NA CORDA BAMBA


Procurar fazer muito melhor do que ontem depende de determinação e, sobretudo, de bênçãos divinas, mas esse bem-querer, na atualidade, encontra-se em declínio, e pautar as ações de modo a serem muito mais produtivas, ao que parece, não encontra tantos adeptos quanto se imagina. O que está mais na onda é enveredar pela estrada da indiferença no rumo certo da balbúrdia, enterrando em definitivo os nobres ideais de outrora.
Tentações e fantasias são irmãs do bem ou malfeitoras e sempre se espalharam com força descomunal numa comunidade, no entanto a opção de vivenciá-las só depende do querer de cada um. E quem ainda não enveredou por esse majestoso portal? Poucos, muito poucos talvez; porém não se sabe, e isso não deixa de ser uma ótima opção para alimentar espíritos alquebrados ou não.
As exigências por comportamentos decentes lentamente vão esvaindo-se; desse modo, saber quem realmente as coloca em prática está tornando-se cada vez mais difícil de ver. O que se vê é muitos cobrarem, e dificilmente são exemplos válidos a serem seguidos. Você é você ou não é? Pergunta capciosa, hoje tão difícil de ser respondida, dadas as circunstâncias e os pesos para se aferirem os princípios e os padrões “exigidos” pelo grupo social organizado a que se pertence – se é que existe algum.
O que está na moda e fazendo a onda é envenenar mentalmente vítimas em escala; e, uma vez envenenadas, passam a agredir com palavrões professores e ir às vias de fato com eles, com colegas de aula, além de desrespeitar velhinhos, não oferecer assento a pessoas mais velhas, usar estiletes, facas e revólver no cursinho como instrumento escolar a pretexto de defesa própria, abiscoitar o celular do colega, esbofetear a mãe, agredir a pauladas o vizinho, furar a fila como se fosse um grande feito e ser “esperto” praticando a pedofilia e comprometendo uma vida infanto-juvenil por todo o sempre.
Uma bandeirola que se encontra muito em voga pelos teens e pelos demais admiradores de racismo social é ficar plantando nas redes sociais, nos shoppings, nos eventos e nas esquinas da vida o deboche sobre os supostos defeitos de um povo. Há um mundo fascinante de piadas de mau gosto, e muitas são espalhadas em forma de entretenimento venenoso, cuja essência é unicamente colocar para fora os recalques encubados e o potencial do quanto são ou foram mal-amados.
Lesando-se e lesando a pátria, além da comunidade e da vizinhança em geral, os pimpolhos vão aos poucos construindo o mundo da fina flor dos mais tenros furúnculos que haverão de ser os primores de chagas inseparáveis que os acompanhará até o término de seus dias. Questionar os responsáveis por essas desventuras caprichosas e bestiais que se tornaram a coqueluche do momento se tornou um acinte aos princípios, aos bons modos, ao novo jeito de se viver.
Ou se irmana a nova conjuntura ou se estará fora do “circuito social”, e, em ficando de fora desse novo panorama, o indivíduo será visto por todos com o mais autêntico imbecil, uma besta quadrada dissociada do mundo globalizado a que o sistema rebocou – queira ou não. Essa é a nova lei! Poucos – muito poucos – ainda ensaiam iniciar levantes em favor da importância de se vivenciarem os valores de suas origens, e, ao fazê-lo, mesmo apondo pequenas mensagens nas redes sociais, percebe-se que são tomados pela indiferença da maioria, recebendo o rótulo de ultrapassados, vistos como nada além de meros pensadores carregados de profundos sentimentos de saudosismo.
Na nova era comandada pelos imbecis dominantes, prevalece a imperiosa aliança entre a indiferença e a desigualdade. Para plantar os tentáculos da chula fraternidade social, ainda bem cedo, os noviços mercadores recorrem à prática das lições recebidas dos genitores e começam a adulterar o peso da balança e, com maestria singela, não passam o devido troco, substituindo a moeda pela mercadoria mais próxima. Depois, todos comemoram a adulteração do peso da balança e os demais prejuízos causados aos desavisados.
Assim, a moeda de troca adulterada ou de permuta é eleita como um verdadeiro referencial de valores junto a todos aqueles que fazem parte do nicho antissocial. E a tendência malfeitora das investidas é ir gradativamente multiplicando-se, pois ficou patente que os frutos do descaminho aplicado são o que realmente se tornaram aceitáveis e verdadeiramente apreciáveis por todos que integram a clientela teen dos caolhos emergentes do século XXI.
Enquanto isso, os responsáveis – cegos e orgulhosos pelos louros conquistados pelos filhotes – seguem fazendo vistas grossas aos diminutos furtos e ainda dão aquela força. Mal sabem da dimensão da sinuca de bico que o futuro lhes reserva na dura esquina da vida. Quando vem à tona o infortúnio patrocinado, a primeira providência que tomam é eleger os culpados. Primeiro elegem a Deus pelo “castigo” merecido; depois o poder público; e, por último, a escola, que um dia recebeu o próprio filho, o qual não sabia sequer fazer um “o” com o fundo de uma garrafa ou com um canudo.
Pelo sim, pelo não, o curso natural da desintegração social juvenil é ir paulatinamente crescendo. E tal situação contagiante atingirá patamares que governo nenhum no mundo terá ao menos, a curto e médio prazo, como frear os nocivos levantes dessa nova cruzada. É isso mesmo! Essa é uma nova cruzada. Porém diferente das ocorridas outrora. Nessa, nenhum pimpolho será levado ao paredão, à fogueira; e muito menos será empalado. É muito mais fácil o responsável ser condenado à fogueira.
É bom que se diga que, nesse mercado de desestruturação, com o pretexto de rearrumação, atuam todos os tipos de organizações oficiais, não oficiais e até omertas de várias bandeiras que enlutam famílias em todos os níveis sociais. Quando uns poucos percebem que está na hora de dar um basta momentâneo, inventam ONGs picaretas para todos os gostos, e o governo, sendo sabedor ou não de suas origens, passa a atuar desejando frear o caos com o uso de carros blindados, tanques de guerra, metralhadoras, além de mandar meter bala nos ex-pimpolhos, agora adultos indigentes.
E pergunte-se: onde já se viu curar as doenças da alma e do espírito à bala? É claro que não! Todos são conhecedores de que não conseguirão reverter a calamidade pública, visto que agora a sociedade de teens, mesmo desestruturada, já conta com o patrocínio do crime organizado de forma velada. E o Estado, impotente, não pode fazer muita coisa; e, se teimasse em ter o absoluto controle, patrocinaria milhares de desempregos em todas as esferas.
Assim, continuemos a permanecer em nossa morada, verdadeira prisão de portas abertas, uma vez que a cerca elétrica não pode ser desligada, as cortinas devem ficar permanentemente fechadas, e é preciso torcer para não ir embora a luz; do contrário, os mimados podem fazer uma boa visita capaz de tornar-se inesquecível para o resto de nossa vida. Infelizmente todos estão na corda bamba.

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Autor: Lison Costa


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