INSÓLITOS DA FLORESTA?


As manhãs de setembro surgem mais belas e saúdam a todos os ribeirinhos às margens do rio Amazonas. Os cânticos matinais dos pássaros dourados e multicoloridos ecoam selva adentro e reverberam sobre as águas paradas do suntuoso lago, fazendo vibrar a mais ínfima fibra jamais vista pelo homem.
Intuitivamente o velinho percebe as energias vibrando na mais longínqua copa da frondosa sumaumeira. É o rufar da sapopema. Nesse momento, centenas de painas plainam levemente sobre a vegetação disforme. Por instantes, veem-se algumas sementes aterrissar por entre folhas verde-musgo, agasalhando-se nas diminutas frestas do barreiro forrado de vegetação nativa – local de caça de belíssimas onças pintadas tendo à beira do rio o olhar capcioso do jacaré que finge dormir.
Lugar encantador! Relembro que papai sentava-se e pegava um molho de tabaco, migava o bastante para encher a pequena bolsa, enrolava a sobra no papelinho e se punha a fumar. Na saída, enlaçava uma espingarda calibre doze, marca Tauros, e pegava a primeira estrada em busca de uma anta ou um caititu. Algumas vezes retornava abastecido. Noutras não. A sorte estava mais para a caça e, desse modo íamos levando uma vida simples.
Dentre muitas caçadas, certa vez, papai não envidou esforços e, na ânsia de não deixar faltarem alimentos em casa, entrou na floresta. A trilha era quilométrica, sinuosa e decorada por médios e longos penhascos. Conhecedor de toda a sua extensão, seguiu em frente até que subitamente se deu conta de que algo lhe seguia e, quando olhava para trás, nada via. Não encontrando sequer um tatu, quando pensou em retornar, um bicho desferiu-lhe a primeira lambada, arremessando-o ao chão.
Ao tentar levantar-se, levou as mãos aos ouvidos, pois ainda ouvia o som do chicotear nos seus tímpanos, quando, de repente, uma nova cipoada atingiu-lhe as costas, e as demais o fizeram dormir longamente. Recobrando os sentidos, deu-se conta de que as pernas estavam fracas. Mesmo assim, a passos trôpegos, conseguiu alcançar o igarapé, ocasião em que, lentamente, foi passando água sobre os hematomas recebidos.
Interrogações pairavam. Ainda um pouco abatido, buscava encontrar respostas para o episódio; foi quando passou a se dar consciência de que estava com febre. Determinado, punha-se a fazer o caminho de volta e novamente foi atacado pelo “bicho-feio”, vindo a perder os sentidos, sendo encontrado por outro caçador, que generosamente o carregou até nossa casa.

Trechos do livro: “Amazonas, Esplendor da Natureza”, págs. 127, 128 e 129.

Autor: Lison Costa.

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