à extração de recursos naturais”,
destacou o diretor de políticas do Instituto Oakland, Frederic Mousseau.
“Graças às reformas e políticas recomendadas pelo Banco Mundial, Serra Leoa
retirou 20% de suas terras cultiváveis da população rural e as arrendou para
produtores estrangeiros de cana-de-açúcar e óleo de palma”, acrescentou.
“Na Libéria, grandes
empresas de óleo de palma da Grã-Bretanha, Malásia e Indonésia têm contratos de
arrendamento de longo prazo em mais de 1,5 milhão de hectares de terras que
antes pertenciam às comunidades locais”, segundo o Banco Mundial. “Essas
políticas são exatamente o contrário do que precisamos para combater a
desertificação, que só pode ser obtido com a diversificação da agricultura, o
reflorestamento, os cultivos intercalados e outras técnicas praticadas por
pequenos agricultores”, pontuou Mousseau à IPS.
“Em Mali, por exemplo, os
camponeses que vivem em torno do rio Níger buscam apoio oficial para a prática
da agricultura tradicional. Por outro lado, o governo entregou 500 mil hectares
de terras mais férteis a 22 investidores estrangeiros e nacionais para a
produção de agrocombustíveis e monoculturas”, contou Mousseau. “Trata-se de um
país onde o Banco Mundial é muito ativo com a aplicação de políticas que
beneficiam os investidores estrangeiros enquanto consomem os seus recursos”,
ressaltou.
Investimento versus inovação
O Banco Mundial reclama
maior investimento e financiamento para enfrentar a mudança climática e se
preparar para as crises futuras, mas Baker, acredita que se pode obter mais
resultados com o reordenamento dos fundos existentes e das técnicas de gestão
da terra. “A terra em si poderia contribuir para capturar até três bilhões de
toneladas de carbono por ano, o que representa um terço da capacidade potencial
de mitigação que se pode conseguir apenas mudando a forma de geri-la”, garantiu
à IPS.
“Há aproximadamente dois
bilhões de hectares de terra degradada em todo o mundo com capacidade de
recuperação, e cerca de 480 milhões de hectares de terras agrícolas abandonadas
que podem voltar a produzir, sem necessitar de investimento adicional, só com um
reajuste de prioridades”, apontou Baker. “Por exemplo, o investimento no uso de
fertilizantes pode ser importante, mas, se em seu lugar investirmos em
incentivos para melhorar a gestão sustentável da terra, poderemos conseguir que
esta capture o carbono e ajudar as populações a serem mais resistentes à
mudança climática e não dependerem da produção com fertilizantes”, concluiu.
Fonte/Foto:
Envolverde - Kanya D’Almeida – IPS/Bigstock


Nenhum comentário:
Postar um comentário